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Contra preço da gasolina, motoristas protestam abastecendo a R$ 0,01

segunda-feira, 9 de maio de 2011


Com buzinaço, tudo pacífico e bem humorado, os motoristas queriam dizer que o preço real dos combustíveis não tem graça nenhuma.


Em Brasília, a noite foi de buzinaço contra o preço dos combustíveis. O motorista inovou e protestou de uma forma curiosa. O protesto não tem nada de ilegal, mas tem dono de posto à beira de um ataque de nervos. Apesar da confusão, das filas e da demora para abastecer o carro, quase ninguém reclamou.

“Eu quero R$ 0,50 de gasolina”, pediu o vigilante Domiciano de Jesus. Isso mesmo: R$ 0,50 de gasolina com nota fiscal. Foi assim que motoristas de Brasília criaram tumulto de posto em posto. Era o que eles queriam: parar o trânsito em protesto contra o preço alto da gasolina e do álcool.

“A cada dia que passa só aumenta, só aumenta, e nosso padrão de compra continua o mesmo”, aponta o professor Guilherme Soares.

Em Brasília, este é o terceiro protesto contra o preço dos combustíveis em uma semana. Na capital federal, os motoristas reclamam também da falta de concorrência entre os postos. “Se você olhar nas bombas, em todas elas o preço é o mesmo”, disse um motorista.

Não é só uma impressão do consumidor. Um levantamento feito em 111 postos mostrou que a diferença entre o preço mais barato e o mais caro era de R$ 0,01.

Teve buzinaço também em Goiânia. Com a gasolina a R$ 3,17 em média, Goiás é o estado onde o combustível está mais caro, de acordo com a Agência Nacional de Petróleo (ANP). “Realmente está um abuso”, protestou um motorista.

Desde 2009, a Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça investiga se existe cartel entre os postos de combustível do Distrito Federal. Quando empresas combinam os preços e os reajustes. O levantamento da ANP, que mostrou uma diferença de R$ 0,01 no preço da gasolina, vai ser levado em conta.

http://g1.globo.com/

Inside Job - Trabalho Interno (2010)

domingo, 27 de março de 2011




Conheça os bastidores da maior crise financeira de nossos tempos. Depoimentos surpreendentes, que revelam como a corrupção está intimamente ligada ao fatos que levaram milhões de pessoas a perderem seus empregos e até mesmo quase tudo o que juntaram na vida.
(EUA, 2010, 104min. - Direção: Charles Fergunson)



Fonte: Docverdade

Discurso ou Revólver - Facção Central

sábado, 19 de março de 2011


Uma música crítica, que mostra a verdadeira face do sistema. Um sistema que impõe brigas entre diferentes classes sociais, faz a classe média ter medo dos mais pobres, por considerá-los todos assaltantes e bandidos enquanto os ricos se divertem às custas de impostos e caos social. Uma canção que mostra a problemática que vem dos níveis sociais menos favorecidos, onde opção é igual a sorte (que só ocorre em mínimos casos), enquanto a grande maioria desfavorecida pela lei do dinheiro passa fome. Só há uma solução para a sociedade hierárquica em que vivemos, e é a revolução.




Letra:

A igualdade social é só em conto de fadas, felicidade é só em
Sonho, só em mágica. Acredito na palavra ou na metralhadora,
Revolução verbal ou aterrorizadora. Vamos queimar constituição
Com coquetel molotov, carro bomba no congresso, tic tac explode,
Suplicar pro gambé derrubando sua porta não bater na sua mulher
Não atirar nas suas costas.

Até quando comer resto, lavar banheiro abrir o boy no meio na
Ilusão de dinheiro, ser exterminado como judeu em Auschwitz,
Mostrar pra globo o que é viver no limite. a custa atlanta
Queimando na sua frente, a SS agora veste o cinza da PM, de
Braço cruzado é só miolo espalhado no chão, discurso ou
Revólver, tá na hora da revolução.

(2x)
Tá na hora de parar de mofar no presídio, de estar no necrotério
Com uma par de tiros, de ser o analfabeto comendo resto viciado que
O denarc manda pro inferno.

Fizeram da sua rua filial do vietnã, deram rifles pras crianças
Estupraram sua irmã, exilaram na favela o cidadão na teoria
Oprimido, censurado no país da democracia. te dão crack, fuzil,
Cachaça no buteco esse é o campo de concentração moderno.

Hitler, fhc, capitão do mato, bacharelo em carnificina, mestrado
Em holocausto, chega de bater palma tomando tiro, facada, de
Prato vazio, vendo o boy suar na sauna o sistema te quer no viaduto com água na boca com a garrafa cortada na mão esperando a
Kombi trazer sopa no chiqueiro do navio negreiro consertar na
Porta, morto pelo senhor do engenho com farda e pistola, que só
Em cabeça de pobre descarrega sua munição, discurso ou revólver
Ta na hora da revolução.

Prevejo o mercado saqueado bala de borracha, escudo do choque
Tomando pedrada, guerra civil em praça pública socorro professor
Com sangue no rosto, mordida de cachorro, sem teto, sem terra,
Sem prespectiva, sem estudo, sem emprego, sem comida, o pavil da
Dinamite ta aceso, qual será o preço pra eu ter os meus direitos.
Sequestrar, tirar, queimar pneu na avenida, invadir a fazenda
Improdutiva, só jogamo ovo por isso nada mudou, quem sabe o
Presidente na mira do atirador. Em são paulo 35 por dia chega,
Tolerância zero, ou cavar trincheira, serial killer do planalto
Continua em ação, discurso ou revólver ta na hora da revolução.

A favor do inimigo repressão desinformação, o domínio dos dois
Caminhos pra revolução. caminho um a voz do povo aqui não é a
Voz de deus, se tua casa é de caxote de feira problema seu,
Tanto faz sua filha no motel ganhando trocado, tanto faz seu
Filho com a doze matando vigia no assalto. se vier pro asfalto
Fazer passeata, aí o pm te mata, te faz engolir bandeira e
Faixa. caminho dois desconhecendo cenário político, onde jogar
Granada, quem é o nosso inimigo entendeu por que não tem, escola
Pra você toma uzi e me diz quem tem que morrer, não adianta ser
Milhões se não somos um, ação coletiva, objetivo comum, discurso
Ou revólver não interessa a opção sem união é impossível a
Revolução.

Limites da Solidariedade.

sexta-feira, 18 de março de 2011


Obviamente a compaixão por um ser indefeso e irracional vale ABSOLUTAMENTE mais do que a defesa por um semelhante, marginalizado e miserável.


visto no treta

Michael Moore: "Fomos vítimas de um golpe de Estado financeiro"

quinta-feira, 10 de março de 2011


Para nós, admitir que deixamos um pequeno grupo roubar praticamente toda a riqueza que faz andar nossa economia, é o mesmo que admitir que aceitamos, humilhados, a ideia de que, de fato, entregamos sem luta a nossa preciosa democracia à elite endinheirada. Wall Street, os bancos, os 500 da revista Fortune governam hoje essa República – e, até o mês passado, todos nós, o resto, os milhões de norte-americanos, nos sentíamos impotentes, sem saber o que fazer. Ninguém saiu às ruas. Não houve revolta. Até que...começou! Em Wisconsin! O artigo é de Michael Moore.




Discurso proferido por Michael Moore, dia 5 de março, durante manifestação em Madison, Wisconsin, contra o pacote de medidas contra o funcionalismo e o serviço público proposto pelo governador republicano Scott Walker (com cortes de US$ 1,6 bilhão no orçamento de escolas e governos locais). Intitulada "Os Estados Unidos não estão falidos", a declaração lida por Moore está disponível na íntegra no site do cineasta.


O discurso foi traduzido e publicado em português pelo site Carta Maior, acesse aqui.


Fonte: Carta Maior




O espírito jovem sedento por Revolução

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Em nosso círculo social geralmente encontramos pessoas com o mesmo pensamento, com as mesmas conversas e com os mesmos objetivos pessoais. O pensamento mostra-se na maioria dos casos alienado e conservador; as conversas baseiam-se em status, luxo e poder; e os objetivos pessoais fatidicamente se voltam para dinheiro, reconhecimento profissional e lucro.


Numa conversa, mesmo que breve, assuntos que envolvam capital sempre vêm a tona. Parece às vezes que as pessoas se sentem pressionadas a falar sobre tais coisas, sob pena de exclusão se não estiverem interados desses assuntos. E isso não tem idade, desde os jovens, até os mais velhos incutem o valor de “ser alguém na vida” (leia-se ser rico). Enquanto a nova geração narra suas pretensões, sua ânsia por ter um carro novo com um motor potente, por ter roupas de marca, dinheiro e fama; os adultos/idosos contam sobre o que conquistaram, quanto dinheiro conseguiram e como viveram confortavelmente em sua fartura, em sua riqueza, no pleno conforto da presença em materiais mas ausência em ideais.


Invariavelmente a ideologia capitalista passa de forma notória, mas imperceptível de pai para filho. A propaganda, com sua contribuição generosa dá o empurrão final para tornar qualquer cidadão um consumidor em potencial, servo das tendências de mercado. São poucas as pessoas conscientes, que não sobrepõem produtos a pessoas, que não se tornam fantoches da mídia, que pensam e sabem da importância de não ser apenas mais uma peça do sistema.


A futilidade humana chega a ser por vezes impressionante, cada um se preocupa com seu próprio potencial em fazer dinheiro. Os ideais em comum, interesses do “homem médio” muitas vezes são esquecidos por ele próprio, que está preocupado demais com sua rotina, cansado demais de seu árduo dia de trabalho para questionar erros na sociedade e falhas na política.


O exemplo perfeito para essa situação foi o 5º ato contra o aumento das tarifas de ônibus em SP, do dia 10/02. O número de manifestantes não passou de 5 mil, um fato curioso, já que um número absurdamente maior de pessoas faz uso dos transportes metropolitanos todos os dias. Aonde estão esses trabalhadores na hora de questionar seus direitos? Onde estão os milhões de votantes, que elegeram o prefeito Gilberto Kassab e agora sofrem com o preço absurdo colocado nos transportes? Em que lugar se escondem os famosos “reclamões de sofá”, que assistem Jornal Nacional e resmungam da política diariamente no conforto de seus lares?


O ativismo hoje é tema de deboche, foi o que pude perceber ao participar dos atos e me sentir mais perto do povo. As pessoas passam nas ruas, nas lojas, em seus carros, e até mesmo nos próprios ônibus lotados e riem um sorriso insosso, amarelo, que sente “vergonha” daquele movimento e crê que aquela passeata é algo passageiro, coisa de jovem “bagunceiro” que não tem mais o que fazer. Irônico pensar que jovens ativistas são vistos dessa maneira, que as poucas pessoas conscientes, que lutam por seus direitos são marginalizados pela mesma sociedade que eles estão lutando para conscientizar e mudar.


Estamos dentro de um contexto ambicioso, que arquiteta planos para tornar a sociedade cada vez mais piramidal e desnivelada. Essa estrutura de organização social pode ser facilmente comparada com nossa estrutura de organização intelectual, onde, um grupo cada vez mais seleto se põe a disposição do todo, da massa, da revolução. A grande maioria, focada em seu egocentrismo hipócrita se esconde a trás da máscara de mentiras que o dinheiro proporciona. A verdadeira liberdade de pensamento, o verdadeiro ativismo está além do que a televisão te mostra, está na mobilização consciente, semelhante ao que pude ver nos Atos que tive o prazer de ir. Se sentir mais um no meio de tantos seres que partilham de seus ideais e de sua descrença em nossa atual situação é no mínimo emocionante.


“Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética” foi o que disse certa vez El Fuser, um de meus maiores heróis. E mesmo ainda sendo exceção, no meio de uma juventude cada vez mais transviada e despreocupada com o mundo que a cerca, sinto-me feliz, livre dos grilhões do pensamento padronizado e disposto a alimentar cada vez mais meu espírito sedento por revolução. O seu dinheiro pode comprar tudo, menos minha vontade de fazer justiça

Ilha das Flores

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Pequeno documentário que demonstra o processo de troca na sociedade de consumo, demonstrando a trajetória de um único produto: o tomate. A primeira vista, o filme pode parecer um pouco besta, mas com o rolar das cenas, percebe-se que se trata de muito mais do que um simples documentário didático. Através do filme, o diretor, demonstra a realidade da sociedade em que vivemos, onde dinheiro está acima da dignidade humana.




Ficha Técnica

Ilha das Flores
País/Ano de produção:- Brasil, 1989
Duração/Gênero:- 13 min., documentário
Disponível em vídeo (na fita "Curta com os Gaúchos")
Direção de Jorge Furtado
Roteiro de Jorge Furtado
Elenco:- Ciça Reckziegel, Gozei Kitajima, Takehijo Suzuki.
Narração de Paulo José.

Somos todos malabaristas de farol

domingo, 6 de fevereiro de 2011


“Essa é sua vida, e está terminando a cada minuto”, você acorda no carro, preso no trânsito, exposto ao calor intenso do litoral, esperando pacientemente pela troca de cores do semáforo. Olha pra esquerda e vê um garoto, de aproximados 10 anos de idade, sem camiseta, sem chinelos, apenas uma bermuda cobrindo seu corpo magro e moreno. Seu rosto não expressa nada, não transmite nada, apenas te olha, fixamente e vai a sua direção.


Com seus pequenos pés descalços ele anda até a frente do carro, suas mãos seguram malabares, com os quais ele tentará ali, naqueles poucos segundos ganhar uma moeda, uma nota, mas, provavelmente ganhará um “não tenho nada, meu filho”. Num gesto quase que mecânico, automático, de quem não faz aquilo por diversão, mas sim pela ânsia de sobreviver ele inicia os movimentos, uma peça de cada vez, até tê-las todas no ar, girando, equilibrando por um curto espaço de tempo, torcendo para que o motorista se impressione com sua habilidade, ou, o mais provável, dê-lhe dinheiro para que ele saia de lá logo.


Ele termina seu trabalho, se aproxima do carro, de vidros fechados que resguarda um refrescante ar condicionado, luxo para poucos, no meio daquele calor úmido e desgastante. Pelo vidro é possível ver seus olhos verdes, contrastantes com sua pele morena e seu cabelo enrolado, marcas profundas da miscigenação brasileira, a qual aquela criança foi exposta, fruto não só de heranças físicas, mas também herdeiro da pobreza e da desigualdade.


O vidro se abre, o motorista indaga o que o menino quer. Prontamente ele responde: “dinheiro!”. Ah, o dinheiro! A palavra mágica, a poderosa máquina de deturpar mentes, mover barreiras e gerar intrigas. Nada mais justo do que presentear o garoto com aquelas poucas moedas, troco de alguma compra que ficaram ali, no carro, exatamente para uma situação como essa. Num mundo onde tudo é lucro, tudo se compra, e nada é de graça, outra resposta vinda daquele menino seria no mínimo inusitada. As moedas passam da mão do motorista para aquela pequena mão, suja e áspera, marcada pelo trabalho, pela ausência de diversão.


De sua boca ressecada, ele pronuncia um agradecimento rápido e tímido, e eu, consigo olhar por uma última vez aqueles olhos marcantes, sinceros e tristes, antes que a pequena criança vire as costas e corra na direção de outros 5 jovens, trajados da mesma forma que ele, semelhantes fisicamente e também marcados como alvos da desigualdade.


É exatamente ai, nesse ponto, que me dou conta que somos todos malabaristas de farol, estamos todos seminus, expostos, vítimas do sistema que nos obriga a ser o que querem que sejamos. Nossos malabares são nossos amigos, nossos sonhos, nosso caráter, que estão em jogo, sendo apostados, podendo cair e se perder. Arriscamos pessoas que amamos, nossos objetivos pessoais, nossos sonhos de igualdade, nossa luta por justiça, nossa dignidade para ter dinheiro. Somos uma geração de caçadores de recompensa, sedentos por “ser alguém” dentro do mundo corporativo, por ser reconhecido profissionalmente num lixo de emprego que talvez nem gostemos, mas que provavelmente será necessário para nos adequar ao mundo capitalista e não nos tornar igual a aquele menino, e seu incerto trabalho nos semáforos das cidades. No final das contas, todos morreremos, e todas as nossas “realizações profissionais” serão apagadas da história, nem seu chefe, nem seu subordinado se lembrará de você, sua vida passageira termina e você se torna somente sombra e pó, nada mais.


Essa epifania serviu pra entender que somente realizações sociais, ativismo político, luta por mudanças fica marcado. As pessoas (as boas pessoas) se lembrarão de você por quem você foi e como agiu, e não pelo quanto de dinheiro tinha no bolso. A questão que fica é: Sendo malabaristas de farol, o que passa em nossas mentes, o que estamos dispostos a fazer se o motorista nos nega dinheiro? Até onde somos capazes de ir para ter o “precioso”.


“Você não é o seu trabalho. Você não é quanto dinheiro tem no banco. Você não é o carro que dirige. Você não é o conteúdo de sua carteira. Você não é nem o lixo das suas calças. Você é a merda ambulante do mundo”.

Bakunin sobre as autoridades

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011


Segue abaixo um trecho do livro Deus e o Estado, de Mikhail BAKUNIN (teórico político russo, principal expoente da ideologia anarquista). Neste trecho será possível perceber claramente a perspectiva contrária a toda e qualquer forma de dominação hierárquica na relação entre os homens. O desprezo pelas formas de governo, que limitam as capacidades dos cidadãos, reprimem suas opiniões e forjam padrões a serem seguidos. Num sistema capitalista, como o que ainda vivemos, há a sobreposição de uma elite (minoria) abastada que vive em dependência da miséria de muitos e, diante desse fato, Bakunin destaca sua rejeição a qualquer posição de privilégio que possa fazer um homem crer que é melhor, mais rico, importante ou capaz do que outro.

"Decorre daí que rejeito toda autoridade? Longe de mim este pensamento. Quando se trata de botas, apelo para a autoridade dos sapateiros; se se trata de uma casa, de um canal ou de uma ferrovia, consulto a do arquiteto ou a do engenheiro. Por tal ciência especial, dirijo-me a este ou àquele cientista. Mas não deixo que me imponham nem o sapateiro, nem o arquiteto, nem o cientista. Eu os aceito livremente e com todo o respeito que me merecem sua inteligência, seu caráter, seu saber, reservando todavia meu direito incontestável de crítica e de controle. Não me contento em consultar uma única autoridade especialista, consulto várias; comparo suas opiniões, e escolho aquela que me parece a mais justa. Mas não reconheço nenhuma autoridade infalível, mesmo nas questões especiais; consequentemente, qualquer que seja o respeito que eu possa ter pela humanidade e pela sinceridade desse ou daquele indivíduo, não tenho fé absoluta em ninguém. Tal fé seria fatal à minha razão, à minha liberdade e ao próprio sucesso de minhas ações; ela me transformaria imediatamente num escravo estúpido, num instrumento da vontade e dos interesses de outrem." Mikhail Bakunin.


Para os interessados, download do livro na íntegra, disponível aqui.




A história da água engarrafada

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011




Video: The Story of Bottled Water
Ano: 2010
Legenda: Português
Duração: 8:04 min
Escrito por Annie Leonard, Jonah Sachs, Louis Fox
Produzido por Free Range Studios
Dirigido por Louis Fox
Traduzido por Guilherme Machado, Michèle Sato e Patrícia Fish

Um ótimo vídeo de conscientização social e ecológica, que alerta a população em relação às estratégias das grandes corporações para lucrar dinheiro, mesmo nas coisas mais simples e essenciais, como a água. Através dessa história será possível entender uma grande mensagem de responsabilidade ambiental para combater a incessante busca predatória das empresas por lucro e dominação de mercado.



A raiva mal dirigida nos EUA

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Tomando emprestadas as palavras de Fritz Stern, o famoso estudioso da história alemã: tenho idade suficiente para lembrar-me daqueles dias ameaçadores nos quais os alemães despencaram da decência para a barbárie nazista. Em um artigo de 2005, Stern indica que tem o futuro dos EUA em mente quando repassa um processo histórico no qual o ressentimento contra um mundo secular desencantado encontrará a liberação no êxtase da fuga da razão. O mundo é demasiado complexo para que a história se repita, mas de todo modo há lições que devem ser relembradas. O artigo é de Noam Chomsky.

Nunca havia testemunhado tamanho grau de irritação, desconfiança e desencanto como o que presenciamos nos Estados Unidos por ocasião das eleições de metade de mandato. Desde que os democratas chegaram ao poder, estão tendo que lidar com nosso monumental incômodo pela situação social, econômica e política do país. Em uma pesquisa da empresa Rasmussen Records, realizada em outubro, mais da metade da cidadania americana assegura ver com bons olhos o movimento Tea Party: esse é o espírito do desencanto.

Os motivos de queixa são legítimos. Nos últimos 30 anos, os salários reais da maioria da população estancaram ou diminuíram, enquanto que a insegurança trabalhista e a carga de trabalho seguiram aumentando, do mesmo modo que a dívida. Acumulou-se riqueza, mas só em alguns bolsos, provocando desigualdades sem precedente.

Estas são as consequências derivadas da financeirização da economia, que vem se desenvolvendo desde os anos 70, e do correspondente abandono da produção doméstica. Recordando esse processo: a mania da desregulamentação defendida por Wall Street e apoiada por economistas fascinados pelos mitos da eficiência do mercado.

O público adverte que os banqueiros, responsáveis em boa parte pela crise financeira e que tiveram que ser salvos da bancarrota, estão desfrutando de lucros recordes e suculentas bonificações, enquanto os índices do desemprego continuam em torno de 10%. A indústria encontra-se em níveis similares aos da Grande Depressão: um de cada seis trabalhadores está desempregado, e o cenário indica que os bons empregos não vão voltar.

O povo, com razão, quer respostas e ninguém as dá, com exceção de umas poucas vozes que contam histórias com certa coerência interna: desde que se suspenda a incredulidade e se adentre em seu mundo de disparate e engano.

Mas ridicularizar as travessuras do Tea Party não é o mais acertado. Seria muito mais apropriado tentar compreender o que sustenta o encanto desse movimento popular e nos perguntar por que uma série de pessoas irritadas estão sendo mobilizadas pela extrema direita e não pelo tipo de ativismo construtivo que surgiu nos tempos da Depressão (como, por exemplo, o Congresso das Organizações Industriais, CIO).

Neste momento, o que os simpatizantes do Tea Party ouvem é que todas instituições (governo, corporações e corpos profissionais) estão apodrecidas e que nada funciona. Entre o desemprego e outros inúmeros problemas, os democratas não têm tempo para denunciar as políticas que conduziram ao desastre. Pode ser que o presidente Ronald Reagan e seus sucessores republicanos tenham sido os grandes culpados, mas essas políticas iniciaram já com o presidente Jimmy Carter e se intensificaram com o presidente Bill Clinton. Durante as eleições presidenciais, entre o eleitorado principal de Barack Obama estavam as instituições financeiras, que afiançaram sua primazia sobre nas últimas décadas.

Aquele radical incorrigível do século XVIII, Adam Smith, referindo-se a Inglaterra, diria que os principais arquitetos do poder eram os donos da sociedade (naqueles dias, os mercadores e industriais), e estes se asseguravam que as políticas do governo se ativessem religiosamente a seus interesses, por mais penoso que fosse o impacto sobre a população inglesa, ou pior, sobre as vítimas da “selvagem injustiça dos europeus” em outros países.

Uma versão mais moderna e sofisticada da máxima de Smith é a teoria do investimento em partidos políticos, do economista político Thomas Ferguson, que considera as eleições como eventos nos quais grupos de investidores se unem para poder controlar o Estado, selecionando para isso os arquitetos daquelas políticas que atendem aos seus interesses.

A teoria de Ferguson é útil para antecipar as estratégias políticas para longos períodos de tempo. Isso não é nenhuma surpresa. As concentrações de poder econômico procurarão de maneira natural estender sua influência sobre qualquer processo político. O que ocorre é que, nos Estados Unidos, essa dinâmica é extrema.

E ainda assim pode-se argumentar que os desperdícios empresariais têm uma defesa válida frente às acusações de avareza e desprezo pelo bem comum. Sua tarefa é maximizar os lucros e o “bem-estar” do mercado. De fato, esse é seu dever legal. Se não cumprissem essa obrigação, seriam substituídos por alguém que o fizesse. Também ignoram o risco sistemático: a possibilidade que suas transações prejudiquem a economia em seu conjunto. Esse tipo de externalidade não é de sua incumbência, e não é por que sejam más pessoas, mas sim por razões de tipo institucional.


Quando a bolha estoura, os que correram os riscos correm para o refúgio do Estado. As operações de resgate, uma espécie de apólice de seguro governamental, constituem um dos perversos incentivos que magnificam as ineficiências do mercado.

Cada vez está mais ampliada a ideia de que nosso sistema financeiro percorre um ciclo catastrófico, escreveram, em janeiro deste ano, os economistas Peter Boone e Simon Johnson, no Financial Times. Toda vez que ele sucumbe, confiamos que seja resgatado por políticas fiscais e dinheiro fácil. Esse tipo de reação mostra ao setor financeiro que ele pode fazer grandes apostas, pelas quais será generosamente recompensado, sem ter que se preocupar com os custos que possa vir a ocasionar, porque será o contribuinte quem acabará pagando por meio de resgates e outros mecanismos. E, como consequência, o sistema financeiro ressuscita outra vez, para apostar de novo e voltar a cair.

O dia do juízo final é uma metáfora que também se aplica fora do mundo financeiro. O Instituto do Petróleo Americano, respaldado pela Câmara de Comércio e outros grupos de pressão, intensificou seus esforços para persuadir o público a abandonar sua preocupação com o aquecimento global provocado pelo homem e, segundo mostram as pesquisas, obteve bastante êxito nesta tarefa. Entre os candidatos republicanos ao Congresso nas eleições de 2010, praticamente todo mundo rechaça a ideia de aquecimento global.

Os executivos responsáveis pela propaganda sabem de sobra que o aquecimento global é verídico e nosso futuro incerto. Mas o destino das espécies é uma externalidade que os executivos têm que ignorar, pois o que se impõe é o sistema de mercado. E o público não poderá sair em operação de resgate quando finalmente se confirme o pior dos cenários possíveis.

Tomando emprestadas as palavras de Fritz Stern, o famoso estudioso da história alemã: tenho idade suficiente para lembrar-me daqueles dias ameaçadores nos quais os alemães despencaram da decência para a barbárie nazista. Em um artigo de 2005, Stern indica que tem o futuro dos EUA em mente quando repassa um processo histórico no qual o ressentimento contra um mundo secular desencantado encontrará a liberação no êxtase da fuga da razão.

O mundo é demasiado complexo para que a história se repita, mas de todo modo há lições que devem ser relembradas quando verificamos as consequências de outro ciclo eleitoral. Não é pequena a tarefa diante de quem deseje apresentar-se como uma alternativa à indignação e à fúria enlouquecida, ajudando a organizar os não poucos descontentes e sabendo liderar o caminho para um futuro mais próspero.


Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Fonte: CartaMaior

Tendências Alienativas

segunda-feira, 15 de novembro de 2010






A informação transmitida diariamente pelos veículos de comunicação é realmente confiável? Você está sendo mais uma vítima do poder alienativo midiático? Como combater esse fato?


Estamos expostos todos os dias a meios de comunicações diferentes, notícias chegam até nós através de internet, rádio, televisão. Porém, vez ou outra, nos deparamos com um mesmo fato mostrado de forma controversa por dois veículos comunicativos. Isso se deve à parcialidade nas notícias, as emissoras de rádio, de televisão e os grandes sites de notícias são nada menos do que corporações, e, por serem “máquinas em busca do lucro, custe o que custar”, podem facilmente distorcer um fato de forma que favoreça sua fonte de capital (como seus patrocinadores, por exemplo). Faz-se essencial o estabelecimento de uma visão angular por parte de nós, receptores de notícias, de forma que filtremos o conteúdo, lendo mais do que uma fonte, a fim de extrair a verdade das possíveis mentiras e sujeiras que vêm embutidas.


Devemos ser capazes de localizar essa alienação, qualquer seja sua fonte. Hoje, somos expostos “ao que os outros querem que pensemos” de muitas formas, não somente em notícias de fato, mas em filmes, músicas e até videogames. Se analisarmos a quantidade de filmes tendenciosos que subjugam pessoas de religiões, etnias e culturas consideradas diferentes veremos que muitos de nossos pensamentos e opiniões em relação a essas pessoas são errôneos. Filmes como Guerra ao Terror (2009), Impensável (2010) são só alguns dos muitos que nos fazem considerar todos os muçulmanos perigosos e passíveis de repressão. Jogos como Call Of Duty: Black Ops também reforçam a visão negativa que muitos já têm em relação a Cuba. Todos esses retratos expressos nos meios de comunicação são formas de induzir nossos pensamentos a partilhar das mesmas crenças e dos mesmos medos que o mundo capitalista e globalizado. Somos apenas subprodutos do regime conservador.


O combate a essa “lavagem cerebral” torna-se essencial para que não criemos ainda mais medo do desconhecido. Esse combate dá-se pela visão angular, citada anteriormente, que proporciona uma melhor busca da verdade, analisando inteiramente um fato, olhando-o de vários ângulos diferentes a fim de extrair a imparcialidade nos argumentos e criar uma opinião própria a respeito. O início desse processo de libertação das tendências dogmáticas dá-se primeiramente com a educação, que proporcionará aos jovens liberdade de pensamento e expressão; e posteriormente com a leitura e compreensão profunda de notícias que exigirão mais do que olhos para ler, e sim, visão racional.


“Os governos suspeitam da literatura porque é uma força que lhes escapa”. A frase de Emile Zola já nos dá uma idéia do poder que temos em mãos para estabelecer um regime de plena liberdade de pensamento, que quebre os grilhões que nos prendem à vontade de outros.


Luccas M.

A vida ou o dinheiro

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A economia e o dinheiro como seu instrumento deveriam servir para que as pessoas vivam dignamente e o mundo possa se tornar mais passível de convivência e familiar para todos os seres humanos. O sentido do termo grego economia significa a “boa administração da casa”. Para a humanidade, a casa é o planeta Terra. Para cada pessoa, a casa é o seu corpo, a ser alimentado e cuidado, assim como sua comunidade familiar e social. Em um mundo globalizado, a casa da humanidade é cada vez mais a sociedade internacional. Quando a economia de um país ou sociedade é alheia ou até contrária à preocupação com a vida das pessoas e até dos outros seres vivos, é sinal de que esta sociedade enlouqueceu. É como se a própria organização do mundo se transformasse em um assaltante que aponta uma arma à sua vítima e grita: “O dinheiro ou a vida!”.

Há poucos dias, o mundo inteiro viu com emoção as operações bem sucedidas de salvamento dos 33 mineiros soterrados em uma mina no Chile. Parecia um milagre ver aqueles trabalhadores pobres e indefesos saírem vivos, depois de terem resistido 69 dias soterrados na mina que desabou. Um perdeu uma perna. Outros precisaram ser hospitalizados e outros ainda, acompanhados psicologicamente, mas a operação de salvamento, coordenada pelo governo chileno, foi considerada uma grande vitória. Entretanto, poucos se perguntaram pelas causas mais profundas daquele acidente e se ele poderia ter sido evitado. A Folha de São Paulo publicou: “conforme declaração do representante do sindicato dos mineiros, o governo chileno sabia do risco e das condições de insegurança daquele trabalho e preferiu não fechar a mina por motivos econômicos”. Ao mesmo tempo, jornais internacionais publicaram: “Um estudo do banco suiço Ubs revela que, em todo o mundo, os trabalhadores que têm horários de trabalho mais prolongados e pesados são os do Chile. Em Santiago, os operários mais pobres e mineiros da região devem trabalhar ao menos 51 horas por semana, diferentemente da média nacional que já é alta: 48 horas. Eles trabalham 2.754 horas de trabalho por ano. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) considera isso uma exploração semi-escravista” (Internazionale 869, 18- 22/ 10/ 2010, p. 26).

No mundo inteiro, a precariedade das condições de trabalho tem aumentado. Em vários países, os trabalhadores suportam isso por causa da ameaça do desemprego estrutural que atinge proporções nunca vistas, mesmo na Europa e nos Estados Unidos. Além disso, as empresas aprimoram, cada dia, a capacidade de lucrar mais e com menos custos, mesmo se isso acarreta riscos para os trabalhadores. No Brasil, as condições de trabalho de operários/as em fábricas de tecido e confecção em São Paulo são quase sempre de sobrecarga de horário e salários ilegais, enquanto, no campo, lavradores lidam com trabalhos temporários, em condições de salubridade perigosa. Diversos agrotóxicos, mesmo quando manipulados com máscaras e luvas, provocam enfermidades graves e depressões.

Na maior parte dos países do mundo, este modelo econômico desumano, responsável pelo desemprego massivo dos pobres e destruidor da natureza, se impõe como dogma. Seus adeptos insistem que não existe alternativa ao modelo capitalista neo-liberal. Na América Latina, países como o da Bolívia e da Venezuela, a partir das novas constituições aprovadas pela maioria do povo, ensaiam um modelo de tipo socialista democrático e baseado não na velha teoria marxista e sim nas culturas comunitárias dos povos indígenas. Em vários países do mundo, mesmo governos conservadores investem pesquisas e iniciativas no que se chama economia solidária. Na Europa, “mais de um milhão de pessoas trabalham na ação social e vêem a economia solidária como um laboratório de luta contra a pobreza injusta. Cada vez mais, se investe nos diversos tipos de micro-crédito em tudo que possa ajudar as pessoas pobres a se libertar social e economicamente” (Le Monde, Economie, 26/ 10/ 2010).

No Brasil, nos últimos oito anos, o governo deu uma nova força à “economia solidária”. Este tipo de economia vem se apresentando, nos últimos anos, como alternativa para gerar trabalho e renda e é, sem dúvida, uma resposta a favor da inclusão social. Economia solidária envolve várias práticas econômicas e sociais, organizadas sob a forma de cooperativas, associações, clubes de troca, empresas autogestionárias, redes de cooperação, entre outras, que realizam atividades de produção de bens, prestação de serviços, finanças solidárias, trocas, comércio justo e consumo solidário. Há oito anos, o governo brasileiro criou uma Secretaria especial da Presidência da República para a Economia Soldária.

A Campanha da Fraternidade ecumênica deste ano de 2010 foi sobre Fraternidade e Economia. Mobilizou cristãos de várias Igrejas com o apelo de buscarmos juntos um modelo econômico que expresse um cuidado com todo ser humano e com a natureza. Precisamos de um fórum inter-religioso e até trans-religioso em defesa da vida e da solidariedade universal.

Por Marcelo Barros, Monge Beneditino, ao Brasil de Fato



Paz, economia e utopia

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Foto: www.cntu.org.br

Em um recente texto no sítioFazendo Media, em que comento sobre a posição soberana que o Brasil tem tido nos últimos anos diante dos Estados Unidos, o leitor Mauro Toshiuki fez uma importante observação [disponível aqui], que reproduzo na íntegra:

“Boa Noite a Todos, caro senhor Herivelto Quaresma lhe pergunto e lhe proponho um tema. Qual o interesse americano na paz mundial se o seu orçamento militar é maior que o PIB da maioria dos países do mundo e o fim desses gastos significariam um transtorno gigantesco às regiões onde se encontram as fábricas de armas americanas e um grande número de demissões.”

“Nunca se escreveu sobre os interesses dos fabricantes de armas na manutenção dos gastos e o que realmente representa esse ramo de atividade para a economia americana e para os estados americanos que sediam estas fábricas. Se o Brasil gastasse centenas de bilhões de dólares com armas o mínimo indício de busca da paz seria o suficiente para que os governadores e prefeitos corressem para lembrar o presidente sobre o problema do desemprego e da recessão. Acho que a paz levaria os EUA à recessão.”

Tema urgente e necessário, é pouco comentado – de fato – na imprensa como um todo, porém comum nos debates mais vinculados à área da economia e mesmo em questões relacionadas aos direitos humanos. O próprio cineasta norte-americano Michael Moore filmou o caso de uma cidade – me foge se canadense ou estadunidense – em que praticamente toda a economia local girava em torno de uma única empresa da indústria bélica.

Neste caso, a primeira questão já está colocada: acabar com tal arranjo produtivo – um exemplo: aumento vertiginoso dos impostos, tal como costumam fazer com os bingos ou o cigarro – seria trágico, a curto e médio prazo, para dezenas ou até mesmo centenas de famílias.

A segunda questão, a mais complexa, é justamente a forma como essa mudança gradual da economia poderia ser efetivada. Aqui cabe uma pequena síntese, talvez insuficiente porém necessária, do que estamos a falar: a economia.

Relembrando uma teoria básica

Em todo arranjo produtivo – e, neste caso específico, um arranjo produtivo local –, não podemos deixar de lado a velha questão da mais-valia. Citando:

“Quando o capitalista considera a mercadoria fabricada, não pode aí reconhecer a diferença entre o capital constante (meios de produção) e o capital variável (salários). Sem dúvida, ele sabe que sobre seus gastos (o preço de custo da mercadoria) uma parte é despendida em meios de produção e outra parte em salários, e que será preciso, para a produção contínua, repartir o mesmo dinheiro proveniente da venda da mercadoria, para comprar, por um lado, meios de produção e, por outro, força de trabalho.”

“Mas sobre a produção do valor e da mais-valia, isto não lhe diz nada. O que ele vê é unicamente que, no preço de custo da mercadoria, retorna exatamente o valor da mercadoria, tal como ele já existia antes do início da produção, e que o próprio salário retorna tal como ele existia antes do início da produção. A diferença característica entre o capital constante e o capital variável está, pois, encoberta pelas aparências, e a mais-valia obtida no fim da produção parece provir uniformemente de todas as partes do capital”. (Karl Marx. O Capital. RJ: Zahar Editores, 1982, edição de Julian Borchardt).

O que Marx argumentará com extrema precisão é que, ao contrário, a diferença entre o capital fixo (prédio, máquinas etc.) e o capital circulante (matérias-primas, matérias auxiliares e os salários) salta aos olhos. Para mais detalhes, vide o capítulo 6 da referida obra.

Bom, este foi apenas um parêntesis para lembrarmos o seguinte tópico.

É verdade que uma determinada economia poderá estar histórica e dramaticamente vinculada a um setorindesejável – supondo que poderiam existir governantes que supostamente desejem diminuir o orçamento militar de seus países. No entanto, a experiência de mudança do arranjo produtivo citado não poderia ter um lugar melhor para acontecer.

O Estado forte é uma realidade

Os Estados Unidos tem uma das economias mais fortes do planeta e, portanto, como sabem os economistas desenvolvimentistas e tentam esconder os neoliberais, um Estado muito forte. Ele é capaz, inclusive, de ajudar financeiramente, de forma espantosa, os gigantes bancos deste país – a autoproclamada “iniciativa privada”.

Este Estado, forte e robusto, tem duas ações fundamentais que poderiam minar o problema do desemprego, neste rearranjo:

1. Utilizar a mais-valia, sua espantosa arrecadação anual que forma a mais rica economia do mundo, para investir em outros setores e fazer, portanto, a substituição gradual da produção.

2. Reformar as agências, de modo que passem a ampliar as “áreas estratégicas” de investimento e incluir, por exemplo, a produção em energia limpa ou as tecnologias limpas de produção de alimentos em áreas rurais.

Estas são observações pontuais, limitadas. No entanto, permitam-me argumentar que são centrais para o direcionamento do tema que o Sr. Toshiuki nos traz.

Dois são os principais obstáculos frequentemente observados:

1. No meio disso tudo, conforme frequentemente esquecem os próprios economistas neoliberais, estão as pessoas. Centenas de milhares de pessoas passaram décadas de suas vidas se dedicando a um determinado ramo da economia, com grande afinco por vezes, e é nele que estão inseridos. Isso traz uma dificuldade muito grande, pois uma mudança econômica estrutural demandaria também uma força social suficientemente grande para criar a própria demanda pelo rearranjo produtivo. É o caso da indústria do tabaco, dos anos 90 para cá.

2. The political will, como dizem por lá, ou seja, a vontade política. As nossas frágeis nações conseguem, por meio de processos ditos “democráticos”, aprovar medidas que passam longe das aspirações da opinião pública – que, como vimos na guerra do Iraque, também poderá ser manipulada para um determinado desejo. Os governos podem tudo, principalmente os mais consolidados.

Um mundo financeirizado e desumanizado

Em geral, há no mundo muita gente exigindo melhores salários, melhores condições de trabalho, pleno emprego etc. Pouquíssimas pessoas, no entanto, fazem como uma de suas verdadeiras reivindicações um futuro melhor para o mundo.

O que é, afinal, uma verdadeira reivindicação?

Eu tenho um emprego X, com uma remuneração Y e direitos observados na lei trabalhista. Uma vez negligenciados, o trabalhador irá imediatamente reivindicar a reparação, seja ela financeira ou moral. A sociedade capitalista criou, mal ou bem – e principalmente nos países mais consolidados – diversos mecanismos para tratar desta questão. O Judiciário, a Imprensa e os Sindicatos são apenas três exemplos.

Mas quanto às questões mais amplas? Uma empresa norte-americana de petróleo já provocou, desde o dia 20 de abril, o vazamento de cerca de 71,9 milhões de litros de óleo no Golfo do México, ameaçando o ecossistema local, regional e até global, a longo prazo. Sem querer parecer simplista, permitam-me pensar de modo mais amplo. O sistema judiciário estadunidense, se for extremamente eficiente, conseguirá retirar milhões e milhões de dólares da British Petroleum, numa tentativa de “reparar” os danos ao meio ambiente e às pessoas que vivem na região. Nem sequer é o que está acontecendo, mas vamos pensar nisso como uma hipótese.

Nenhum “juiz”, no entanto, tem a prerrogativa de determinar o fracasso do sistema energético baseado em matérias-primas danosas ao meio ambiente. E as nossas “democracias” tão pouco dão voz aos “radicais” que buscam, a partir desta perspectiva mais visionária, eliminar de uma vez por todas as práticas genocidas, em termos ambientais, de geração de energia. É esta energia que mantem um país se “desenvolvendo” e “crescendo” de modo “sustentável” (ou seja, sustentando o crescimento).

Precisamos identificar frequentemente as falhas estruturais de um sistema que pensa a vida em termos financeiros para sermos, como argumentou Gandhi, a mudança que desejamos ver no mundo.

Podemos pegar um caso exemplar, para não soar “utópico”, como é comum ouvir nos corredores diplomáticos. O Movimento Libertem Gaza, responsável pela frota de pequenas embarcações que rumavam a Gaza para levar ajuda humanitária, é um grupo modesto, porém decidido a fazer valer a vontade da verdadeira “comunidade internacional”.

Israel vê crescer o ódio ao país por um motivo muito simples: a “democracia” que lá se encontra resultou na manutenção, há décadas e até hoje, de líderes de extrema-direita, que efetivamente acreditam que o povo palestino é um povo menor, que não foi “escolhido” e que, por isso, não merece a “Terra Santa”. Evidentemente que o mundo em coro, em pleno século XXI, repudia tal assertiva, que é confirmada não por palavras, mas pelas ações contínuas de terrorismo promovidas pelo Estado sionista.

No entanto, o “mundo” possui representantes que, na hora H, entram para a turma do “Deixa disso”, como se diz na linguagem popular. Contra nações mais frágeis, sanções econômicas variadas e até mesmo guerras. Para as nações mais potentes, o “bom senso” da diplomacia, o “diálogo”. Um peso, duas medidas.

Este Movimento fez, portanto, o que ninguém ousou fazer (apesar de pedirem, “diplomaticamente”): mesmo pequenos, desarmados e agindo sem o aparato naval adequado, romperam o bloqueio imposto por Israel – lembrando que esta não é a primeira vez que eles conseguem furar os bloqueios. Desta vez, foram nove mortos ou mais. A embarcação chegou e a ajuda humanitária foi entregue.

Aqui, portanto, nada de novo. Se existem pessoas que verdadeiramente enfrentam o sistema estabelecido por governantes insensíveis aos apelos populares, devem saber também que poderão ter problemas graves. Em todo o mundo, centenas de milhares de pessoas lutam para que esta situação específica – se você luta por justiça social, poderá pagar com a própria vida – mude. Mas o risco é real.

Por que fazê-lo, então? Esta é uma grande questão humana.

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(*) Herivelto Quaresma é jornalista e blogueiro carioca. Conheça seu blog clicando aqui ou o acompanhe pelotwitter.com/heri_quaresma


fonte: Fazendo Media

Presente de grego para os capitalistas

terça-feira, 25 de maio de 2010


Desde agosto do ano passado temos publicado notícias vindas da Grécia, porém as séries de acontecimentos de grande envergadura na Grécia vem sendo preparada desde 2006, quando estudantes ocuparam mais de 350 faculdades no país.

No último dia 15 de maio foi a vez do Partido Comunista Grego dar provas da sua capacidade de mobilização e convocar um comício próprio para expor suas teses de abril. Teses no qual o partido chama os trabalhadores a formarem um governo popular e começar a organizar o poder e a economia grega desde baixo, até uma planificação nacional. Segundo nota do KKE “Os setores socializados, assim como os cooperativos – de produção e consumo – deverão ser incluídos num sistema económico de planificação e de administração centralizada e nacional, a fim de que todos os meios de produção e toda mão de obra possa ser mobilizados”. Agindo desta forma o partido comunista grego joga todas as fichas nas mobilizações populares e na derrota do governo e da União Européia na tentativa de salvar o capitalismo neste país.


No mesmo passo de derrotar o governo, no último dia 20 de maio os trabalhadores, junto a suas centrais sindicais, decretaram a quinta greve geral desde fevereiro. A série de greves gerais na Grécia mostra que os trabalhadores não topam tudo para salvar o capitalismo de suas crises. Isso de certa forma apavora os “senhores do universo”, uma vez que a dívida pública que deu origem ao colapso grego não se limita ao país helênico, outras nações européias (Portugal e Espanha) já estão em alerta para o FMI e UE. E em terras tupiniquins vêm-se insistentemente aumentando a dívida pública. As mobilizações gregas vêm ganhando adesão desde as primeiras greves setorizadas, quando o governo social-democrata vinha fatiando as reformas para evitar que se chegasse ao nível do arrocho que se tem hoje. E o grande medo dos capitalistas é que o exemplo da Grécia (em todos os sentidos) não se alastre para outros países europeus.

Esse exemplo seria o cavalo de tróia dos “mercados” em superar o mais rápido possível a atual crise de estruturação do capital. E o aumento das mobilizações seria o presente de grego dos trabalhadores aos patrões.





As propostas do KKE

Frente anti-imperialista, anti-monopolista e democrática – Poder e economia popular

O povo grego deve optar entre duas vias de desenvolvimento para a sua sociedade: a que é seguida actualmente e aquela pela qual deve lutar.

Sustentamos, com factos e provas a apoiar, que a Grécia, apesar dos desgastes sérios e arrasadores que atingiram certos sectores e que são devidos à dominação do capital e à concorrência entre monopólios, tem as condições prévias para constituir e desenvolver uma economia popular autónoma.

Os acontecimentos negativos dos últimos 20 anos em certos ramos da produção industrial e na economia agrícola podem ser revertidos sob condições políticas, económicas e sociais diferentes. Não é demasiado tarde.

A Grécia tem um nível satisfatório de concentração da produção, meios de produção, uma rede comercial densa e um nível bastante elevado de desenvolvimento nas tecnologias modernas. Tem uma mão-de-obra consequente, experimentada, com um nível de educação e uma especialização avançadas em relação às gerações anteriores, e uma mão-de-obra importante no domínio científico.

Ela tem recursos naturais valiosos produtores de riquezas, importantes reservas de riquezas minerais, que são um trunfo na produção industrial e na produção de bens de consumo.

Ela tem a grande vantagem de poder assegurar uma produção alimentar suficiente tanto para responder às necessidades do povo como para exportar. Tem capacidades para produzir produtos modernos, máquinas, ferramentas e aparelhos.

A fim de que uma economia popular possa existir para todos, devemos encontrar uma solução para o
problema da propriedade, para satisfazer as necessidades do povo e não as necessidades do lucro.

Não há senão uma única escolha: uma mudança nas relações sociais de propriedade historicamente ultrapassadas que determinam igualmente o sistema político e referem-se aos meios de produção fundamentais e concentrados nos seguintes domínios: energia, telecomunicações, riquezas minerais, minas, indústria, distribuição da água, transportes.

A socialização do sistema bancário, do sistema de extracção, de transporte e de gestão dos recursos naturais; o comércio exterior e uma rede centralizada para o comércio interno; habitações para o povo, a investigação assim como a difusão democrática da informação junto ao povo.

Um sistema de educação, de saúde e de segurança social exclusivamente público, universal e gratuito.

Consideramos que pode haver domínios que não serão incluídos numa socialização completa, nacional e universal. Em complemento do sector socializado, poderia ser formado um sector das cooperativas de produção pelas pequenas explorações agrícolas, os pequenos comércios nos ramos em que a concentração é fraca. A sua participação nas cooperativas deverá ser compreendida como uma escolha vantajosa, baseada na experiência vivida na arena dos monopólios.

Os sectores socializados assim como os cooperativos – de produção e de consumo – deverão ser incluídos num sistema económico de planificação e de administração centralizada e nacional a fim de que todos os meios de produção e toda mão-de-obra possa ser mobilizados, a fim de que toda forma possível de cooperação económica internacional possa ser utilizada na base de intercâmbios mutuamente vantajosos. A produção nacional e os interesses dos trabalhadores serão protegidos de toda repercussão possível que emergisse das necessidades do comércio exterior.

A planificação central é necessária a fim de formular objectivos e opções estratégicas, determinar das prioridades entre ramos e sectores, determinar onde os meios e as forças deverão ser concentrados. A execução desta planificação necessita uma distribuição por ramo e por sector e, antes de tudo, o controle da gestão pelos trabalhadores em cada unidade e serviço de produção, em cada órgão administrativo.

O governo, enquanto órgão do poder popular, será obrigado a assegurar a participação do povo nesta tarefa completamente nova e totalmente desconhecida que é apoiar o movimento popular, apoiá-lo e ser por ele fiscalizado no seio das novas instituições de controle social dos trabalhadores.

O desenvolvimento da sociedade por planificação centralizada é uma necessidade que emerge das exigências do nosso tempo, acima de tudo das exigências da humanidade que é a primeira força produtiva. A necessidade de satisfazer os consumos modernos diversificados dos trabalhadores, a necessidade de desenvolver os meios de produção, de desenvolver a ciência e a tecnologia nos interesses do povo fazem da planificação centralizada uma necessidade vital.

O poder popular encoraja os acordos e intercâmbios comerciais inter-estatais, os acordos para a utilização do conhecimento e das tecnologias baseados nos interesses mútuos.

A dívida pública será reexaminada, sob o poder popular, tendo como principal critério os interesses do povo. Logo no princípio, o poder popular deverá enfrentar uma reacção organizada, interna e internacional. A UE e a NATO, os acordos com os Estados Unidos, não deixam muita margem de manobra aos Estados membros da UE.

Resolver este problema retirando-se da UE é inevitável tendo como objectivo um desenvolvimento autónomo, popular e uma cooperação nos interesses do povo.

É necessário intensificar a nossa actividade na base da luta contra estes problemas.

Lutamos sem tréguas por avanços imediatos em favor dos trabalhadores e continuaremos a lutar para que medidas possam ser impostas pela potência do movimento, medidas que diminuiriam a gravidade destes problemas e aliviariam o povo.

Temos desenvolvido posições e reivindicações para cada problema e questões isoladas que têm surgido. Contudo, doravante isto não é suficiente. Uma proposta alternativa de progresso é necessária a fim de que a luta tenha uma finalidade, um objectivo, um sentido e finalmente possa exercer pressões suplementares em todas a fases da mesma. [*]

Secretária-geral do Partido Comunista Grego (KKE)


Fonte: Outubro Vermelho

O jornalismo econômico como porta-voz do capital financeiro

Reconheço não ser algo novo quando um pesquisador faz a crítica da cobertura midiática supostamente especializada da economia. Reconheço que o tema é algo redundante e justo por isso vejo sua importância. Tampouco se trata de novidade o uso de eufemismos e do emprego do jargão “técnico” como forma de mascaramento de situações factuais dos agentes econômicos. Em se tratando de grandes investidores de base especulativa, comprando, vendendo e repassando produtos financeiros, muitas das vezes aquilo que é midiatizado encobre a ocorrência de atos criminosos.

Neste texto, abordamos esse cruzamento, quando a produção de sentido gerada através do noticiário de economia, naturaliza, mascara ou alivia a letalidade dos atos premeditados de especuladores de distintas ordens de grandeza e os efeitos que causam no cotidiano de populações inteiras, tal é o caso hoje dos mais de 10 milhões de cidadãos gregos. Na atualidade, a luta entre os efeitos desse mascaramento com cumplicidade da indústria das mídias e a perspectiva do povo em movimento, tem seu campo de batalha nas ruas e praças da Grécia.


A hipótese que aqui levanto é simples. Afirmo que a maior parte da cobertura jornalística em economia oficia mais como porta-voz do capital financeiro e não como intérprete de seu acionar. E, por optar pela angulação da cumplicidade, os especialistas, colunistas e fontes da indústria da comunicação quase nunca narram o “jogo” como um cassino de roleta viciada. A contrapartida é desigual. Por vezes, a teoria da brecha jornalística se evidencia nas exceções. É quando especialistas que trabalham através da angulação crítica expõem seus pontos de vista, denunciando através de uma base factual irrefutável, a selvageria criminosa dos agentes econômico-financeiros.

Em tese o ato de especular deriva das informações fragmentadas e no risco. Desse modo, um gerente de operações de um Fundo de Investimento (hedge fund) teria a capacidade de antecipação, vendendo títulos e ações na alta e comprando-os na baixa. Nesse jogo, a aleatoriedade é a regra para evitar as fraudes. Logo, o acionar fraudulento é a combinação de vendas e compras em conjunto, manipulando o chamado comportamento de manada, quando em tese todos os investidores se moveriam na mesma direção. Além da conspiração, são formas típicas de burlar as regras: obter informação privilegiada (inside information), antecipando-se aos demais especuladores; “maquiar” balanços de modo a elevar a apreciação dos papéis; rebaixar propositadamente os títulos de um país de maneira que custe mais caro para o Estado financiar sua dívida de curto prazo; negociar de forma “exposta”, quando a capacidade de pagamentos está comprometida a ponto de não realizar-se. Todas estas “técnicas” de enriquecimento ilícito, embora usuais, são amplamente praticadas e, por sua vez, quase nada midiatizadas.

Para quem não se recorda, a primeira crise do Euro tem sua origem no acionar fraudulento das vendas e revendas, em escala mundial, dos ativos tóxicos ou sub-primes. Estes “produtos” financeiros nada mais são do que carteiras de hipotecas cujos titulares estão inadimplentes e não poderiam pagar. As duplicatas destas carteiras sem lastro, empacotadas como “produtos de risco”, foram (e são) comercializadas mundialmente, e quase sem nenhum controle. Ora, se na base não há lastro, logo não há dinheiro para remunerar. Isso é classicamente conhecido como Esquema Ponzi, e também chamado nos termos contemporâneos de pirâmide ou corrente. A hipótese de ato criminoso levando ao “estouro” da bolha imobiliária que levara à crise do capitalismo em geral, da economia estadunidense primeiro e hoje da Zona do Euro, não é apenas minha. Dezenas de especialistas difundiram essa angulação, o que poderia haver rendido centenas de reportagens investigativas. Estes seriam textos de primazia exemplar como as matérias clássicas de Bob Woodward e Carl Bernstein na cobertura do escândalo do edifício Watergate. Os dois repórteres, munidos do dever de investigadores públicos e empurrados pela coragem de suas chefias diretas, denunciaram um esquema também criminoso, o que levara à renúncia de um presidente dos Estados Unidos, o republicano Richard Nixon em 8 de agosto de 1974. Infelizmente, este caso é uma exceção honrosa e heróica, e não a regra de comportamento da indústria da comunicação e de seus trabalhadores.

Ao contrário de exagerar, também aqui estou empregando eufemismos para atenuar a contundência verbal do texto. Qualquer operador ou analista sabe que, quando há informação perfeita, não pode haver equívoco no erro e sim premeditação. Esta tese é corroborada pelo francês Jean-François Gayraud, comissário divisional para crimes financeiros (equivale ao posto de coronel) da Direction de La Surveillance Du Territoire (DST) a agência de contra-espionagem da França. Gayraud sustenta que a “crise” da bolha estadunidense foi um ato criminoso de empresas especuladoras. Seus enunciados foram publicados na contracapa da edição de 25 de setembro de 2008 do jornal La Vanguardia, da Catalunha.

Assim a possível fonte explicativa para investigar e denunciar mundialmente o crime da maior transferência de renda coletiva para cofres privados foi enunciado num conglomerado midiático e, logo após, posto ao léu, no limbo das pautas inconclusas. É a própria indústria da mídia que amortece a possível ira popular diante da ação cúmplice, entre mandantes de governos em função-chave e criminosos de colarinho branco operando com a especulação fraudulenta.

* Colaboração de Bruno Lima Rocha, editor do sítio Estratégia & Análise: a política, a economia e a ideologia na ponta da adaga, para o EcoDebate, 25/05/2010


 

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