
Limites da Solidariedade.
In Brasil, In capitalismo, In Desigualdade, In Justiça, In reflexão, In Sociedade, In solidariedadesexta-feira, 18 de março de 2011

O espírito jovem sedento por Revolução
In Ativismo, In capitalismo, In Che Guevara, In Justiça, In politica, In reflexãosegunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Em nosso círculo social geralmente encontramos pessoas com o mesmo pensamento, com as mesmas conversas e com os mesmos objetivos pessoais. O pensamento mostra-se na maioria dos casos alienado e conservador; as conversas baseiam-se em status, luxo e poder; e os objetivos pessoais fatidicamente se voltam para dinheiro, reconhecimento profissional e lucro.
Numa conversa, mesmo que breve, assuntos que envolvam capital sempre vêm a tona. Parece às vezes que as pessoas se sentem pressionadas a falar sobre tais coisas, sob pena de exclusão se não estiverem interados desses assuntos. E isso não tem idade, desde os jovens, até os mais velhos incutem o valor de “ser alguém na vida” (leia-se ser rico). Enquanto a nova geração narra suas pretensões, sua ânsia por ter um carro novo com um motor potente, por ter roupas de marca, dinheiro e fama; os adultos/idosos contam sobre o que conquistaram, quanto dinheiro conseguiram e como viveram confortavelmente em sua fartura, em sua riqueza, no pleno conforto da presença em materiais mas ausência em ideais.
Invariavelmente a ideologia capitalista passa de forma notória, mas imperceptível de pai para filho. A propaganda, com sua contribuição generosa dá o empurrão final para tornar qualquer cidadão um consumidor em potencial, servo das tendências de mercado. São poucas as pessoas conscientes, que não sobrepõem produtos a pessoas, que não se tornam fantoches da mídia, que pensam e sabem da importância de não ser apenas mais uma peça do sistema.
A futilidade humana chega a ser por vezes impressionante, cada um se preocupa com seu próprio potencial em fazer dinheiro. Os ideais em comum, interesses do “homem médio” muitas vezes são esquecidos por ele próprio, que está preocupado demais com sua rotina, cansado demais de seu árduo dia de trabalho para questionar erros na sociedade e falhas na política.
O exemplo perfeito para essa situação foi o 5º ato contra o aumento das tarifas de ônibus em SP, do dia 10/02. O número de manifestantes não passou de 5 mil, um fato curioso, já que um número absurdamente maior de pessoas faz uso dos transportes metropolitanos todos os dias. Aonde estão esses trabalhadores na hora de questionar seus direitos? Onde estão os milhões de votantes, que elegeram o prefeito Gilberto Kassab e agora sofrem com o preço absurdo colocado nos transportes? Em que lugar se escondem os famosos “reclamões de sofá”, que assistem Jornal Nacional e resmungam da política diariamente no conforto de seus lares?
O ativismo hoje é tema de deboche, foi o que pude perceber ao participar dos atos e me sentir mais perto do povo. As pessoas passam nas ruas, nas lojas, em seus carros, e até mesmo nos próprios ônibus lotados e riem um sorriso insosso, amarelo, que sente “vergonha” daquele movimento e crê que aquela passeata é algo passageiro, coisa de jovem “bagunceiro” que não tem mais o que fazer. Irônico pensar que jovens ativistas são vistos dessa maneira, que as poucas pessoas conscientes, que lutam por seus direitos são marginalizados pela mesma sociedade que eles estão lutando para conscientizar e mudar.
Estamos dentro de um contexto ambicioso, que arquiteta planos para tornar a sociedade cada vez mais piramidal e desnivelada. Essa estrutura de organização social pode ser facilmente comparada com nossa estrutura de organização intelectual, onde, um grupo cada vez mais seleto se põe a disposição do todo, da massa, da revolução. A grande maioria, focada em seu egocentrismo hipócrita se esconde a trás da máscara de mentiras que o dinheiro proporciona. A verdadeira liberdade de pensamento, o verdadeiro ativismo está além do que a televisão te mostra, está na mobilização consciente, semelhante ao que pude ver nos Atos que tive o prazer de ir. Se sentir mais um no meio de tantos seres que partilham de seus ideais e de sua descrença em nossa atual situação é no mínimo emocionante.
“Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética” foi o que disse certa vez El Fuser, um de meus maiores heróis. E mesmo ainda sendo exceção, no meio de uma juventude cada vez mais transviada e despreocupada com o mundo que a cerca, sinto-me feliz, livre dos grilhões do pensamento padronizado e disposto a alimentar cada vez mais meu espírito sedento por revolução. O seu dinheiro pode comprar tudo, menos minha vontade de fazer justiça
A insustentável leveza das ditaduras
In Ativismo, In democracia, In EUA, In imperialismo, In Justiça, In luta popular, In Política Externa
Após quase três semanas de luta, dezenas de milhões de egípcios conseguiram fazer renunciar um dos ditadores “do bem” da direita mundial, Hosni Mubarak, encastelado no poder havia trinta anos. Um déspota contra quem nunca se ouviu ou leu um milésimo do que a imprensa internacional não pára um só dia de dizer contra Cuba ou contra o Irã.
De repente, de algumas semanas para cá, no entanto, a ditadura egípcia entrou no noticiário e não saiu mais. Não era mais possível esconder que um dos tentáculos dos Estados Unidos no Oriente Médio estava se putrefazendo em alta velocidade.
Mas a questão que me acorre à mente diante de um desfecho da crise institucional no Egito que muitos – este blogueiro incluído – duvidaram de que pudesse ocorrer é sobre a natureza das ditaduras, sobre como vão levando as sociedades sobre as quais se abatem a um ponto de esgotamento como esse a que chegou o país do Oriente Médio.
Ditaduras são insustentáveis. Podem durar décadas valendo-se da força, mas não conseguem se manter indefinidamente. Vejam o caso da ditadura egípcia. Nem o apoio americano ou da grande mídia internacional foi suficiente para impedir que o povo colocasse um ponto final naquilo. E não foi por falta de tentativas.
Mubarak, a mídia e os EUA tentaram enrolar o mundo com aquela tal de transição “lenta, gradual e segura” que já foi imposta ao Brasil, mas no Egito não rolou. Na manhã de hoje, já se falava em uma mobilização de VINTE MILHÕES de pessoas. Além disso, o país estava paralisado. Nada funcionava. Imaginem tudo parar por quase três semanas.
Nesse momento, lembro-me de Cuba. Jamais houve nada parecido por lá. Não se tem nem notícia de repressão de manifestações contra o governo. Figuras isoladas promovem greves de fome que são recebidas com frieza pela população, apesar de a mídia lhes dar extrema visibilidade, como se tais ações tivessem alguma representatividade.
O regime cubano não cai e não é contestado pelo povo. Por que? Os cubanos não saem às ruas porque são covardes? A repressão em Cuba seria maior do que em qualquer outra nação supostamente submetida a ditadura? Não creio. O que me parece é que não há, naquele país, um sentimento de que vive sob regime ditatorial.
Acima de tudo, portanto, o que se deve extrair do que aconteceu no Egito é um modus operandi de luta pela liberdade que promete infernizar ditaduras nos quatro cantos da Terra. O povo mostrou que tem o poder. Que é só sair as ruas e se recusar a permitir que o país funcione sob o jugo de ditadores.
Ditaduras não têm base popular e, assim, não têm o peso de governos legitimamente constituídos, ungidos pelo desejo das maiorias democráticas. Essa “leveza” das ditaduras, portanto, é o que as torna insustentáveis, como o Egito acaba de mostrar ao mundo, para desespero de todos aqueles aos quais as ditaduras beneficiam.
retirado do Blog Cidadania (recomendo MUITO a visita a esse blog, textos excelentes)
5º ato contra o aumento da tarifa de ônibus
In Ativismo, In Brasil, In Justiça, In luta popular, In Movimentos Sociais, In politicaquarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

No começo do ano, nosso "ilustríssimo" prefeito Gilberto Kassab, junto ao Secretario de Transportes resolveram aumentar a tarifa de ônibus para R$ 3,00; o dobro do que a inflação monetário propunha.
Somos todos malabaristas de farol
In America Latina, In Brasil, In capitalismo, In Desigualdade, In Justiça, In reflexãodomingo, 6 de fevereiro de 2011

“Essa é sua vida, e está terminando a cada minuto”, você acorda no carro, preso no trânsito, exposto ao calor intenso do litoral, esperando pacientemente pela troca de cores do semáforo. Olha pra esquerda e vê um garoto, de aproximados 10 anos de idade, sem camiseta, sem chinelos, apenas uma bermuda cobrindo seu corpo magro e moreno. Seu rosto não expressa nada, não transmite nada, apenas te olha, fixamente e vai a sua direção.
Com seus pequenos pés descalços ele anda até a frente do carro, suas mãos seguram malabares, com os quais ele tentará ali, naqueles poucos segundos ganhar uma moeda, uma nota, mas, provavelmente ganhará um “não tenho nada, meu filho”. Num gesto quase que mecânico, automático, de quem não faz aquilo por diversão, mas sim pela ânsia de sobreviver ele inicia os movimentos, uma peça de cada vez, até tê-las todas no ar, girando, equilibrando por um curto espaço de tempo, torcendo para que o motorista se impressione com sua habilidade, ou, o mais provável, dê-lhe dinheiro para que ele saia de lá logo.
Ele termina seu trabalho, se aproxima do carro, de vidros fechados que resguarda um refrescante ar condicionado, luxo para poucos, no meio daquele calor úmido e desgastante. Pelo vidro é possível ver seus olhos verdes, contrastantes com sua pele morena e seu cabelo enrolado, marcas profundas da miscigenação brasileira, a qual aquela criança foi exposta, fruto não só de heranças físicas, mas também herdeiro da pobreza e da desigualdade.
O vidro se abre, o motorista indaga o que o menino quer. Prontamente ele responde: “dinheiro!”. Ah, o dinheiro! A palavra mágica, a poderosa máquina de deturpar mentes, mover barreiras e gerar intrigas. Nada mais justo do que presentear o garoto com aquelas poucas moedas, troco de alguma compra que ficaram ali, no carro, exatamente para uma situação como essa. Num mundo onde tudo é lucro, tudo se compra, e nada é de graça, outra resposta vinda daquele menino seria no mínimo inusitada. As moedas passam da mão do motorista para aquela pequena mão, suja e áspera, marcada pelo trabalho, pela ausência de diversão.
De sua boca ressecada, ele pronuncia um agradecimento rápido e tímido, e eu, consigo olhar por uma última vez aqueles olhos marcantes, sinceros e tristes, antes que a pequena criança vire as costas e corra na direção de outros 5 jovens, trajados da mesma forma que ele, semelhantes fisicamente e também marcados como alvos da desigualdade.
É exatamente ai, nesse ponto, que me dou conta que somos todos malabaristas de farol, estamos todos seminus, expostos, vítimas do sistema que nos obriga a ser o que querem que sejamos. Nossos malabares são nossos amigos, nossos sonhos, nosso caráter, que estão em jogo, sendo apostados, podendo cair e se perder. Arriscamos pessoas que amamos, nossos objetivos pessoais, nossos sonhos de igualdade, nossa luta por justiça, nossa dignidade para ter dinheiro. Somos uma geração de caçadores de recompensa, sedentos por “ser alguém” dentro do mundo corporativo, por ser reconhecido profissionalmente num lixo de emprego que talvez nem gostemos, mas que provavelmente será necessário para nos adequar ao mundo capitalista e não nos tornar igual a aquele menino, e seu incerto trabalho nos semáforos das cidades. No final das contas, todos morreremos, e todas as nossas “realizações profissionais” serão apagadas da história, nem seu chefe, nem seu subordinado se lembrará de você, sua vida passageira termina e você se torna somente sombra e pó, nada mais.
Essa epifania serviu pra entender que somente realizações sociais, ativismo político, luta por mudanças fica marcado. As pessoas (as boas pessoas) se lembrarão de você por quem você foi e como agiu, e não pelo quanto de dinheiro tinha no bolso. A questão que fica é: Sendo malabaristas de farol, o que passa em nossas mentes, o que estamos dispostos a fazer se o motorista nos nega dinheiro? Até onde somos capazes de ir para ter o “precioso”.
“Você não é o seu trabalho. Você não é quanto dinheiro tem no banco. Você não é o carro que dirige. Você não é o conteúdo de sua carteira. Você não é nem o lixo das suas calças. Você é a merda ambulante do mundo”.
"A velha senhora asmática"
In America Latina, In Che Guevara, In Cultura, In Justiça, In reflexãoterça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Segue abaixo uma passagem do livro "De moto pela América do Sul" de Ernesto CHE Guevara (seu diário que relata os acontecimentos de sua viagem). Nesta passagem Che e Alberto estão na cidade de Valparaíso, Chile, e durante sua estadia nesse lugar, Ernesto vai ver uma velha senhora que conheceu num bar local que está muito doente e necessita das habilidades médicas do rapaz. O trecho em questão tem caráter altamente reflexivo e faz críticas à hierarquia social que colocou a velha mulher em situação de não conseguir pagar por medicamentos tendo apenas que esperar a chegada da morte.
Cuba registra taxa mais baixa da história de mortalidade infantil
In Cuba, In Justiça, In Saúdeterça-feira, 4 de janeiro de 2011
menor que os 4,8 de 2009. (Foto: STR / AFP Photo)
Cuba fechou 2010 com uma taxa de mortalidade infantil de 4,5 por 1.000 nascidos vivos, a mais baixa de sua história, o que posiciona o país como melhor no lugar da América quanto a esse indicador, afirmou nesta segunda-feira (3) o jornal oficial Granma.
"A taxa alcançada em 2010 - sem precedentes em Cuba - é a confirmação de um colossal esforço de um país pobre e criminalmente bloqueado (pelo embargo dos Estados Unidos), que conseguiu reduzir a mortalidade infantil", diz o jornal na primeira página.
A taxa de mortalidade infantil em Cuba, em 2009, registrou 4,8 por 1.000 nascidos vivos, segundo os dados oficiais. Informes do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) situam Cuba com taxas de mortalidade semelhantes às do Canadá, numa situação melhor que a dos Estados Unidos.
Em 2010, foram registrados 127.710 nascimentos na Ilha - de 11,2 milhões de habitantes -, uma diminuição da natalidade de 2.326 na comparação com 2009. Cuba dedica mais de 60% de seu orçamento à educação e à saúde - que são gratuitos desde a vitória da revolução de 1959.
Fonte: G1
Entrevista com Mumia Abu-Jamal: “Sou um jornalista fora da lei”
In EUA, In Justiçasegunda-feira, 6 de setembro de 2010
[O jornalista Mumia Abu-Jamal continua preso no corredor da morte há quase 30 anos. Em 29 de agosto de 2010, a representante dos Repórteres sem Fronteiras em Washington DC, Clothilde Le Coz, o entrevistou no locutório número 17 da prisão da Pensilvânia, em Waynesburg, Condado de Greene.] Pergunta > Como jornalista preso, de que tratam suas últimas observações e investigações?
Mumia Abu-Jamal < A população prisional estadunidense é a mais importante no mundo. Este ano, pela primeira vez em 38 anos, se reduziu. Algumas prisões como na Califórnia ou Michigan aceitam menos presos dado que estão super povoadas. Os financiamentos dos Estados são limitados e se libera alguns presos em função da situação econômica. Nos Estados Unidos, as prisões são grandes e o número de presos é imenso.
É impressionante ver quanto dinheiro o governo estadunidense gasta com tudo isto e até que ponto somos invisíveis. Ninguém o sabe. A maioria da população não se interessa pelo tema. Quando ocorre qualquer drama na prisão, alguns jornalistas dizem e acreditam que sabem de quem estão falando. Mas não é fiel a realidade: é puro sensacionalismo. Podem ser encontrados bons artigos, mas não refletem o que ocorre realmente. O que escrevo é o que tenho visto com meus próprios olhos e o que tem me sido dito. É verídico.
Meus artigos falam da realidade. Fundamentalmente, tratam todos do corredor da morte e da prisão. Eu gostaria que não fosse assim. Faz um ano e meio que estão ocorrendo uma série de suicídios entre os condenados a morte. Dei a informação com exclusividade sobre um suicídio porque ocorreu em meu bloco. Mas segue sendo invisível. Necessito escrever. Há milhões de histórias para contar e personagens excepcionais aqui. Entre as que decidi contar, elejo as mais importantes, comovedoras, frágeis… Decido escrevê-las, mas deve-se ter certa responsabilidade quando se conta este tipo de histórias. Espero que possam mudar o curso das coisas para as pessoas das quais eu falo.
Pergunta > Acredita que o fato de ser jornalista tem influenciado o curso de seu caso?
Mumia < Ser “A Voz dos sem voz” influiu de forma considerável. Na realidade, esta expressão foi tirada de um artigo do Philadelphia Inquirer publicado depois de minha detenção em 1981. Quando era adolescente, era um jornalista radical que trabalhava para a edição nacional do jornal dos Black Panthers. O FBI vigiava minhas publicações desde que tinha 14 anos. Ser jornalista foi meu primeiro trabalho. Sou muito mais famoso que outros detidos nos Estados Unidos pelo que escrevo. Se a situação fosse distinta, o tribunal federal de apelações quem sabe não haveria criado uma lei especial que influísse diretamente sobre minha condenação.
A maioria dos homens e das mulheres que se encontram no corredor da morte não são famosos. O fato de que siga escrevendo deve de ser algo que os juízes levaram em consideração e pelo qual mudaram a lei para que não me pudessem julgar novamente. Creio que pensavam: “Tu és um falador, não terás outro julgamento”. Se espera algo mais de um tribunal federal. E agora, por culpa de meu caso, outros doze podem ser prejudicados.
Pergunta > O que pensas da cobertura midiática de seu caso?
Mumia < Um dia li que já não estava no corredor da morte. Enquanto o lia, estava sentado aqui. Não saí nunca deste corredor, nem um segundo. Como sou do mesmo âmbito, muitos jornalistas não queriam cobrir meu caso por medo de que os criticassem. Tinham que se enfrentar das críticas segundo as que haviam sido parciais e às vezes seus redatores chefes os proibiam de cobrir o caso. Desde o princípio do mesmo, aos mais suscetíveis de cobri-lo, foi se proibido de fazê-lo. A maioria dos jornalistas com os que trabalhei já não exercem a profissão. Estes estão aposentados e ninguém os dá a mínima importância. Mas a imprensa teria que ter certa influência neste assunto. Milhões de pessoas viram o que ocorreu na prisão de Abu Ghraib. Seu diretor, que sorria nas fotos que foram publicadas, trabalhava aqui antes de ir para lá.
No corredor da morte, existem indivíduos sem nenhuma qualificação que podem decidir sobre a vida ou a morte de um detido. Por não sei que motivo, tem o poder de decidir a seu bel prazer se alguém come ou não. E ninguém questiona este poder. Há regras informais. Esses indivíduos podem converter a vida de alguém em um inferno com um simples gesto. Quando escolho as histórias que vou contar, não me falta inspiração nunca. Para um escritor, este é um ambiente rico. Não importa o que dizem meus detratores, sou jornalista. Este país seria muito pior sem jornalistas. Mas para muitos deles, sou um jornalista fora da lei. Antes da prisão, quando trabalhava para várias emissoras de rádio, conheci gente que vinha de todas as partes e apesar dos conflitos com alguns redatores chefes, exercia a profissão mais bonita.
Pergunta > O apoio que lhe tem sido dado na Europa é diferente do que tem nos Estados Unidos. Como explicas e acreditas que a mobilização internacional possa seguir te ajudando?
Mumia < Sim, segue sendo útil. No que diz respeito à pena de morte, a mobilização européia pode ter um impacto nos Estados Unidos. Os países estrangeiros, Europa em particular, estão marcados por uma história peculiar quanto a repressão. Sabem mais profundamente eles o que é a prisão. Sabem o que são a prisão, o corredor da morte e os campos de concentração. Nos Estados Unidos, pouca gente viveu esta experiência. Explica como as diferentes culturas aprendem o mundo. Na Europa, a idéia da pena de morte é um anátema.
O 11 de setembro de 2001 mudou muitas coisas nos Estados Unidos. Os opositores ao poder, os que discutiam sua legitimidade já não tem mais importância. Também mudou a imprensa. O que era aceitável chegou a ser inadmissível. Creio que o 11 de setembro modificou as formas de pensar na opinião pública e também os limites de tolerância dos meios de comunicação. Por exemplo, quando estavam ocorrendo os fatos do 11 de setembro em Manhattan e em Washington DC, a prisão fechou durante o dia inteiro aqui, na Pensilvânia. E estávamos totalmente isolados.
Pergunta > Para obter apoio, seria útil ter uma foto sua, atualmente, neste corredor da morte. O que você acha?
Mumia < Ter uma imagem pública só ajuda em parte. A essência de uma imagem é a propaganda. Assim que as fotos não são tão importantes. O que conta é a personalidade. E faço tudo o que posso. Em 1986, as autoridades penitenciarias confiscaram os gravadores dos jornalistas e só podiam ter um papel e uma caneta na mão. Agora que um artigo é o único vetor para lhe dar algum sentido à situação, o seu autor pode convertê-lo em um monstro ou em um modelo.
Pergunta > Se a Corte Suprema aceitar em lhe conceder um novo julgamento, só se revisaria sua pena e não sua condenação. Como imagina o fato de seguir em prisão perpétua se não lhe executarem?
Mumia < Na Pensilvânia, a prisão perpétua é uma execução em fogo lento. Segundo a lei do Estado, existem três graus de assassinatos. O primeiro se castiga com prisão perpétua ou pena de morte. O segundo e o terceiro grau com prisão perpétua. Não se sai daqui. E nesta prisão, temos a taxa de condenação juvenil à prisão perpétua mais elevada dos Estados Unidos. Mas eu gostaria de acrescentar que na Filadélfia, ocorreram dois casos na mesma época que o meu nos quais as pessoas foram julgadas pelo assassinato de um policial. A do primeiro caso foi absolvida. A segunda, ainda que tenha sido gravada com uma câmara de vigilância, não foi condenada a morte.
Pergunta > E como consegue “fugir” deste lugar?
Mumia < Eu escrevi sobre História, uma das minhas paixões. Eu gostaria muito de escrever a respeito de outras coisas. Meus últimos trabalhos tratam da guerra, mas também escrevo sobre cultura e música. Tenho um tempo interior que tento manter através da poesia e da percussão. Poucas coisas podem ser comparadas com o prazer que sinto aprendendo música. É como aprender um novo idioma. E constantemente eu me desafio a escrever em outro idioma! Uma professora de música vem aqui a cada semana e me ensina. Um mundo novo se oferece a mim e agora o conheço um pouco mais. A música é uma das coisas mais bonitas que o ser humano já criou. O melhor de nossas vidas.
• Para apoiar Mumia Abu-Jamal entrar em contato com Law Offices of Robert R. Bryan 2088 Union Street, Suite 4, San Francisco, CA 94123-4117 http://www.MumiaLegalDefense.org ou http://es.rsf.org/petition-mumia-abu-jamal,37071.html
O Time que preferiu Morrer a Perder
In democracia, In imperialismo, In Justiça, In luta popular, In Movimentos Sociais, In preconceito, In reflexãoterça-feira, 13 de julho de 2010

A história do futebol mundial inclui milhares de episódios emocionantes e comovedores, mas seguramente nenhum seja tão terrível como o protagonizado pelos jogadores do Dinamo de Kiev nos anos 40. Os jogadores jogaram um partida sabendo que se ganhassem seriam assassinados e, no entanto, decidiram ganhar. Na morte deram uma lição de coragem, de vida e honra, que não encontra, por seu dramatismo, outro caso similar no mundo.
Para compreender sua decisão, é necessário conhecer como chegaram a jogar aquela decisiva partida, e por que um simples encontro de futebol apresentou para eles o momento crucial de suas vidas.
Tudo começou em 19 de setembro de 1941, quando a cidade de Kiev (capital ucraniana) foi ocupada pelo exército nazista, e os homens de Hitler aplicaram um regime de castigo impiedoso e arrasaram com tudo. A cidade converteu-se num inferno controlado pelos nazistas, e durante os meses seguintes chegaram centenas de prisioneiros de guerra, que não tinham permissão para trabalhar nem viver nas casas, assim todos vagavam pelas ruas na mais absoluta indigência. Entre aqueles soldados doentes e desnutridos, estava Nikolai Trusevich, que tinha sido goleiro do Dinamo.
Josef Kordik, um padeiro alemão a quem os nazistas não perseguiam, precisamente por sua origem, era torcedor fanático do Dinamo. Num dia caminhava pela rua quando, surpreso, olhou um mendigo e de imediato se deu conta de que era seu ídolo: o gigante Trusevich.
Ainda que fosse ilegal, mediante artimanhas, o comerciante alemão enganou aos nazistas e contratou o goleiro para que trabalhasse em sua padaria. Sua ânsia por ajudá-lo foi valorizado pelo goleiro, que agradecia a possibilidade de se alimentar e dormir debaixo de um teto. Ao mesmo tempo, Kordik emocionava-se por ter feito amizade com a estrela de sua equipe.
O arqueiro percorreu o que restara da cidade devastada dia e noite, e entre feridos e mendigos foi descobrindo, um a um, a seus amigos do Dinamo. Kordik deu trabalho a todos, se esforçando para que ninguém descobrisse a manobra. Trusevich encontrou também alguns rivais do campeonato russo, três jogadores da Lokomotiv, e também os resgatou. Em poucas semanas, a padaria escondia entre seus empregados uma equipe completa.
Reunidos pelo padeiro, os jogadores não demoraram em dar o seguinte passo, e decidiram, alentados por seu protetor, voltar a jogar. Era, além de escapar dos nazistas, a única que bem sabiam fazer. Muitos tinham perdido suas famílias nas mãos do exército de Hitler, e o futebol era a última sombra mantida de suas vidas anteriores.
Como o Dinamo estava enclausurado e proibido, deram um novo nome para aquela equipe. Assim nasceu o FC Start, que através de contatos alemães começou a desafiar a equipes de soldados inimigos e seleções formadas no III Reich.
Em sete de junho de 1942, jogaram sua primeira partida. Apesar de estarem famintos e cansados por terem trabalhado toda a noite, venceram por 7 a 2. Seu seguinte rival foi a equipe de uma guarnição húngara, ganharam de 6 a 2. Depois meteram 11 gols numa equipa romena. A coisa ficou séria quando em 17 de julho enfrentaram uma equipe do exército alemão e golearam por 6 a 2. Muitos nazistas começaram a ficar chateados pela crescente fama do grupo de empregados da padaria e buscaram uma equipe melhor para ganhar deles. Trouxeram da Hungria o MSG com a missão de derrotá-los, mas o FC Start goleou mais uma vez por 5 a 1, e mais tarde, ganhou de 3 a 2 na revanche.
Depois dessa escandalosa queda do time de Hitler, os alemães descobriram a manobra do padeiro. Assim, de Berlim chegou uma ordem de acabar com todos eles, inclusive com o padeiro, mas os hierarcas nazistas locais não se contentaram com isso. Não queriam que a última imagem dos russos fosse uma vitória, porque acreditavam que se fossem simplesmente assassinados não fariam nada mais que perpetuar a derrota alemã.
Com um clima tremendo de pressão e ameaças por todas as partes, anunciou-se a revanche para 9 de agosto, no repleto estádio Zenit. Antes do jogo, um oficial da SS entrou no vestiário e disse em russo:
- "Vou ser o juiz do jogo, respeitem as regras e saúdem com o braço levantado", exigindo que eles fizessem a saudação nazista.
Os alemães (camisa branca e calção negro) marcaram o primeiro gol, mas o Start chegou ao intervalo do segundo tempo ganhando por 2 a 1.
Receberam novas visitas ao vestiário, desta vez com armas e advertências claras e concretas:
- "Se vocês ganharem, não sai ninguém vivo". Ameaçou um outro oficial da SS. Os jogadores ficaram com muito medo e até propuseram-se a não voltar para o segundo tempo. Mas pensaram em suas famílias, nos crimes que foram cometidos, na gente sofrida que nas arquibancadas gritava desesperadamente por eles e decidiram, sim, jogar.
Deram um verdadeiro baile nos nazistas. E no final da partida, quando ganhavam por 5 a 3, o atacante Klimenko ficou cara a cara com o arqueiro alemão. Deu lhe um drible deixando o coitado estatelado no chão e ao ficar em frente a trave, quando todos esperavam o gol, deu meia volta e chutou a bola para o centro do campo. Foi um gesto de desprezo, de deboche, de superioridade total. O estádio veio abaixo.
Como toda Kiev poderia a vir falar da façanha, os nazistas deixaram que saíssem do campo como se nada tivesse ocorrido. Inclusive o Start jogou dias depois e goleou o Rukh por 8 a 0. Mas o final já estava traçado: depois dessa última partida, a Gestapo visitou a padaria.
Ainda hoje, os possuidores de entradas daquela partida têm direito a um assento gratuito no estádio do Dinamo de Kiev. Nas escadarias do clube, custodiado em forma permanente, conserva-se atualmente um monumento que saúda e recorda àqueles heróis do FC Start, os indomáveis prisioneiros de guerra do Exército Vermelho aos quais ninguém pôde derrotar durante uma dezena de históricas partidas, entre 1941 e 1942.
Foram todos mortos entre torturas e fuzilamentos, mas há uma lembrança, uma fotografia que, para os torcedores do Dinamo, vale mais que todas as jóias em conjunto do Kremlin. Ali figuram os nomes dos jogadores.
Na Ucrânia, os jogadores do FC Start hoje são heróis da pátria e seu exemplo de coragem é ensinado nos colégios. No estádio Zenit uma placa diz "Aos jogadores que morreram com a cabeça levantada ante o invasor nazista".
O Mito da Caverna de Platão (Texto e Análise)
In democracia, In educação, In filosofia, In Justiça, In Pensadores, In politica, In reflexãosegunda-feira, 5 de julho de 2010

O mito da caverna, foi escrito pelo filósofo Platão, e encontra-se na obra intitulada A República (livro VII). Trata-se da exemplificação de como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona através da luz da verdade.
Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres (marionetes, fantoches) armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.
Glauco – Estou vendo.
Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.
Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.
Sócrates - Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?
Glauco - Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?
Sócrates - E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?
Glauco - Sem dúvida.
Sócrates - Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?
Glauco - É bem possível.
Sócrates - E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?
Glauco - Sim, por Zeus!
Sócrates - Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?
Glauco - Assim terá de ser.
Sócrates - Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?
Glauco - Muito mais verdadeiras.
Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?
Glauco - Com toda a certeza.
Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?
Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.
Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.
Glauco - Sem dúvida.
Sócrates - Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.
Glauco - Necessariamente.
Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.
Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.
Sócrates - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?
Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.
Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?
Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.
Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?
Glauco - Por certo que sim.
Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?
Glauco - Sem nenhuma dúvida.
Sócrates - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Deus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.
Glauco - Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.
(Platão, A República, v. II p. 105 a 109)
Análise: O Mito do Cidadão Padrão
Assim como séculos atrás Platão abriu os olhos da humanidade para o comodismo parasitário que assolava as massas, hoje, a tendência conformista continua a padronizar o homem de acordo com o interesse dos poderosos.
No mito, os prisioneiros, impossibilitados de se locomover vêem apenas sombras, e crêem que essas são a própria realidade, a vida de fato. Até que um deles se liberta e deixa a caverna a fim de ver o que se passa lá fora. Ao sair, permanece cego por instantes devido à claridade jamais antes vista. Depois de acostumar-se, o homem se depara com um novo mundo, uma realidade completamente diferente daquilo que ele considerava verdade, este homem por fim entende que seu antigo mundo dentro da caverna se resumia numa mentira perante a veracidade de tudo que estava do lado de fora. Disposto a libertar os outros prisioneiros, e fazê-los se livrar daqueles grilhões que os separavam da vida real, o homem volta para a caverna, porém a questão é: qual seria a reação dos aprisionados perante essa nova verdade jamais vista? Acreditariam no homem liberto? O matariam se esse tentasse liberta-los?
Ao compararmos essa parábola de Platão com nossa atual situação, notamos pontos em comum que mostram que o povo acredita somente naquilo que pode ver. O homem se prende ao senso comum, a imagens, à ilusão de fatos corruptíveis e sensíveis que seduzem a mente e afundam-no na ignorância. Esse povo, sensível apenas às suas crenças e às suas falsas morais são os prisioneiros na caverna. Por outro lado, o homem que se desprende da “cômoda” realidade da caverna e se aventura mundo afora, abre as portas de seu intelecto ao conhecimento filosófico e à educação, passando a avaliar os detalhes daquilo que o cerca de forma racional, imparcial, e justa. Esse homem, livre dos grilhões que o prendiam a aquelas mentiras agora questiona sua antiga realidade, sai do conformismo que o fazia acreditar apenas naquilo que podia ver, passa a valorizar e a buscar assiduamente a sabedoria e a compreensão.
Os poderosos de hoje assim como os de outrora se beneficiam da falta de conhecimento do povo para se colocarem num patamar superior. O cidadão padrão hoje é aquele que segue à risca o que lhe impõem, paga suas contas, seus impostos, compra produtos industrializados, vota apenas por ser obrigado, não questiona o sistema, não se importa com disparidades sociais, assiste televisão, segue tendências, concorda com cada palavra que é passada no noticiário e considera-se bem informado e culto por isso. Esse é o homem perfeito a ser feito de capacho, sem fazer a mínima idéia daquilo que realmente se passa, assim como os homens presos na caverna.
Contudo, um outro grupo de homens existe. Um grupo pequeno, idealista e questionador, diferentes daqueles padronizados, dispostos saber mais, a querer mais. A pedra no sapato da elite, aqueles que não se enganam com falsas promessas, políticas baratas de pão e circo. São estes os que questionam valores de impostos, os que se enojam com a ganância do mundo corporativo, os que entendem deveres cívicos, os que vêem as falhas no sistema, os que percebem a forte influência da mídia sobre as massas. Este é o homem que saiu da caverna e agora vê um novo mundo.
Sabendo da existência desses grupos, e do poder racional de cada um deles, cabe a cada um de nós, decidir se viveremos fechados dentro da caverna, ou se nos libertaremos para uma nova forma de compreensão.
Luccas M.
