Ecodebate

Ecodebate
Agroquímicos: Os venenos continuam à nossa mesa

Música

Música
Kansas - Dust in the Wind

Reflexão...

Reflexão...
César Chávez

Filme

Filme
Waiting for Superman
Mostrando postagens com marcador America Latina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador America Latina. Mostrar todas as postagens

Entrevista com Mumia - “Precisamos de muita gente para fazer a revolução… e de muitos para preservá-la”

domingo, 17 de abril de 2011

“Estou totalmente de acordo com a idéia de nos organizarmos à margem dos partidos políticos e da classe política. De fato, essa pode ser a única maneira de manter aos movimentos sociais frescos e livres das armadilhas da corrupção”

Mumia

Durante um ano tentamos uma entrevista com Mumia, um dos presos políticos mais conhecidos do mundo. Enviamos cartas e pedidos através de todos os contatos possíveis que tivemos à mão, entre eles os membros do coletivo Amigos de Mumia México, os quais se ofereceram amavelmente para nos apoiar com uma gestão que tinha como destino o corredor da morte da prisão de Waynesburg, Pensilvania, onde Mumia permanece preso há 29 anos. Até que, certo dia, deslizou por baixo da porta um envelope com o nome de M. A. Jamal como remetente.

Chegava a nós a primeira entrevista que concede a um meio mexicano o ativista da causa afroamericana nos Estados Unidos, ex-membro do Black Panthers Party, o Partido dos Panteras Negras.

Na carta de duas páginas escrita a máquina, Mumia fala da necessidade de organização social, dos partidos políticos “servos do capital”, da pertinência dos movimentos autônomos e a transcendência das reivindicações do EZLN, do movimento afroamericano nos Estados Unidos, dos Panteras Negras na atualidade, as contradições entre o discurso e a prática do governo dos Estados Unidos, do pensamento de Frantz Fanon e das expectativas que despertou Obama com sua chegada à presidência, em um país em que “os negros ocupam postos, mas têm pouco poder”.

“A luta segue”, conclui Mumia, na entrevista que se apresenta a seguir, no formato escolhido por ele.

***

Olá! Tentarei responder a algumas de suas perguntas no seguinte formato. Vamos lá!

Organizando-nos

Não há uma única maneira de fazê-lo, tampouco um só tipo de evento que impulsione essas coisas. Porque as pessoas são complexas e, claro, as condições mudam. Segundo o grande C.L.R. James (escritor e ativista social trinitário-tobagense), a organização começa quando duas pessoas concordam em trabalhar juntas.

Mao [Tse-Tung] disse que “uma só faísca pode incendiar toda a campina”, e esse certamente parece ser o caso quando você observa o que aconteceu no Egito e na Tunísia nas últimas semanas [N.T.: a entrevista foi respondida no início de fevereiro]. Mas também é verdade que a organização esteve se processando por um bom tempo (especialmente no Egito), e parece que muitas pessoas simplesmente chegaram a um ponto-limite.

Os partidos políticos

Muitos, de fato a maioria dos partidos políticos, especialmente nas metrópoles, se tornaram descarados servos do capital. Por isso, competem entre si a serviço da riqueza sem sequer fingir que representam o povo. Como disse acertadamente o historiados francês Toqueville: “O cidadão americano não conhece uma profissão mais alta que a política – porque é a mais lucrativa”. Ele escreveu isso há 150 anos! Os partidos são, na verdade, um obstáculo às necessidades e interesses do povo. Isso fica especialmente claro no chamado mundo desenvolvido, onde vemos que os políticos prometem uma coisa para serem eleitos, mas, uma vez que ocupam o cargo, rompem todas as suas promessas.

Autonomia

Se entendo bem (é que há poucos movimentos autônomos nos Estados Unidos), estamos falando de movimentos que são “autônomos” em relação aos partidos políticos. Nesse caso, estou totalmente a favor. Além de serem mecanismos para acumular fortunas pessoais, os partidos políticos são máquinas feitas para dar ao povo a ilusão da democracia.

As propostas do EZLN

Estou totalmente de acordo [com a idéia de nos organizarmos à margem dos partidos políticos e da classe política]. De fato, essa pode ser a única maneira de manter aos movimentos sociais frescos e livres das armadilhas da corrupção, tão comuns na vida política em todo o mundo. Durante vários anos, tenho estado conversando sobre isso com um amigo meu, mais velho, que também é um estudioso do EZLN. Creio que devemos explorar, experimentar e, se parece possível, utilizar essa maneira de nos organizarmos.

Os africano-americanos

Para ser sincero, a situação é alarmante. Para milhões de crianças, nos guetos das cidades dos Estados Unidos, o índice de abandono dos estudos é de 50%. Em algumas cidades, como Baltimore, me dizem que chega a 75%. E, em muitos casos, os que chegam ao fim do ensino médio não conseguem entrar na universidade porque receberam uma educação fraca. Estamos falando de crianças! E, enquanto o índice oficial de desemprego, em nível nacional, está ao redor de 7%, para a América negra, é de quase 35% e, para os jovens, mais de 60%. Além disso, os jovens negros estão sujeitos a uma violência policial aberta, brutal e mortal, e é raro que um policial seja castigado por esse tipo de ação.

A eleição de Obama tem despertado e enfurecido as forças direitistas e racistas, muitas das quais se encontram no movimento Tea Party. Há políticos que tecem elogios à Guerra Civil (1860-1865), do ponto de vista sulista. Faz uns dias, o governador do Mississipi estava disposto a honrar com uma placa de automóveis um dos fundadores da Ku Klux Klan, o general Nathan Bedford Forrest, que foi responsável pela tortura e assassinato de centenas de soldados negros em lugar chamado Forte Pillow.

Partido Panteras Negras

Há bastante interesse sobre o BPP entre os jovens negros, mas poucos conhecem os detalhes históricos. Isso porque eles são ensinados por professores e por uma mídia que enfatizam o triunfo do movimento de Direitos Civis, que tornou possível a eleição de políticos negros. O movimento nacionalista negro está em declínio.

O que o movimento de Direitos Civis conseguiu foi a separação dos negros da classe trabalhadora dos negros burgueses, resultando na separação dos negros prósperos de seus primos pobres nas áreas centrais e degradadas das cidades. Isso se reflete em praticamente todos os níveis entre os negros americanos. E isso explica como ( e por que) as escolas para milhões de crianças negras e latinas podem ser tão pobres, em tantas comunidades.

EUA: negros e indígenas

As diferenças são reais porque raramente os espaços vitais são compartilhados (a maioria das comunidades indígenas está em áreas rurais ou no Oeste, enquanto a maioria dos negros vive em áreas urbanas). Dito isto, certamente há uma interação ideológica entre os dois grupos, e o Movimento Indio Americano (AIM) foi com certeza influenciado pelos Panteras Negras e o Movimento Black Power. As lutas pela independência e a liberdade dos negros e dos indígenas se reforçaram e se influenciaram mutuamente.

Migrantes

Como o capitalismo enfrenta uma crise, ele obriga o povo a pensar de maneira menos holística e mais egoísta. Esse impulso, alimentado pelo medo (e propagado pela mídia corporativa), reforça o sentimento de separação entre as pessoas e dissipa a comunalidade, o senso de comunidade e a própria coesão social. A menos que os ativistas sejam capazes de construir um sentimento de solidariedade entre os povos, esses impulsos levarão a verdadeiros desastres sociais e históricos.

EZLN e Panteras Negras

Creio que o fator que une as duas formações é sua insistência em que TODAS as pessoas, de todas as condições sociais, podem jogar um papel importante nos movimentos sociais pela mudança. Muitos dos movimentos nacionalistas negros dos anos 60 eram bastante críticos em relação aos Panteras Negras por trabalharmos com gente branca (também se trabalhava com ativistas chicanos, portorriquenhos, japoneses e chineses). A convocação zapatista sempre foi ao mundo inteiro, às pessoas de qualquer cor, gênero, classe etc. Creio que esse fator inclusivo é, no fundo, seu aspecto mais humanista e que atrai os setores mais amplos da família humana. Porque é preciso muita gente para fazer a revolução, e muita gente para preservá-la.

EUA: contradições entre discurso e prática

Me parece muito atinada sua leitura das contradições nos EUA, que se projetam como avatar dos direitos humanos quando são a nação mais repleta de prisões no mundo. A contradição é crua e irrefutável. Temos muitas coisas neste país, mas a democracia certamente não é uma delas. Temos formas democráticas, mas não temos verdadeiras normas democráticas. Quando milhões de ciadadãos saíram às ruas na primavera de 2002 pedindo que o país não fosse à guerra, a “democracia” ignorou o povo, e o resultado foi um desastre social, humanitário, ecológico, arqueológico e militar. George Bush descreveu esses milhões de pessoas nas ruas como um “grupo de pressão” – que ele prontamente ignorou. Como pode ser que este país, que fala com tanta doçura de liberdade, tenha mais presos políticos que qualquer outra nação do mundo, a maioria sendo negros? Os EUA têm cerca de 5% da população do mundo, mas 25% dos seus presos. Que mais dizer sobre direitos humanos?

Franz Fanon e Obama

Os africano-americanos não tomaram o poder quando elegeram Obbama, ainda que eu possa entender por que alguns pensam que eles o fizeram. Isso porque o que se fez foi um certo tipo de história. Pela primeira vez uma pessoa negra foi eleita presidente (interessante, isso ocorreu quase um século e meio depois que um homem negro foi eleito presidente do México [N.T.: Mumia provavelmente se refere a Benito Juárez, que era indígena de origem zapoteca]). Mas, como Fanon nos ensinou, no contexto do continente africano, o colonialismo foi sucedido pelo neocolonialismo. Os negros ocupam os cargos, mas, na realidade, têm pouco poder. Eles estão em dívida com os mesmos interesses que controlam os políticos brancos. De fato, a triste realidade é que os negros têm menos poder que antes, porque os políticos negros são menos capazes de tratar dos assuntos relevantes para a população negra, por medo de serem tachados de “racistas” pela mídia corporativa. Lembremos o exemplo de quando Obama chamou de “estúpido” o policial que perseguiu e prendeu seu amigo e antigo professor universitário Henry Louis Gates.

A mídia enlouqueceu. O incidente também demonstrou que alguém da elite negra (e, se um professor de Harvard não é da elite, ninguém é), o professor Gates, foi tratado como um negro pobre do bairro – detido em casa, humilhado e preso por atrever-se a falar com dignidade com um policial branco. A mídia obrigou Obama a calar-se.

Eu

Como diziam os moçambiquenhos, “a luta continua”. Temos que construir, ampliar, aprofundar e fortalecer nossa luta onde quer que seja, porque, como dizia Frederick Douglas, “sem luta, não há progresso”. Pode não ser fácil, mas é necessário.

Adiós, mis amigos, y gracias por todo!

Mumia


Fonte: Desinformémonos

TRADUCCIÓN: SPENSY PIMENTEL

Trabalhadores venezuelanos saem às ruas em apoio a Chávez

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Trabalhadores de diferentes setores e estados da Venezuela marcham nesta quinta-feira (10) até a Assembleia Nacional para defender as políticas sociais implementadas pelo presidente Hugo Chávez em seus 12 anos de governo.



Além do respaldo a benefícios como o aumento do salário mínimo e o acesso a pensões, aposentadorias, saúde e contratos coletivos, a classe operária solicitará ao Parlamento a aprovação de uma nova Lei Orgânica do Trabalho à altura do processo de mudanças em curso, informam os organizadores da marcha.

De acordo com o presidente da Federação de Trabalhadores Petroleiros de Venezuela, Will Rangel, mais de 10 mil filiados a sindicatos sairão às ruas a expressar seu compromisso com a Revolução Bolivariana.

“Vamos demonstrar nossa identificação com Chávez e os avanços destes anos”, assegurou Rangel durante uma coletiva de imprensa para reiterar a convocação.

Por sua vez, o deputado socialista Francisco Torrealba conclamou a população em general a somar-se à marcha que partirá da Praça Morelos. “O objetivo é defender o processo revolucionário, o gerenciamento do presidente Chávez e suas políticas sociais”, apontou.

A mobilização acontece menos de uma semana após uma atividade realizada por sindicatos e estudantes ligados à oposição.Torrealba considerou a marcha da semana passada uma atividade da quinta coluna e dos defensores dos patronos. “Dessa vez teremos uma verdadeira mobilização operária”, afirmou.


Somos todos malabaristas de farol

domingo, 6 de fevereiro de 2011


“Essa é sua vida, e está terminando a cada minuto”, você acorda no carro, preso no trânsito, exposto ao calor intenso do litoral, esperando pacientemente pela troca de cores do semáforo. Olha pra esquerda e vê um garoto, de aproximados 10 anos de idade, sem camiseta, sem chinelos, apenas uma bermuda cobrindo seu corpo magro e moreno. Seu rosto não expressa nada, não transmite nada, apenas te olha, fixamente e vai a sua direção.


Com seus pequenos pés descalços ele anda até a frente do carro, suas mãos seguram malabares, com os quais ele tentará ali, naqueles poucos segundos ganhar uma moeda, uma nota, mas, provavelmente ganhará um “não tenho nada, meu filho”. Num gesto quase que mecânico, automático, de quem não faz aquilo por diversão, mas sim pela ânsia de sobreviver ele inicia os movimentos, uma peça de cada vez, até tê-las todas no ar, girando, equilibrando por um curto espaço de tempo, torcendo para que o motorista se impressione com sua habilidade, ou, o mais provável, dê-lhe dinheiro para que ele saia de lá logo.


Ele termina seu trabalho, se aproxima do carro, de vidros fechados que resguarda um refrescante ar condicionado, luxo para poucos, no meio daquele calor úmido e desgastante. Pelo vidro é possível ver seus olhos verdes, contrastantes com sua pele morena e seu cabelo enrolado, marcas profundas da miscigenação brasileira, a qual aquela criança foi exposta, fruto não só de heranças físicas, mas também herdeiro da pobreza e da desigualdade.


O vidro se abre, o motorista indaga o que o menino quer. Prontamente ele responde: “dinheiro!”. Ah, o dinheiro! A palavra mágica, a poderosa máquina de deturpar mentes, mover barreiras e gerar intrigas. Nada mais justo do que presentear o garoto com aquelas poucas moedas, troco de alguma compra que ficaram ali, no carro, exatamente para uma situação como essa. Num mundo onde tudo é lucro, tudo se compra, e nada é de graça, outra resposta vinda daquele menino seria no mínimo inusitada. As moedas passam da mão do motorista para aquela pequena mão, suja e áspera, marcada pelo trabalho, pela ausência de diversão.


De sua boca ressecada, ele pronuncia um agradecimento rápido e tímido, e eu, consigo olhar por uma última vez aqueles olhos marcantes, sinceros e tristes, antes que a pequena criança vire as costas e corra na direção de outros 5 jovens, trajados da mesma forma que ele, semelhantes fisicamente e também marcados como alvos da desigualdade.


É exatamente ai, nesse ponto, que me dou conta que somos todos malabaristas de farol, estamos todos seminus, expostos, vítimas do sistema que nos obriga a ser o que querem que sejamos. Nossos malabares são nossos amigos, nossos sonhos, nosso caráter, que estão em jogo, sendo apostados, podendo cair e se perder. Arriscamos pessoas que amamos, nossos objetivos pessoais, nossos sonhos de igualdade, nossa luta por justiça, nossa dignidade para ter dinheiro. Somos uma geração de caçadores de recompensa, sedentos por “ser alguém” dentro do mundo corporativo, por ser reconhecido profissionalmente num lixo de emprego que talvez nem gostemos, mas que provavelmente será necessário para nos adequar ao mundo capitalista e não nos tornar igual a aquele menino, e seu incerto trabalho nos semáforos das cidades. No final das contas, todos morreremos, e todas as nossas “realizações profissionais” serão apagadas da história, nem seu chefe, nem seu subordinado se lembrará de você, sua vida passageira termina e você se torna somente sombra e pó, nada mais.


Essa epifania serviu pra entender que somente realizações sociais, ativismo político, luta por mudanças fica marcado. As pessoas (as boas pessoas) se lembrarão de você por quem você foi e como agiu, e não pelo quanto de dinheiro tinha no bolso. A questão que fica é: Sendo malabaristas de farol, o que passa em nossas mentes, o que estamos dispostos a fazer se o motorista nos nega dinheiro? Até onde somos capazes de ir para ter o “precioso”.


“Você não é o seu trabalho. Você não é quanto dinheiro tem no banco. Você não é o carro que dirige. Você não é o conteúdo de sua carteira. Você não é nem o lixo das suas calças. Você é a merda ambulante do mundo”.

"A velha senhora asmática"

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011


Segue abaixo uma passagem do livro "De moto pela América do Sul" de Ernesto CHE Guevara (seu diário que relata os acontecimentos de sua viagem). Nesta passagem Che e Alberto estão na cidade de Valparaíso, Chile, e durante sua estadia nesse lugar, Ernesto vai ver uma velha senhora que conheceu num bar local que está muito doente e necessita das habilidades médicas do rapaz. O trecho em questão tem caráter altamente reflexivo e faz críticas à hierarquia social que colocou a velha mulher em situação de não conseguir pagar por medicamentos tendo apenas que esperar a chegada da morte.


" É em casos como esses, quando um médico percebe que não pode fazer nada, que ele deseja a mudança; uma mudança que impedisse a injustiça de um sistema no qual até um mês atrás essa pobre mulher tinha de ganhar seu sustendo trabalhando como garçonete, respirando com dificuldade, ofegando, mas, encarando a vida com dignidade. Nestas circunstâncias, as pessoas de famílias pobres que não podem se sustentar são rodeadas por uma atmosfera de aspereza mal disfarçada; deixam de ser pais, mães, irmã ou irmão para tornar-se apenas um fator negativo na luta pela sobrevivência e, por extensão, fonte de amarguras para os membros sadios da comunidade que se ressentem de sua doença como se fosse um insulto pessoal contra aqueles que têm que apoiá-los. É ai, no final para as pessoas cujos horizontes nunca ultrapassam o dia de amanhã, que nós percebemos a profunda tragédia que circunscreve a vida do proletariado em todo o mundo.Nesses olhos moribundos existe uma humildade apelo por perdão e também, muitas vezes, um pedido desesperado de consolação que se perde no vácuo, da mesma maneira como seu corpo desaparecerá logo em meio ao vasto mistério que nos cerca.Quanto tempo mais esta ordem atual, baseada na ideia absurda de classes sociais, vai durar eu não sei, mas é chegada a hora em que o governo gaste menos tempo propagandeando suas próprias virtudes e comece a gastar mais dinheiro, muito mais dinheiro, financiando projetos úteis para a sociedade. Não havia muito que eu pudesse fazer por aquela mulher doente. Eu simplesmente aconselhei-a quanto a sua dieta e receitei um diurético e algumas pílulas para asma. Eu ainda tinha alguns tabletes de dramamina e deixei-os com ela. Quando saí, fui seguido pelas palavras de agradecimento da pobre velha e pelo olhar indiferente dos familiares".

Fusil contra Fusil - Silvio Rodriguez

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011




Abaixo a música Fusil contra Fusil, uma homenagem do músico, poeta e compositor cubano Silvio Rodriguez ao grande ídolo e inspiração de milhões de pessoas espalhadas pelo mundo inteiro Ernesto CHE Guevara.

Hasta la victoria siempre!





Letra:

Fusil Contra Fusil

El silencio del monte va
preparando su adiós
la palabra que se dirá
in memoriam será la explosión.
Se perdió el nombre de este siglo allí
su nombre y su apellido son:
fusil contra fusil.

Se quebró la cáscara del viento al sur
y sobre la primera cruz
despierta la verdad.

Todo el mundo tercero va
a enterrar su dolor
con granizo de plomo harán
su agujero de honor, su canción.

Dejarán el cuerpo de la vida allí
su nombre y su apellido son:
fusil contra fusil
cantaran su luto de hombre y de animal
y en vez de lágrimas echar
con plomo lloraran
Alzará al hombre de la tumba al sol
y el nombre se repartirán
fusil contra fusil
fusil contra fusil.


Morre Néstor Kirchner, ex-presidente argentino

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Néstor Carlos Kirchner, ex-presidente da Argentina (2003-2007) e marido da atual governante, Cristina Kirchner, morreu esta quarta (27) aos 60 anos em uma clínica da cidade de Calafate vítima de uma parada cardiorrespiratória, segundo a agência estatal "Télam".

O ex-governante foi internado hoje em um centro médico de Calafate, para onde tinha viajado esta semana com sua esposa, a presidente Cristina Kirchner, que faz repouso com sintomas de angina.

Kirchner tinha sido internado em setembro passado por um problema cardíaco em uma clínica do bairro portenho de Palermo, onde foi submetido a uma angioplastia.

História

Kirchner nasceu no dia 25 de fevereiro de 1950 em Río Gallegos, na província de Santa Cruz (Argentina).

Formado em Direito em 1976 pela Universidade Nacional de La Plata, entrou no Partido Peronista nos anos 70 quando era dirigente estudantil nesse centro universitário, onde conheceu Cristina.

Se mudou em 1976 para Río Gallegos, onde trabalhou com sua esposa em um escritório de advogados até 1983. Entre 1983 e 1984 foi presidente da Caixa de Previdência Social e em 1987 foi eleito Intendente de Río Gallegos, cargo que desempenhou entre 1987 e 1991.

Veja fotos de Néstor Kirchner:


Eleito Governador de Santa Cruz em 10 de dezembro de 1991, permaneceu no cargo até 2003, após modificar a lei que impedia a reeleição após dois mandatos. Kirchner conseguiu reverter o déficit de sua região, rica em petróleo e recursos naturais, e a transformou na área com menor desemprego.

Em 1992 foi nomeado presidente do Conselho Provincial do Partido Justicialista e secretário de Ação Política do Conselho Nacional. Em 1993 foi designado constituinte para a reforma da Constituição Nacional Argentina.

Em 1996 fundou a Corrente Peronista dentro do Partido Justicialista e se apresentou como candidato à Presidência, em 2003, frente a Carlos Menem - que governou o país entre 1989 e 1999 - e ao então presidente Eduardo Duhalde (2002-2003).

Em 25 de maio desse ano foi eleito presidente da Argentina.

Durante o Governo Kirchner, a Argentina cresceu 8% ao ano; os salários e as pensões aumentaram e o desemprego e a pobreza diminuíram. Além disso, voltou a negociar a dívida, reformou a Corte Suprema de Justiça e as Forças Armadas, e defendeu os direitos humanos.

No entanto, seu Governo foi alvo de denúncias de enriquecimento ilícito.

Em janeiro de 2006 pagou antecipadamente ao FMI US$ 9,574 bilhões, e no mesmo ano, apresentou perante o Tribunal Internacional de Haia um processo contra o Uruguai para interromper a construção de duas fábricas de celulose.

Em 10 de dezembro de 2007 passou o cargo para sua esposa, Cristina Kirchner, que venceu as eleições presidenciais.

Kirchner foi nomeado, em 14 de maio de 2008, presidente do Partido Peronista.

Nas eleições legislativas de 2009 foi eleito deputado pela província de Buenos Aires, cargo que assumiu em 10 de dezembro de 2009, mas sua corrente eleitoral foi derrotada na província de Buenos Aires pela liderada pelo empresário peronista dissidente, Francisco de Narváez.

Após a derrota, Néstor Kirchner renunciou em 29 de junho ao cargo de líder do Partido Justicialista, que cedeu ao governador de Buenos Aires, Daniel Scioli.

Além disso, a Frente Para a Vitoria perdeu a maioria no Parlamento, já que sete de cada dez eleitores votaram contra o Governo, o que supôs a maior derrota da "era K", inaugurada com Néstor Kirchner em 2003 e revalidada por sua esposa nas presidenciais de 2007.

Em 7 de fevereiro de 2010, foi submetido a uma intervenção de urgência por uma obstrução na carótida direita.

Um mês depois, em 10 de março, Kirchner reassumiu a chefia do PJ com a promessa de dirigir o partido para um novo triunfo no pleito de 2011.

Em 4 de maio de 2010 foi eleito secretário-geral da União de Nações Sul-Americanas (Unasul).

Casado desde 9 de março de 1975 com a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, têm dois filhos: Máximo, de 32 anos, e Florencia, de 19. EFE


Fonte: Yahoo! Notícias


Um golpe que virou levante

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Não há como negar que foi uma tentativa de golpe – como reconheceram a Unasul e o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza –, embora incompetente. Enquanto assediavam o presidente, os revoltosos tentaram apoderar-se da Assembleia Nacional e da televisão estatal e depois quiseram matá-lo, o que não faria sentido caso fosse simples reivindicação trabalhista.

O carro blindado que resgatou Rafael Correa foi alvejado por quatro balas e dois soldados que participaram da operação foram mortos pelos revoltosos. Em gravações da frequência de rádio da polícia, supostos agentes instigaram ao assassinato do presidente: “Que matem Correa para que isto acabe!” Outras mensagens tentaram coordenar os sublevados para enfrentar o Exército. A violência gerou ao menos dez mortos e 274 feridos.

Há fundamento para as acusações do governo ao ex-presidente Lucio Gutiérrez. Enquanto o país estava no caos, os três partidos ligados a Gutiérrez elogiaram a insubordinação e ensaiaram movimentos para tomar o poder.

Liderado por um ex-advogado de Gutiérrez, Pablo Guerrero, e pela universitária Alejandra Cevallos, alguns policiais e dezenas de civis ligados ao Partido Sociedade Patriótica (PSP), de Gu-tiérrez, quebraram as portas de vidro da emissora estatal, danificaram o equipamento e invadiram o prédio com a exigência de que os deixassem levar ao ar sua versão dos acontecimentos. Militantes do MDP, frente liderada pelo -neomaoísta PCMLE – Partido Comunista Marxista–Leninista do Equador, afim ao Partido Comunista Revolucionário (PCR) do Brasil –, tomaram dois governos de província, proclamando-se poder popular. O líder do movimento indígena Pachakutik emitiu um comunicado responsabilizando o presidente por “grave crise política e comoção interna” e chamando o Legislativo a destituí-lo.

Parte da mídia aderiu a esse jogo, focalizando os saques e a desordem pela qual culpavam o presidente, enquanto ignoravam as agressões que ele sofria. A Teleamazonas, do banqueiro Fidel Egas Grijalva (Grupo Pichincha), simpática ao PSP, insistiu em que o presidente não estava sequestrado e permanecia lá por sua vontade – discurso repetido pelo chefe da polícia, general Freddy Martínez –, enquanto os policiais agrediam integrantes do governo e populares que tentavam abrir caminho ao hospital.

O governo acusou dez políticos de participação na tentativa de golpe e pediu a prisão de cinco: dois da Sociedad Patriótica – Pablo Guerrero e Fidel Araujo, ex-major e ex-assessor de comunicação de Gutiérrez, acusado de coordenar a revolta (foi filmado falando ao celular durante o movimento) e três do MDP. Foram também detidos 46 policiais e o chefe da guarda parlamentar, coronel Rolando Tapia, conivente com o levante. O general Martínez renunciou.

Ou os setores gutierristas conspiraram para provocar o levante ou tentaram pescar em águas turvas, apostando em uma adesão militar que acabou por se limitar a setores da Força Aérea. Depois de alguma hesitação dos oficiais, que cobraram compromisso de Correa com o reajuste dos soldos dos oficiais (depois -cumprido), o Exército apoiou o governo e salvou o presidente.

Não se pode, porém, falar de enfrentamento claro entre uma esquerda bolivariana e uma direita conservadora, como foi o caso dos movimentos golpistas que fracassaram na Venezuela e Bolívia, venceram em Honduras e ameaçam repetir-se no Paraguai. A rebelião foi deflagrada por medidas de racionalização fiscal denunciadas como “arrocho neoliberal” pela extrema-esquerda e o mais popular líder conservador, o prefeito de Guayaquil, Jaime Nobet (Partido Social Cristão, PSC), rechaçou o golpe.

O ex-coronel Gutiérrez e seus aliados não são exatamente “direita conservadora”. Em 2002, depois de derrubar o presidente Jamil Mahuad (da UDC, centro-esquerda) e derrotarem nas urnas o bilionário neoliberal Álvaro Noboa, representaram uma proposta popular e indigenista, embora esta tenha se diluído ao prosseguir com a dolarização e a política neoliberal do ex-presidente Jamil Mahuad, e afastar-se das esquerdas para se aliar ao PSC. Quando rompeu também com este e tentou buscar o apoio de outros partidos tradicionais (PRE, do ex-presidente Abdalá Bucaram, e Prian, de Noboa), acabou isolado e deposto por seus ex-aliados da direita e da esquerda. Depois recuperou o apoio do Pachakutik e do MDP.

Gutiérrez, ao contrário de Correa, não desafiou os EUA em política externa. Apoiou o projeto da Alca de Bush júnior, prometeu renovar o acordo de Mahuad que lhe cedia a base aérea de Manta e hoje acusa Correa – que integrou o país à Aliança Bolivariana das Américas (Alba), de Hugo Chávez, e despejou o Pentágono de Manta em julho de 2009 – de ser “títere de um projeto internacional totalitário que quer comprar a América Latina com petrodólares”.

Ainda assim, não se pode concluir que Washington incitou o golpe, como acusaram Venezuela e Bolívia – mesmo se o Pachakutik recebeu recursos do National Endowment for Democracy e da Usaid e a polícia do Equador recebe recursos e treinamento dos EUA. O próprio Correa diz não acreditar nisso, embora não descarte que estadunidenses possam estar envolvidos sem conhecimento da Casa Branca.

O nó principal do problema está no impasse entre o desenvolvimentismo da “Revolução Cidadã” de Correa, que quer impulsionar a exploração de petróleo e recursos naturais e as reivindicações ecologistas e autonomistas dos indígenas – um conflito que, sob diferentes formas, ganha vulto em toda a América Latina. Importantes, mas não a ponto de assumir um papel central como na Bolívia, os indígenas do Pachakutik aliam-se a quem lhes faz promessas e tratam o governo como principal inimigo – assim como policiais e funcionários públicos apoiados pelo MDP em suas expectativas ilimitadas.

O personalismo do presidente, por sua vez, o fecha a negociações e o leva a apostar no apoio popular, que cresceu de 53% para 58% após a crise. Pode ser que esta o ajude a isolar a oposição e consolidar-se no poder, mas a solução dos impasses que a originaram ainda não está à vista.


Por Antonio Luiz M.C.Costa, editor de internacional da CartaCapital

South of Border: Ao Sul da Fronteira

quarta-feira, 20 de outubro de 2010




(EUA, 2009, 77min. - Direção: Oliver Stone)

Imperdível!

Finalmente um dos documentários mais esperados do ano! Do aclamado diretor Oliver Stone, "South of the Border" é certamente um filme que irá fazer despertar muita gente!

A imprensa latino americana é por tradição alinhada com a norte americana. Se pensarmos que esses grupos na verdade fazem parte de um mesmo grupo internacional (mídia, petroleiras, farmacêuticas, bancos, etc.), que detém cerca de 80% de todos os canais de TV, das rádios, jornais e revistas do mundo ocidental, fica fácil saber o porquê desse alinhamento.

E não é difícil notar que esse grupo constantemente cria no imaginário coletivo, através de notícias, a ideia de que sempre estamos sendo ameaçados por alguma terrível nação ou ditador, que merecem, por isso, ser alvos de golpes de Estado e Guerras.

Mas, nos últimos anos, a América do Sul mudou radicalmente a forma de ver seus governantes. Apesar de 95% da mídia tradicional massacrar diariamente os presidentes "desobedientes" em relação às políticas dos EUA, todos contam com enorme apoio popular.

Provavelmente o mais desobediente de todos seja Hugo Chávez, e que por isso seja tão demonizado por quase toda a mídia internacional. Essa demonização veio arquitetada justamente por uma das personalidades mais odiadas do mundo: George W. Bush e toda sua equipe de Governo, ligadas às corporações.

O documentário visa justamente quebrar alguns dos mitos criados pela mídia oligárquica, e de desmascarar as mentiras noticiadas frequentemente e trazer uma mensagem de esperança rumo a um caminho que deixaria todos os países latinos muito melhores: A Integração.
(Comentários: Docverdade)

Opções de Download:
ou
Rapidshare em 5 partes (juntar com Winrar): part1 - part2 - part3 -part4 -part5



Veja também os documentários relacionados: A Revolução não será Televisionada e Guerra Contra a Democracia

fonte: Docverdade


Chomsky: "Os Estados Unidos estão perdendo o controle"

domingo, 3 de outubro de 2010

O escritor e filósofo estadunidense Noam Chomsky assinalou que os Estados Unidos estão perdendo o controle no mundo e indicou que a América Latina, região que a nação norteamericana considerou por décadas como "quintal", está se aproximando da sua independência e da integração.

"Agora estamos em um momento dramático porque os Estados Unidos estão perdendo o controle em todas as partes. O Oriente Médio é o lugar mais importante. Mas a China é outro caso, assim como é o hemisfério ocidental", indicou Chomsky.

Acrescentou que "sempre se deu por certo que o chamado quintal estaria sob controle. Se você olhar os documentos internos, durante os anos de [ex-presidente estadunidense Richard ] Nixon, quando estavam planejando a derrocada do governo de [Salvador] Allende [ex-presidente chileno derrubado pelo ditador Augusto Pinochet], disseram exatamente que, se não podiam controlar a América Latina, como iriam controlar o resto do mundo".

"Já não podem controlar a América Latina. De fato, passo a passo, a América Latina, pela primeira vez, está se aproximando da sua independência e da integração", sublinhou.

Recordou que, em fevereiro, realizou-se a Cúpula da Unidade da América Latina e Caribe, em Cancún, no México, em que foi aprovado um organismo regional que reúne os países da América Latina e Caribe sem a participação dos Estados Unidos nem Canadá, com o objetivo de integrar a região, isso "foi um tapa" para ambos países norteamericanos.

"Por enquanto, somente é formal. Mas se chega a ser operativo, elimina a OEA [Organização dos Estados Americanos] que é dirigida pelos Estados Unidos. É como se dissessem aos Estados Unidos que se retirem de nossos assuntos. E há outras medidas que estão sendo tomadas. Por exemplo, a China superou os Estados Unidos como importador do Brasil e provavelmente o superará como sócio comercial. É uma grande notícia", acrescentou.

A seguir, a entrevista na íntegra realizada com o escritor e filósofo estadunidense Noam Chomsky.

Telesur - Quero começar perguntando-lhe sobre o Irã, os Estados Unidos estão pressionando para que o Conselho de Segurança da ONU [Organização das Nações Unidas] imponha-lhe sanções mais duras. Até onde vão os Estados Unidos ou Israel, poderiam invadir ou atacar o Irã?

Noam Chomsky - Israel não é previsível. Particularmente, nos últimos dois anos, tem agido de maneira muito irracional, com muita paranóia, em uma situação em que não se pode saber o que vão fazer. Não creio que nem eles saibam o que vão fazer. Estão chegando a um ponto onde podem não ter outra saída a não ser bombardear o Irã. Mas não podem fazer isso sem o apoio dos Estados Unidos. Assim, a pergunta é se os Estados Unidos autorizarão.

Tecnicamente, Israel poderia fazê-lo. Tem submarinos, que conseguiram da Alemanha, com mísseis nucleares profundamente submersos no Golfo Pérsico.

Teoricamente, poderiam atacar ao Irã sem passar pelo espaço aéreo. Mas quase todos os ataques que se podem conceber passariam pelo espaço aéreo de algum país, assim seria difícil o fazerem sem algum tipo de autorização pelo menos tácita. A Turquia não vai consentir. A pergunta é se os Estados Unidos a autorizaria contra o Iraque. E a outra pergunta é a Arábia Saudita. É concebível que tentaria. Eu acredito que seria uma loucura. E os Estados Unidos? [Barack] Obama, que avançou com os programas de [George W.] Bush, junto com seus assessores, também está se metendo em uma situação onde poderia não ter opção. Porque criaram essa ideia de ameaça do Irã. A ilha mais importante é Diogo García, uma ilha africana onde a Grã-Bretanha expulsou todos os habitantes para que os Estados Unidos pudessem construir uma base militar grande, e é uma das bases militares para atacar o Oriente Médio na Ásia Central. E Obama avançou ali. Enviou centenas de artilharia com penetração profunda chamada "rompe-bunkers", que estão apontados para o Irã. Enviou instalações para apoiar submarinos nucleares com mísseis Tomahawk. Tudo isso representa uma ameaça direta ao Irã. E as sanções estadunidenses estão ficando mais duras. Mas chama a atenção que fora da Europa e do Japão ninguém está prestando muita atenção. Esses países estão de acordo em ser servis aos Estados Unidos.

Não é o caso do resto do mundo. Os países não alinhados, que são a maioria dos países do mundo, têm apoiado fortemente o direito do Irã em enriquecer o urânio. Mas ninguém presta atenção a eles. São as colônias. Mas é cada vez mais difícil de evitá-los. Turquia, o poder regional mais importante, está construindo oleodutos através do Irã. Está aumentando o comércio com o Irã. Opuseram-se às sanções. O Paquistão acaba de abrir oleodutos para o Irã. Mas o que mais preocupa os Estados Unidos é a China. A China simplesmente não presta atenção às ordens dos Estados Unidos. E se acreditam que são o dono do mundo, isso dará medo. De fato, o governo de Obama está desesperado por isso. Apenas há duas semanas, o Departamento de Estado emitiu advertências à China, dizendo que, se querem ser aceitos no mundo civilizado, tem que cumprir com suas responsabilidades internacionais. O que são as responsabilidades internacionais? Seguir as ordens dos Estados Unidos. Obedecer às sanções dos Estados Unidos. Essas sanções não têm nenhuma força, exceto os meios de violência por detrás delas.

A China está satisfeita em obedecer às sanções da ONU [Organização das Nações Unidas] porque são fracas. Os Estados Unidos não podem fazer com que aprovem sanções sérias na ONU. Assim, a China aprova as sanções da ONU e não tem nenhuma responsabilidade de seguir as sanções dos Estados Unidos. O mais provável é que estejam rindo na Chancelaria porque os Estados Unidos não podem fazer nada.

Igual à Rússia, seguem com suas relações econômicas. Estão desenvolvendo suas terras para gás natural etc. É provável que a China esteja de acordo com as sanções dos Estados Unidos porque abre oportunidades a eles. Não tem que competir com empresas dos Estados Unidos e Europa. E as empresas estadunidenses e europeias provavelmente estão furiosas por isso. Mas é uma política de Estado. Isso também está se passando com as manobras navais. A China criticou que os Estados Unidos estejam fazendo manobras navais perto da costa da China. Estavam muito incomodados pelo plano de enviar um porta-aviões nuclear Aircraf avançado, com o nome de George Washington, ao mar Amarelo com capacidade para atacar Pequim [capital da China] com mísseis, segundo os chineses. Aqui nos Estados Unidos não dão importância. Mas nós não reagiríamos dessa forma se a China estivesse realizando manobras no Caribe. De fato, a reação dos Estados Unidos é muito interessante, tanto do governo como da imprensa. A China não está sendo razoável. Estão interferindo na liberdade dos mares, é dizer, nossa liberdade de realizar manobras militares perto de sua costa.

Claro que ninguém tem esse direito, somente nós. E estão possivelmente estão interferindo com nosso desenvolvimento avançado perto da sua costa. Ninguém tem esse direito perto da nossa costa. Todas essas coisas são reflexo de uma ideologia imperialista profundamente arraigada, que diz que é nosso mundo, nós somos os donos e, se alguém interfere com nosso direito de fazer o que queremos, é sua culpa. E quando a China não aceita, a China é considerada uma ameaça. Não seguem ordens e exercem sua própria soberania, e isso não se pode tolerar. E se nos voltarmos para o Irã, é a mesma coisa.

Segunda-feira [13], o Wall Street Journal anunciou que os Estados Unidos estão acelerando seus planos para um enorme envio de armas a Arábia Saudita. Helicópteros, aviões F-15 etc, projetado cuidadosamente para que Israel consiga armas avançadas e a Arábia Saudita consiga as armas inferiores. No entanto, é enorme. Talvez a maior venda de armas na história. Supostamente é para se defender contra o Irã. Mas o que é exatamente a ameaça iraniana? É interesante. Sempre se fala disso.

É considerado, pelos analistas da política externa dos Estados Unidos e pelo governo estadunidense, de ser um problema maior para a ordem mundial. De fato, tem se chamado o ano do Irã porque é um problema tão grande. Assim, qual é a ameaça? Na verdade, temos uma resposta definitiva para isso.

Desgraçadamente os meios não cubrirão isso. A cada ano, o Pentágono e os Serviços de Inteligência nos Estados Unidos entregam informes ao Congresso analisando a situação global de insegurança.

Acabam de fazê-lo em abril passado. Há uma seção sobre o Irã. O que dizem é muito interessante e, por isso, os meios não cobrem. Dizem que o Irã tem gastos militares muito baixos, inclusive em comparação com outros países da região. Portanto não está claro por que a Arábia Saudita necessita de helicópteros e F-15. O Irã não tem praticamente nenhuma capacidade de mobilizar forças no exterior. Sua doutrina militar é puramente defensiva, projetada para postergar uma invasão do Irã por tempo suficiente para permitir a diplomacia.

Os informes afirmam também que se o Irã está desenvolvendo uma capacidade nuclear, que não quer dizer uma arma nuclear necessariamente, seria parte da estratégia de uma força dissuasiva. Necessitam uma força dissuasiva que não é surpreendente porque há dois países em suas fronteiras ocupados por uma superpotência hostil. Israel e Paquistão têm armas nucleares. Assim, estão em uma situação de perigo. Portanto, se supõe que isso seria parte de sua estratégia de uma força dissuasiva, se estão fazendo isso. Assim, qual a ameaça? Os informes explicam a ameaça. A ameaça é que estão exercendo sua soberania. Estão tentando estender sua influência para países vizinhos, como o Afeganistão e o Iraque. E isso não se pode tolerar porque nós somos os donos desses países. Se nós invadimos esses países, está tudo bem. Mas se eles tentam influenciá-los, chama-se de desestabilização. Impomos a estabilidade. É uma terminologia comum. É tão comum que um editor de uma publicação de relações internacionais uma vez escreveu, sobre o golpe de Estado no Chile contra Allende, que desgraçadamente tivemos que desestabilizar o Chile para estabelecer a estabilidade. E não estava se contradizendo porque tivemos que desestabilizar ao depor o governo e impor uma ditadura, e o resultado é estabilidade porque o novo governo segue ordens e sua visão do mundo. Cada artigo do jornal que lê, cada publicação acadêmica sobre as relações internacionais, dão por certa essa perspectiva. É uma perspectiva natural se acredita que é o dono do mundo. E se você olha os documentos internos dos Estados Unidos, têm suas origens há muito tempo, desde a Segunda Guerra Mundial, quando os assessores de Roosevelt se deram conta de que os Estados Unidos saíam de uma guerra com um poder mundial dominante substituindo a Grã-Bretanha. E estabeleceram diretrizes que são explícitas e nunca são discutidas porque são demasiado explícitas. Dizem que os Estados Unidos devem controlar uma vasta área, pelo menos no hemisfério ocidental, o anterior império britânico, que inclui o Oriente Médio, o Extremo Oriente e, talvez mais, e dentro dessa área nenhum país pode exercer sua soberania se interfere com os planos dos Estados Unidos. Os Estados Unidos devem ter poder absoluto.

Professor Chomsky, o império dos Estados Unidos está acabando?

Agora estamos em um momento dramático porque os Estados Unidos estão perdendo o controle em todas as partes. O Oriente Médio é o lugar mais importante. Mas a China é outro caso, assim como é o hemisfério ocidental.

Sempre se deu por certo que o chamado pátio estaria sob controle. Se você olhar os documentos internos, durante os anos de [ex-presidente estadunidense Richard] Nixon, quando estavam planejando a derrocada do governo de [Salvador] Allende [ex-presidente chileno derrubado pelo ditador Augusto Pinochet], disseram exatamente que, se não podiam controlar a América Latina, como iriam controlar o resto do mundo.

Já não podem controlar a América Latina. De fato, passo a passo, a América Latina, pela primeira vez, está se aproximando da sua independência e da integração.

Por enquanto, somente é formal. Mas se chega a ser operativo, elimina a OEA [Organização dos Estados Americanos] que é dirigida pelos Estados Unidos. É como se dissessem aos Estados Unidos que se retirem de nossos assuntos. E há outras medidas que estão sendo tomadas. Por exemplo, a China superou os Estados Unidos como importador do Brasil e provavelmente o superará como sócio comercial. É uma grande notícia.

Professor Chomsky, no caso de Honduras, o golpe de Estado do ano passado. Esse não foi um golpe duro para a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba) e uma grande vitória para os Estados Unidos?

A América do Sul avançou em direção à independência e a integração. A Unasul [União de Nações Sul-americanas], por exemplo, não é uma organização somente escrita no papel. Não faz muito, mas se opôs às bases estadunidenses na Colômbia. Apoiou a [presidente boliviano Evo] Morales quando estava sob atraque da velha elite nas províncias do leste.

O Banco do Sul poderia chegar a ter importância e o Mercosul [Mercado Comum do Sul] está se formando. Assim a América do Sul está saindo do controle dos Estados Unidos, o que é muito significativo. Mas a América Central está sob controle até agora. Foi devastada pelas guerras terroristas de [Ronald] Reagan, incluindo Honduras, e apenas está emergindo disso. Porém tem estado disciplinada pelos Estados Unidos.

Com a Nicarágua tem sido um pouco diferente, mas também não tem incomodado muito os Estados Unidos. Honduras é sério. E uma razão é a base de Palmerola. É a única base militar importante que os Estados Unidos têm nessa região. Foi a principal base para atacar a Nicarágua durante a guerra dos Contras. E os Estados Unidos querem mantê-la. E como disse, Honduras é a república bananeira tradicional. Se não podemos mantê-la, estamos com problemas sérios.

Assim, Obama apoiou o golpe de Estado astutamente. Nas palavras, estavam contra, mas nas ações, mostravam que apoiavam. E conseguiram fazer isso. Foi um golpe militar de Estado exitoso. Mas se você fizer uma comparação com o passado, a forma como foi realizado explica muito.

Em anos passados, se os Estados Unidos quisessem apoiar um golpe militar de Estado, simplesmente diriam às Forças Armadas que derrubassem o Governo, e o fariam por si mesmos. Desta vez, se obrigaram a fazê-lo de uma forma mais astuta e indireta que poderia chegar a ser aprovada na Europa.

A Europa é tão obediente aos Estados Unidos. A Europa poderia dizer que não gostou, mas poderia dizer que se manteve dentro da lei, o que por certo não é verdade por certo. Mas não puderam fazer algo assim com o resto do mundo e não puderam fazer como faziam no passado.

São sinais da debilidade crescente dos Estados Unidos, de impor o que chamam de estabilidade no hemisfério. Se fixar nesta década, houve três tentativas de golpe de Estado. O primeiro na Venezuela, apoiado abertamente pelos Estados Unidos, foi revertido. O segundo, no Haiti, os Estados Unidos conseguiram levar a cabo. Estados Unidos, França e Canadá, de fato, levaram a cabo um golpe militar no Hati. Sequestraram o presidente e o enviaram á África Central e baniram seu partido, que ganharia qualquer eleição. Foi um golpe militar de Estado verdadeiro. O Haiti é um Estado fraco, assim puderam fazer isso. E o terceiro foi em Honduras.

São três em uma década. Mas não tem nada a ver com a época em que os Estados Unidos podiam derrubar governos à vontade.

Nada a ver, por exemplo, com John F. Kennedy, que pôde organizar um golpe militar de Estado no Brasil, que ocorreu justamente depois de seu assassinato, mas foi organizado pelos Kennedy. O Brasil é um país grande, não é um lugar pequeno, e não foi um grande problema. Instalaram um de seus primeiro países assassinos de segurança nacional que depois se estendeu como uma praga por todo o continente.

Esses dias acabaram. E está causando muita preocupação entre os formadores da política externa dos Estados Unidos. Inclusive um país tão poderoso como os Estados Unidos já não podem manter o tipo de dominação mundial que foi projetada depois da Segunda Guerra Mundial e implementá-la em grande medida.

Professor Chomsky, você escreveu um livro muito importante há 20 anos sobre a fabricação do consenso feito por grandes meios comerciais. A capacidade dessas empresas de controlar o pensamento das pessoas mudou nesse período?

Tomamos os exemplos da Telesur, RT, Press TV ou Al-Jazeera, que é o maior. Vemos um exemplo real, como a invasão israelense a Gaza, que foi uma invasão israelense e estadunidense a Gaza porque os Estados Unidos participaram plenamente. Foi possível conseguir uma cobertura ao vivo 24 horas de Gaza da Al Jazeera. E havia dois povos nos Estados Unidos de onde se poderia ver. Um está em Michigan [centro-norte] onde há uma grande população árabe e outro é um pequeno povo no norte de Nova Hampshire.

No resto do mundo, foi possível ver a cobertura 24 horas do evento mais importante desse período. Nos Estados Unidos, foi proibido. Se por acaso estivesse nesses povos, poderia ver pela televisão a cabo. Se foi suficientemente inteligente para encontrar pela internet, podia encontrar pela internet. Mas quanto ao impacto sobre a população, teve mais êxito sobre os que viviam na União Soviética. Havia muito mais gente escutando a BBC na União Soviética, escutando fontes no exterior.

Um grande número estava conseguindo suas notícias da BBC e pela Voz da América. Sabemos isso por estudos que foram realizados. Aqui está essa voz alternativa, e se sabe o que busca e faz um esforço, pode encontrar. Isso é bom, porém só alguns aproveitam.

A internet tem muito valor se você sabe o que está fazendo. Mas para a maioria da população, é como se você quisesse ser biólogo e eu diga que vá a bibliotecas de Harvard e leia todas as revistas sobre biologia. Não vai aprender nada. Estão ali. No entanto, tem que saber o que está buscando. E as pessoas nos Estados Unidos não sabem porque tem havido uma campanha extremamente exitosa, especialmente nos últimos 20 anos, de fragmentação para as pessoas, subordinando-as.

Professor Chomsky e a mudança climática, a possibilidade de uma guerra nuclear, a crise alimentar, os desastres naturais, nesse sentido o mundo é assustador.Você tem esperança?

O mais surpreendente é que quase não há uma forma de abordar a mudança climática com as instituições já existentes. Os Estados Unidos realmente não têm um sistema de mercados, nenhum país poderia sobreviver com um sistema de mercados. Mas têm um sistema de mercados parcial. E na medida em que funciona um sistema de mercados, você perdeu. Se você é executivo de uma empresa, está obrigado por lei a maximizar as ganâncias em curto prazo e ignorar as externalidades, por exemplo, o destino da espécie humana.

Não faz isso porque é uma pessoa má, talvez lhe importe o destino da espécie. Mas não pode importar em teus negócios. Se você decide ser uma pessoa decente, está fora, e se incorpora outra pessoa que vai fazer o que se requer institucionalmente. O efeito nos Estados Unidos é que há campanhas de propaganda importantes dirigidas a um mundo dos negócios que tentam convencer as pessoas a esquecer. O que não está se passando, o que os humanos não têm que ver, o que seja. É uma sentença de morte.

E as mesmas pessoas que estão fazendo essa campanha sabem bem disso. Sabem igualmente como eu, você e outros que é muito sério. Mas estão presos. Estão nessa estrutura institucional e não podem sair. E isso é sério. Se você vê o mundo, há duas trajetórias. Há a trajetória que está sendo perseguida, lentamente, irregular, de que na América Latina há mais independência em direção aos horríveis problemas internos da pobreza massiva e o sofrimento e a desigualdade. Há passos tímidos para essa direção. É uma trajetória positiva. Há outra trajetória que conduz à destruição. A mudança climática é um caso. A guerra nuclear é outro. E há outros. A pergunta é qual trajetória acabará dominando. Não tem sentido especular.

Tradução: Patrícia Benvenuti para o Brasil de Fato

Reportagem Telesur



“O futuro passa pela América Latina”

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Publico artigo de Ivan Valente, deputado federal (PSOL-SP) e membro da Comissão de Relações Exteriores da Câmara. Socialista, defensor da política de integração da América do Sul, foi um dos parlamentares que lutaram para que o Parlamento brasileiro aprovasse a entrada da Venezuela no Mercosul, e um crítico do golpe de Estado em Honduras, defendido por tantos meios de comunicação no Brasil. Enfim, é uma voz indispensável no Congresso na defesa de uma política externa independente e avançada para o Brasil.

Rumos para a construção de uma sociedade socialista

Os povos da América Latina tiveram várias vitórias contra o neoliberalismo nos últimos anos. Mas ainda faltam estratégias consistentes para o futuro, para construir de fato uma sociedade de cunho socialista. Tais estratégias nascerão das lutas cotidianas e a disputa eleitoral tem um papel importante nesse quadro.

Vivemos uma situação curiosa. Há poucos meses enfrentamos manifestações claras da mais séria crise capitalista desde a Grande Depressão (1929-1939). Ela foi séria não apenas pelo montante de ativos e riquezas que evaporaram em um curto espaço de tempo, mas pelo fato de ter atingido em cheio o centro do sistema capitalista.

Diferentemente dos cataclismos dos anos 1990, que afetaram México, Tailândia, Rússia, Brasil e Argentina – a periferia – desta vez foi a economia dos Estados Unidos o epicentro das turbulências. A quebra de grandes bancos e empresas financeiras, no rastro da crise hipotecária mostrou os limites dó livre mercado como organizador social. Tudo aquilo que a pretensa boa ciência alardeava como virtudes incontestáveis da vida econômica, ruiu por terra.

Como todos sabem, a solução foi apelar para o socorro providencial do bom e velho Estado, através de estatizações, linhas de crédito, alterações legais e favorecimentos vários para salvar as empresas dos grandes capitalistas. Logo o Estado que, nas décadas anteriores, era tido como raiz de todos os males do mundo, matriz de ineficiência e de empreguismo. A AIG, sozinha, por exemplo, recebeu 160 bilhões de dólares do socorro dos governos. Aqui no Brasil, as montadoras ganharam 8 bilhões de Serra e Lula, e depois enviaram 12 bilhões para suas matrizes no exterior na forma de remessa de lucros.

Mas uma reflexão a mais deve ser feita nesses momentos em que a crise deu uma refluída: por que nós, da esquerda, não conseguimos produzir uma teoria alternativa ou mesmo um conjunto de reformas progressivas que não apenas minimizassem os estragos na área econômica mas também apontassem uma mudança de rumos na construção de uma sociedade diferente, de cunho socialista?

A lição das crises

Se olharmos rapidamente para a experiência de crises anteriores, vamos ver que elas serviram, do ponto de vista da esquerda, para basicamente duas coisas: 1. Para reabrir a disputa política na sociedade e 2. Para concretizar teorias alternativas.

A disputa foi reaberta. Não estamos mais nos tempos do obscurantismo neoliberal dos anos 1990, época em que toda opção era descartada em favor do chamado pensamento único – continua forte e agressivo, mas há reações. Eram os dias da cantilena do Estado mínimo, das privatizações e das desregulamentações.

A partir das mudanças ocorridas na América Latina – cujo marco inicial foi a eleição de Hugo Chávez, na Venezuela, em 1998 – novos tempos se abriram. Tivemos as batalhas de Seattle, em 1999, e os Fóruns Sociais Mundiais, a partir de 2001. E, acima de tudo, os enfrentamentos eleitorais em nosso continente se constituíram cada vez mais em palcos de disputas entre várias nuances da esquerda e da direita. Contribuições surgiram. Afinal, teorias revolucionárias não surgem apenas de ambientes acadêmicos, mas de ambientes onde há encarniçadas lutas sociais. Idéias desse tipo emergem oxigenadas pela força incontrolável das grandes mobilizações.

No entanto, se por um lado tivemos sucesso em reabrir os horizontes de luta, o mesmo não ocorreu quanto aos horizontes de longo prazo. Por razões complexas, conseguimos definir táticas imediatas mas não amadurecemos estratégias consistentes para o futuro, para a superação não apenas da crise, mas da etapa atual do capitalismo neoliberal.


América Latina

Neste sentido, é da América Latina que se pode esperar as maiores chances de surgimento de estratégias para a construção de sociedades de cunho socialista. Nosso continente é o que mais longe tem levado o enfrentamento contra as forças de livre-mercado e contra a direita imperialista. Aqui estão povos que tem se levantado para discutir o seu futuro.

O que ocorre com nossos irmãos latino-americanos é a verdadeira aventura de reinventar a vida e lutar para conquistar a mudança social e a libertação dos nossos povos. A cara desse fenômeno é quéchua, aymara, guarani, a redescoberta indígena, negra, popular e feminista que vai beber na história de dominação indo-americana para retomar o exemplo de resistência e experiência revolucionária presentes nas nossas origens.

É daqui que uma nova teoria pode ser produzida a partir das lutas cotidianas pela terra, pelo emprego, pela saúde, pela moradia, pela educação, pelo meio ambiente. E seu papel deve ser claro: balizar a disputa de rumos para que o socialismo não seja apenas uma palavra de ordem em nossos discursos, mas um objetivo político palpável.

É isso que temos buscado defender nos debates travados na Câmara dos Deputados em torno da política externa brasileira, onde a oposição de direita manifesta cotidianamente saudades dos tempos em que os Estados Unidos ditavam todos os rumos do continente.

Baseados em princípios como a soberania nacional e a auto-determinação dos povos, combatemos a ALCA e a integração subordinada proposta pelo bushismo. Por duas vezes, estivemos na Venezuela como observador internacional, constatando a transparência das eleições de Chavez e a presença feroz da direita. Criticamos duramente o golpe em Honduras e estivemos em Tegucigalpa com o presidente Manuel Zelaya, manifestando a solidariedade do Parlamento brasileiro e defendendo a democracia na América Latina. Pautamos no Congresso o debate sobre a presença de bases militares norte-americanas na Colômbia. Defendemos a entrada da Venezuela no Mercosul.

Exemplo vivo

No aniversário dos 40 anos da morte de Ernesto Guevara, em La Higuera e Valle Grande, na Bolívia, reafirmamos os ideais de Che, que ainda hoje despertam o sonho e a rebeldia de milhares de jovens mundo afora. Che viveu concretamente e ousou levar esses ideais até as últimas conseqüências. E deixou um exemplo: a combinação entre a teoria e a ação prática, sem o medo de pagar o preço necessário pelos riscos desencadeados.

Combateu o burocratismo de certos dirigentes e partidos, numa conduta verdadeiramente revolucionária, corajosa e generosa, diferente daquela adotada pelos que hoje abandonam uma perspectiva de transformação profunda em nosso país, dentro de uma lógica conformista, do discurso do possível, que seqüestra o sonho e rouba a esperança.

O Brasil tem desafios enormes pela frente, a começar por superar a brutal e indecente desigualdade social que ainda impera em nosso país. Mas é preciso pensar em como fazer justiça social dentro e fora do país. Ainda não superamos o “subdesenvolvimentismo” e a dependência do capital financeiro internacional. Nos últimos 16 anos, temos tido uma relação subordinada ao que ditam as regras dos bancos e organismos multilaterais de comércio. Nossa política monetária e fiscal ainda responde a esses interesses.

Não fosse assim, não destinaríamos mais de um terço do orçamento nacional para o pagamento de juros da dívida pública interna e externa. Essa enorme dependência financeira restringe nossa soberania e precisa ser urgentemente superada. Para isso, será preciso recolocar os valores socialistas da igualdade, da dignidade, da liberdade e da justiça social na agenda brasileira. Sem medo de tocar nos interesses daqueles que há séculos exploram nosso povo dentro e fora de nossas fronteiras.


 

2009 ·Axis of Justice by TNB