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Estímulo ao consumo em tempos de crise ameaça futuro sustentável

segunda-feira, 1 de março de 2010

Pesquisa mostra que se todos os consumidores seguissem padrão norte-americano, seriam necessários 4,5 planetas para atender à demanda.

Se o impacto do ser humano na Terra fosse medido segundo a numeração de roupa, seria possível dizer que a humanidade, de tamanho 54, tenta ocupar um planeta cujo o formato é capaz apenas de suportar o tamanho 34.

“Nós vivemos num planeta em que, em menos de 200 anos, saltamos de 1,5 bilhão de pessoas para 6,5 bilhões. Em 40 anos, deveremos ser 9 bilhões na Terra. Precisamos entender que não estamos enfrentando um problema pequeno, como escassez de petróleo: viveremos o fenômeno de que tudo será escasso.”

A conclusão pouco animadora é de Achim Steiner, diretor do Pnuma, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Em sua atribuição, ele se preocupa com as medidas econômicas adotadas pelas nações industrializadas: o consumo como remédio para combater a recessão.

"Eu quero que você, continue comprando"

Sociedade do consumo

A ideia está por toda a parte: quanto mais se compra mais feliz se vive. E também se consolida nos estudos de psicologia.

“Durante séculos, milênios mesmo, tivemos que acumular para sobreviver. Quem acumulava mais tinha melhores chances de resistir ao próximo inverno. Isso, aprendemos ao longo da nossa história. Atualmente, as pessoas continuam seguindo esse padrão de comportamento. Elas creem: preciso ter cada vez mais e mais, porque assim minha sobrevivência e minha felicidade estarão garantidas”, analisa Tal Ben Shahar, que conduziu uma pesquisa sobre o assunto em Harvard.

Tempo de ser sustentável

Há quase 40 anos, o Clube de Roma, uma organização ambientalista que prega uma mudança de pensamento global para diferentes questões políticas, profetizou o fim da sociedade consumista no relatório Fronteiras do crescimento. Aparentemente, o prognóstico não se consolidou, tendo em vista a geração que vem por aí.

Charles Hopkins, membro da UNESCO e professor da Universidade York, em Toronto, ressalta que as gerações futuras terão que encontrar soluções para questões ligadas à agricultura, escassez de água e diminuição do estoque de peixes.

O pesquisador acrescenta: “E não podemos esquecer que as próximas gerações terão que triplicar o abastecimento de energia. E o mais complicado: a produção de energia precisa ser livre de emissões de carbono. Ainda não temos solução para o problema atualmente, mas já sabemos que o sistema energético no futuro precisa ser neutro em CO2″.

Em sua pesquisa intitulada Transformação da cultura: Do consumo à sustentabilidade, Hopkins calcula qual padrão de vida manteria o planeta estável. Se todos os 6,5 bilhões de habitantes vivessem segundo os padrões norte-americanos de consumo, seriam necessários 4,5 planetas Terra para atender à demanda. Se o fosse adotado o exemplo europeu, três planetas dariam conta da sede dos consumidores. E mesmo o nível de vida da Tailândia ou da Jordânia excederia a capacidade sustentável.

Mudança ou futuro sombrio

“O princípio básico: precisamos de mais eficiência e menos lixo. A natureza não sabe o que é lixo. O que para um organismo é descartado como resíduo, para outro pode ser fonte de alimento”, ressalta Achim Steiner. O pesquisador lembra a importância da adoção de um sistema semelhante na sociedade moderna. “Temos apenas que fazê-lo de uma maneira economicamente plausível.”

Esse seria o fim da sociedade do descartável. E, como espera Charles Hopkins, haveria uma renascença do modelo de economia verde. “A solução não está apenas em aumentar a eficiência. Como efeito final, Isso significaria apenas mais produção de mercadoria mais barata e, com isso, extinguir ainda mais rápido as fontes não-renováveis. Se não mudarmos o modo de pensar de forma radical, podemos nos conduzir ao abismo”, teoriza Hopkins.

A conclusão de Steiner não é diferente. “Uma coisa nós já sabemos com certeza: não poderemos viver pacificamente neste planeta se continuarmos, no século 21, seguindo o modelo econômico do século 20.”



Autor: M. Amberger / H. Jeppesen / N. Pontes
Revisão: Augusto Valente

Reportagem da Agência Deutsche Welle,
DW-WORLD.DE, publicada pelo EcoDebate, 01/03/2010

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