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PAISAGEM DA JANELA - Joálisson Gusmão

sexta-feira, 15 de abril de 2011


PAISAGEM DA JANELA

Joálisson Gusmão // Janeiro, 03 de 2011


Hoje deparei-me com o vento a desanuviar o céu, quando, ao abrir a janela do meu quarto, contemplava o nascer do sol nos primeiros dias do ano, e percebi que, na vida, tudo é efêmero, como a brisa que balançava a cortina, ao entrar pela janela de vidro aberta.


Do alto, vi pessoas andando, indo e vindo, num vai-e-vem desenfreado, como se a vida se resumisse em pequenos passos que formam uma curta jornada. O pior é que assim é a realidade. Caminhar para a morte; à eternidade, para alguns, já outros... as reticências falam por si só.


Observei que nas ruas havia máquinas sustentadas por quatro circunferências, duas ou mais e questionei-me por que tantas invenções passavam por ali. Talvez as pessoas usem isso para fugir da realidade, para se protegerem, para se sentirem superiores. Afinal, somos todos iguais, vivendo de aparências, abolindo o interior.


Olhando o céu novamente, revoadas passavam sem destino contrastando a escuridão do horizonte poluído pelo bicho-eu, pelo bicho-você, pelo bicho-ser-humano.


Na travessia da rua, pais exortavam seus filhos no meio da faixa de pedestres, no momento em que o sinal vermelho alertava os passageiros. Mais uma vez começou a correria, a competição de quem chegava primeiro: se o homem, com suas duas pernas – uma ou nenhuma – ao outro lado da rua ou se os automóveis até o próximo sinal que já se fechara.


Após fazer toda esta análise, afastei-me da janela. Tudo isso foi observado em questão de segundos, porém atentei-me apenas quando comecei a escrever. Percebi que uma lágrima, ao banhar meus olhos, delineava meu rosto e atentei-me que tudo aquilo era minha vida: rápida, suja, conflituosa, apressada, maquiada e instantânea como a paisagem que, num estalar de dedos, se desfez.




Limites da Solidariedade.

sexta-feira, 18 de março de 2011


Obviamente a compaixão por um ser indefeso e irracional vale ABSOLUTAMENTE mais do que a defesa por um semelhante, marginalizado e miserável.


visto no treta

Precisamos de mais consumidores chatos e nervosos

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Acompanhei um amigo que foi fazer compras no supermercado. Estranhei a escolha da loja, pertencente a uma grande rede, pois havia sido nela, tempos atrás, que o mesmo fora destratado pela gerência ao tentar devolver um produto estragado. Ao indagá-lo que raios ele estava fazendo ali, respondeu com um misto de resignação e estranhamento: “mas é assim em todo o lugar, não faz diferença”.

Sei que dá preguiça brigar com uma grande empresa que insiste em não garantir o tratamento que lhe é de direito ou continue a empurrar produtos sem qualidade social e ambiental. Ainda mais quando constatamos a dificuldade de determinados grupos econômicos de escutar algo que não seja o tilintar das receitas batendo no seu cofre. Surdez seletiva, diga-se de passagem. Pois como diria Dona Rosa, poço de sabedoria do Vale do Jequitinhonha, tem coisa que é como o feijão, só funciona na pressão.

Pressão esta que não precisa ficar restrita a investigações da mídia ou às ações do Ministério Público. Lembro de casos como o de donas de casa que protestaram contra um grande magazine de roupas por conta da revelação de trabalho escravo em sua linha de produção. Isso assusta. E muito. Ainda mais em um país onde acredita-se que o andar de baixo seja gado dócil. Quando ocorre um estouro de boiada, ninguém sabe o que faz.

Sempre vi minha mãe reclamando como consumidora. Talvez tenha sido uma das melhores lições que ela me passou. Enquanto isso, tenho amigos que saem de perto quando vou questionar o gerente de uma loja por mais informação ou exigir a solução de um determinado problema. Dizem que sentem vergonha alheia, que “uma pessoa educada não compra esse tipo de briga”, que “brigar por dinheiro é o fim da picada”. E aí reside o problema: a sociedade gosta de criar bezerros para o abate e não seres autônomos. Criado como boi, boi será – a menos que seja conscientizado do contrário. Da mesma forma que nós homens, de um forma geral, somos educados para sermos machistas, também crescemos para sermos compradores e não cidadãos.

E o ceticismo na relação é a praxe. Uma pesquisa dos instituto Akatu e Ethos sobre consumo aponta que 44% das pessoas não acreditam no que as empresas divulgam em termos de responsabilidade social. Outros 32% dizem que isso depende de que empresa estamos falando.

Além do mais, nossa sociedade é de panos quentes, do deixa disso. Quem sai dessa toada, é taxado de maluco. É só dar uma espiada nos posts que trato dos protestos contra o aumento na tarifa do ônibus em São Paulo para ver a quantidade de comentários de pessoas que defendem com unhas e dentes o reajuste acima da inflação em São Paulo e chamam os manifestantes de baderneiros e vagabundos. Isso seria uma inversão de lógica cidadã se a lógica ou a cidadania fizessem sentido por aqui.

É sensacional o fato da maior parte da população brasileira acreditar em um ser sobrenatural que tudo vê, seja ele ou ela quem for, e não ter fé no potencial transformador de suas próprias ações ou na capacidade da sociedade de se organizar. Sei que as ações para despertar o nível de consciência de todos sobre esse potencial dificilmente são patrocinadas. Ou são ensinadas nas escolas.

Daí a importância de cada chato passar adiante essa chatice e não deixar seu amigo entrar no supermercado que o destratou ou pelo menos garantir que ele vá fazer uma reclamação sobre isso. Levar desaforo para casa não.


Fonte: Blog do Sakamoto

 

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