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Discurso ou Revólver - Facção Central

sábado, 19 de março de 2011


Uma música crítica, que mostra a verdadeira face do sistema. Um sistema que impõe brigas entre diferentes classes sociais, faz a classe média ter medo dos mais pobres, por considerá-los todos assaltantes e bandidos enquanto os ricos se divertem às custas de impostos e caos social. Uma canção que mostra a problemática que vem dos níveis sociais menos favorecidos, onde opção é igual a sorte (que só ocorre em mínimos casos), enquanto a grande maioria desfavorecida pela lei do dinheiro passa fome. Só há uma solução para a sociedade hierárquica em que vivemos, e é a revolução.




Letra:

A igualdade social é só em conto de fadas, felicidade é só em
Sonho, só em mágica. Acredito na palavra ou na metralhadora,
Revolução verbal ou aterrorizadora. Vamos queimar constituição
Com coquetel molotov, carro bomba no congresso, tic tac explode,
Suplicar pro gambé derrubando sua porta não bater na sua mulher
Não atirar nas suas costas.

Até quando comer resto, lavar banheiro abrir o boy no meio na
Ilusão de dinheiro, ser exterminado como judeu em Auschwitz,
Mostrar pra globo o que é viver no limite. a custa atlanta
Queimando na sua frente, a SS agora veste o cinza da PM, de
Braço cruzado é só miolo espalhado no chão, discurso ou
Revólver, tá na hora da revolução.

(2x)
Tá na hora de parar de mofar no presídio, de estar no necrotério
Com uma par de tiros, de ser o analfabeto comendo resto viciado que
O denarc manda pro inferno.

Fizeram da sua rua filial do vietnã, deram rifles pras crianças
Estupraram sua irmã, exilaram na favela o cidadão na teoria
Oprimido, censurado no país da democracia. te dão crack, fuzil,
Cachaça no buteco esse é o campo de concentração moderno.

Hitler, fhc, capitão do mato, bacharelo em carnificina, mestrado
Em holocausto, chega de bater palma tomando tiro, facada, de
Prato vazio, vendo o boy suar na sauna o sistema te quer no viaduto com água na boca com a garrafa cortada na mão esperando a
Kombi trazer sopa no chiqueiro do navio negreiro consertar na
Porta, morto pelo senhor do engenho com farda e pistola, que só
Em cabeça de pobre descarrega sua munição, discurso ou revólver
Ta na hora da revolução.

Prevejo o mercado saqueado bala de borracha, escudo do choque
Tomando pedrada, guerra civil em praça pública socorro professor
Com sangue no rosto, mordida de cachorro, sem teto, sem terra,
Sem prespectiva, sem estudo, sem emprego, sem comida, o pavil da
Dinamite ta aceso, qual será o preço pra eu ter os meus direitos.
Sequestrar, tirar, queimar pneu na avenida, invadir a fazenda
Improdutiva, só jogamo ovo por isso nada mudou, quem sabe o
Presidente na mira do atirador. Em são paulo 35 por dia chega,
Tolerância zero, ou cavar trincheira, serial killer do planalto
Continua em ação, discurso ou revólver ta na hora da revolução.

A favor do inimigo repressão desinformação, o domínio dos dois
Caminhos pra revolução. caminho um a voz do povo aqui não é a
Voz de deus, se tua casa é de caxote de feira problema seu,
Tanto faz sua filha no motel ganhando trocado, tanto faz seu
Filho com a doze matando vigia no assalto. se vier pro asfalto
Fazer passeata, aí o pm te mata, te faz engolir bandeira e
Faixa. caminho dois desconhecendo cenário político, onde jogar
Granada, quem é o nosso inimigo entendeu por que não tem, escola
Pra você toma uzi e me diz quem tem que morrer, não adianta ser
Milhões se não somos um, ação coletiva, objetivo comum, discurso
Ou revólver não interessa a opção sem união é impossível a
Revolução.

Limites da Solidariedade.

sexta-feira, 18 de março de 2011


Obviamente a compaixão por um ser indefeso e irracional vale ABSOLUTAMENTE mais do que a defesa por um semelhante, marginalizado e miserável.


visto no treta

Ilha das Flores

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Pequeno documentário que demonstra o processo de troca na sociedade de consumo, demonstrando a trajetória de um único produto: o tomate. A primeira vista, o filme pode parecer um pouco besta, mas com o rolar das cenas, percebe-se que se trata de muito mais do que um simples documentário didático. Através do filme, o diretor, demonstra a realidade da sociedade em que vivemos, onde dinheiro está acima da dignidade humana.




Ficha Técnica

Ilha das Flores
País/Ano de produção:- Brasil, 1989
Duração/Gênero:- 13 min., documentário
Disponível em vídeo (na fita "Curta com os Gaúchos")
Direção de Jorge Furtado
Roteiro de Jorge Furtado
Elenco:- Ciça Reckziegel, Gozei Kitajima, Takehijo Suzuki.
Narração de Paulo José.

Somos todos malabaristas de farol

domingo, 6 de fevereiro de 2011


“Essa é sua vida, e está terminando a cada minuto”, você acorda no carro, preso no trânsito, exposto ao calor intenso do litoral, esperando pacientemente pela troca de cores do semáforo. Olha pra esquerda e vê um garoto, de aproximados 10 anos de idade, sem camiseta, sem chinelos, apenas uma bermuda cobrindo seu corpo magro e moreno. Seu rosto não expressa nada, não transmite nada, apenas te olha, fixamente e vai a sua direção.


Com seus pequenos pés descalços ele anda até a frente do carro, suas mãos seguram malabares, com os quais ele tentará ali, naqueles poucos segundos ganhar uma moeda, uma nota, mas, provavelmente ganhará um “não tenho nada, meu filho”. Num gesto quase que mecânico, automático, de quem não faz aquilo por diversão, mas sim pela ânsia de sobreviver ele inicia os movimentos, uma peça de cada vez, até tê-las todas no ar, girando, equilibrando por um curto espaço de tempo, torcendo para que o motorista se impressione com sua habilidade, ou, o mais provável, dê-lhe dinheiro para que ele saia de lá logo.


Ele termina seu trabalho, se aproxima do carro, de vidros fechados que resguarda um refrescante ar condicionado, luxo para poucos, no meio daquele calor úmido e desgastante. Pelo vidro é possível ver seus olhos verdes, contrastantes com sua pele morena e seu cabelo enrolado, marcas profundas da miscigenação brasileira, a qual aquela criança foi exposta, fruto não só de heranças físicas, mas também herdeiro da pobreza e da desigualdade.


O vidro se abre, o motorista indaga o que o menino quer. Prontamente ele responde: “dinheiro!”. Ah, o dinheiro! A palavra mágica, a poderosa máquina de deturpar mentes, mover barreiras e gerar intrigas. Nada mais justo do que presentear o garoto com aquelas poucas moedas, troco de alguma compra que ficaram ali, no carro, exatamente para uma situação como essa. Num mundo onde tudo é lucro, tudo se compra, e nada é de graça, outra resposta vinda daquele menino seria no mínimo inusitada. As moedas passam da mão do motorista para aquela pequena mão, suja e áspera, marcada pelo trabalho, pela ausência de diversão.


De sua boca ressecada, ele pronuncia um agradecimento rápido e tímido, e eu, consigo olhar por uma última vez aqueles olhos marcantes, sinceros e tristes, antes que a pequena criança vire as costas e corra na direção de outros 5 jovens, trajados da mesma forma que ele, semelhantes fisicamente e também marcados como alvos da desigualdade.


É exatamente ai, nesse ponto, que me dou conta que somos todos malabaristas de farol, estamos todos seminus, expostos, vítimas do sistema que nos obriga a ser o que querem que sejamos. Nossos malabares são nossos amigos, nossos sonhos, nosso caráter, que estão em jogo, sendo apostados, podendo cair e se perder. Arriscamos pessoas que amamos, nossos objetivos pessoais, nossos sonhos de igualdade, nossa luta por justiça, nossa dignidade para ter dinheiro. Somos uma geração de caçadores de recompensa, sedentos por “ser alguém” dentro do mundo corporativo, por ser reconhecido profissionalmente num lixo de emprego que talvez nem gostemos, mas que provavelmente será necessário para nos adequar ao mundo capitalista e não nos tornar igual a aquele menino, e seu incerto trabalho nos semáforos das cidades. No final das contas, todos morreremos, e todas as nossas “realizações profissionais” serão apagadas da história, nem seu chefe, nem seu subordinado se lembrará de você, sua vida passageira termina e você se torna somente sombra e pó, nada mais.


Essa epifania serviu pra entender que somente realizações sociais, ativismo político, luta por mudanças fica marcado. As pessoas (as boas pessoas) se lembrarão de você por quem você foi e como agiu, e não pelo quanto de dinheiro tinha no bolso. A questão que fica é: Sendo malabaristas de farol, o que passa em nossas mentes, o que estamos dispostos a fazer se o motorista nos nega dinheiro? Até onde somos capazes de ir para ter o “precioso”.


“Você não é o seu trabalho. Você não é quanto dinheiro tem no banco. Você não é o carro que dirige. Você não é o conteúdo de sua carteira. Você não é nem o lixo das suas calças. Você é a merda ambulante do mundo”.

Não haverá vencedores

segunda-feira, 29 de novembro de 2010


MARCELO FREIXO



Pode parecer repetitivo, mas é isso: uma solução para a segurança pública do Rio terá de passar pela garantia dos direitos dos cidadãos da favela




Dezenas de jovens pobres, negros, armados de fuzis, marcham em fuga, pelo meio do mato. Não se trata de uma marcha revolucionária, como a cena poderia sugerir em outro tempo e lugar.


Eles estão com armas nas mãos e as cabeças vazias. Não defendem ideologia. Não disputam o Estado. Não há sequer expectativa de vida.


Só conhecem a barbárie. A maioria não concluiu o ensino fundamental e sabe que vai morrer ou ser presa.


As imagens aéreas na TV, em tempo real, são terríveis: exibem pessoas que tanto podem matar como se tornar cadáveres a qualquer hora. A cena ocorre após a chegada das forças policiais do Estado à Vila Cruzeiro e ao Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro.


O ideal seria uma rendição, mas isso é difícil de acontecer. O risco de um banho de sangue, sim, é real, porque prevalece na segurança pública a lógica da guerra. O Estado cumpre, assim, o seu papel tradicional. Mas, ao final, não costuma haver vencedores.


Esse modelo de enfrentamento não parece eficaz. Prova disso é que, não faz tanto tempo assim, nesta mesma gestão do governo estadual, em 2007, no próprio Complexo do Alemão, a polícia entrou e matou 19. E eis que, agora, a polícia vê a necessidade de entrar na mesma favela de novo.


Tem sido assim no Brasil há tempos. Essa lógica da guerra prevalece no Brasil desde Canudos. E nunca proporcionou segurança de fato. Novas crises virão. E novas mortes. Até quando? Não vai ser um Dia D como esse agora anunciado que vai garantir a paz. Essa analogia à data histórica da 2ª Guerra Mundial não passa de fraude midiática.


Essa crise se explica, em parte, por uma concepção do papel da polícia que envolve o confronto armado com os bandos do varejo das drogas. Isso nunca vai acabar com o tráfico. Este existe em todo lugar, no mundo inteiro. E quem leva drogas e armas às favelas?


É preciso patrulhar a baía de Guanabara, portos, fronteiras, aeroportos clandestinos. O lucrativo negócio das armas e drogas é máfia internacional. Ingenuidade acreditar que confrontos armados nas favelas podem acabar com o crime organizado. Ter a polícia que mais mata e que mais morre no mundo não resolve.


Falta vontade política para valorizar e preparar os policiais para enfrentar o crime onde o crime se organiza -onde há poder e dinheiro. E, na origem da crise, há ainda a desigualdade. É a miséria que se apresenta como pano de fundo no zoom das câmeras de TV. Mas são os homens armados em fuga e o aparato bélico do Estado os protagonistas do impressionante espetáculo, em narrativa estruturada pelo viés maniqueísta da eterna “guerra” entre o bem e o mal.


Como o “inimigo” mora na favela, são seus moradores que sofrem os efeitos colaterais da “guerra”, enquanto a crise parece não afetar tanto assim a vida na zona sul, onde a ação da polícia se traduziu no aumento do policiamento preventivo. A violência é desigual.


É preciso construir mais do que só a solução tópica de uma crise episódica. Nem nas UPPs se providenciou ainda algo além da ação policial. Falta saúde, creche, escola, assistência social, lazer.


O poder público não recolhe o lixo nas áreas em que a polícia é instrumento de apartheid. Pode parecer repetitivo, mas é isso: uma solução para a segurança pública terá de passar pela garantia dos direitos básicos dos cidadãos da favela.


Da população das favelas, 99% são pessoas honestas que saem todo dia para trabalhar na fábrica, na rua, na nossa casa, para produzir trabalho, arte e vida. E essa gente -com as suas comunidades tornadas em praças de “guerra”- não consegue exercer sequer o direito de dormir em paz.


Quem dera houvesse, como nas favelas, só 1% de criminosos nos parlamentos e no Judiciário…



MARCELO FREIXO, professor de história, deputado estadual (PSOL-RJ), é presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

retirado do blog do Juca

-

O texto de Marcelo nada mais é do que a realidade, nua e crua. E toda essa problemática nos volta para a incapacidade, ou a falta de vontade, do governo de resolver tudo isso. As dificuldades que essas pessoas passam hoje, a necessidade (de algumas) de se aliar às milícias a fim de sobreviver, e a aceitação da população das comunidades ao tráfico são reflexos diretos do sistema corrupto e sujo em que vivemos, reflexos de um passado de exploração e colonização que deixou profundas marcas sociais no Brasil.


Carta ao Prates (o ódio, versão RBS de S. C.)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Após os comentários preconceituosos, sórdidos e completamente tendenciosos feitos por Luiz Carlos Prates no Jornal do Almoço de Santa Catarina em 15/11/2010. Um professor, Plínio Ferreira Guimarães resolveu rebater o discurso infeliz feito por esse "jornalista" elitista e superficial.

O discurso de Prates e a carta em resposta de Plínio seguem abaixo:




Para ler a carta clique em "Leia Mais" abaixo:





Esse problema só nos mostra que ainda vivemos numa sociedade com sobras do pensamento escravista de outrora. Uma pessoa como Prates, com a influência que um jornalista exerce sobre o público, dizer tamanha bobagem acaba por alienar telespectadores que poderão partilhar da mesma infeliz e preconceituosa opinião que esse senhor elitista, conversador e preconceituoso.

Enquanto tivermos pessoas que pensam dessa forma, nunca alcançaremos a humanidade de fato, e continuaremos a presenciar injustiças e desigualdades provenientes daqueles que tem mais do que precisam ter.



Agradecimento a dica do Pedro.

Carta disponível em: ConversaAfiada


Como cultivar a exclusão social em São Paulo

domingo, 14 de novembro de 2010

Daqui a uma geração, quando estudarem a arquitetura de nossa época, além dos prédios em forma de melancia e dos espigões de aço e vidro azul, outra coisa, menos bonita por certo, chamará a atenção. Temos gasto muito tempo e inventividade para criar formas de excluir do convívio da cidade aqueles para os quais nunca abrimos as portas dos direitos econômicos – e isso não passará despercebido.

Reuni alguns desses métodos informais em forma de manual. Apesar de não estarem publicados e não seguirem padrões da ABNT, existem e fazem vítimas diariamente, ainda mais em noites frias e chuvosas como essas pelas quais estamos passando. Registrar isso serve para lembrar o quanto somos ridículos e ajudar o pessoal que vai nos julgar amanhã. Espero que não tenham dó ou piedade.

1) Áreas cobertas em viadutos, pontes, túneis ou quaisquer locais públicos que possam receber casas imaginárias do povo de rua devem ser preenchidas com concreto. A face superiora não deve ficar paralela à rua, mas com inclinação suficiente para que um corpo sem-teto nela estendido e prostrado de cansaço e sono role feito um pacote de carne velha até o chão.
1.1) Outra opção, caso seja impossível uma inclinação acentuada, é o uso de floreiras, cacos de vidro ou lanças de metal. É menos discreto, mas tem o mesmo resultado.

2) Prédios novos devem ser construídos sem marquises para impossibilitar o acúmulo de sem-teto em noites chuvosas.

2.1) Caso seja impossível por determinações estéticas do arquiteto, a alternativa é murar o edifício ou cercá-lo. A colocação de seguranças armados é outra possibilidade, caso haja recursos para tanto.

2.2) Em caso de prédios mais antigos, uma saída encontrada por um edifício na região central de São Paulo e que pode ser tomada como modelo é a colocação de uma mangueira furada no texto, emulando a função de sprinklers. Acionada de tempos em tempos, expulsa desocupados e usuários de drogas. Além disso, como deixa o chão da calçada constatemente molhado, espanta também possíveis moradores de rua que queiram tirar uma soneca por lá.

3) Bancos de praça devem receber estruturas que os separem em três assentos independentes. Apesar disso impossibilitar a vida de casais apaixonados ou de reencontros de amigos distantes, fará com que sem-teto não durmam nesses aparelhos públicos.

4) Em regiões com alta incidência de seres indesejáveis, recomenda-se o avanço de grades e muros para além do limite registrado na prefeitura, diminuindo ao máximo o tamanho da calçada. Como é uma questão de segurança, o fiscal pode “se fazer entender” da importância de manter a estrutura como está.

5) Cloro deve ser lançado nos locais de permanência de sem-teto, principalmente nas noites frias, para garantir que eles não façam suas necessidades básicas no local. Caso não seja suficiente, talvez seja necessária a utilização de produtos químicos mais fortes vendidos em lojas do ramo, como vem fazendo algumas lojas no Centro da cidade. A sugestão é o uso de um aspersor conforme o item 2.2, mas instalado no chão.

Já que não se encontra solução para um problema, encobre-se. É mais fácil que implantar políticas de moradia eficazes – como uma reforma urbana que pegue as centenas de milhares de imóveis fechados para especulação e destine a quem não tem nada. Ou repensar a política pública para usuários de drogas, hoje baseada em um tripé de punição, preconceito e exclusão e, portanto, ineficaz. Muitos vêem os dependentes químicos como lixo da sociedade e estorvo ao invés de entender que lá há um problema de saúde pública. As obras que estão revitalizando (sic) a região chamada de Cracolândia, têm expulsado os moradores da região – para outros locais, como a Barra Funda e Santa Cecília. Contanto que fiquem longe dos concertos da Sala São Paulo, do acervo do Museu da Língua Portuguesa e das exposições Estação Pinacoteca uó-te-mo.

Melhor tirar da vista do que aceitar que, se há pessoas que querem viver no espaço público por algum motivo, elas têm direito a isso. A cidade também é deles, por mais que doa ao senso estético ou moral de alguém. Ou crie pânico para quem acha que isso é uma afronta à segurança pública e aos bons costumes. Em vez disso, são enxotados ou mortos a pauladas (sem que ninguém nunca seja punido por isso) para limpar a urbe para os cidadãos de bem.

PS: Recado à turma que entalou um “tá com dó leva para casa” na garganta: cresçam.


Fonte: Blog do Sakamoto, Jornalista e Doutor em Ciência Política.

Como uma pessoa livre se torna escrava

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"Quando eu cheguei aqui, a coisa era muito diferente do que havia sido prometido."

Trabalhador resgatado da escravidão em fazenda de Eldorado dos Carajás, Pará

Nos últimos tempos, uma praga atingiu as fazendas de cacau onde Uexlei Pereira trabalhava no Sul da Bahia, deixando muita gente sem serviço. Aliciado por um "gato", saiu de sua cidade, Ibirapitanga, com a oferta de um bom salário, alimentação e condições dignas de alojamento. No Sul do Pará, Uexlei percebeu que havia sido enganado. Quando foi resgatado, recebia havia dois meses só a comida. Não tinha idéia de quanto devia ao gato, conhecido como Baiano, e nem quando iria receber. A sua história não é diferente da dos demais trabalhadores que fogem do desemprego para cair na rede da escravidão. Abaixo, estão detalhados oito passos que transformam um homem livre em um escravo, padrão que pode sofrer variações dependendo da situação e do local, mas que se repete com freqüência.


1) Ao ouvir rumores de que existe serviço farto em fazendas, mesmo em terras distantes, o trabalhador ruma para esses locais. O Tocantins e a região Nordeste, tendo à frente os Estados do Maranhão e Piauí, são grandes fornecedores de mão-de-obra.

2) Alguns vão espontaneamente. Outros são aliciados por "gatos" (contratadores de mão-de-obra a serviço do fazendeiro). Estes, muitas vezes, vêm buscá-los de ônibus, de caminhão - o velho pau-de-arara - ou, para fugir da fiscalização da Polícia Rodoviária Federal, pagam passagens para os trabalhadores em ônibus ou trens de linha.

3) O destino principal é a região de expansão agrícola, onde a floresta amazônica tomba diariamente para dar lugar a pastos e plantações. Os estados do Pará e Mato Grosso são os campeões em resgates de trabalhadores pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

4) Há os "peões do trecho" que deixaram sua terra um dia e, sem residência fixa, vão de trecho em trecho, de um canto a outro em busca de trabalho. Nos chamados "hotéis peoneiros", onde se hospedam à espera de serviço, são encontrados pelos gatos, que "compram" suas dívidas e os levam às fazendas. A partir daí, os peões tornam-se seus devedores e devem trabalhar para abater o saldo. Alguns seguem contrariados, por estarem sendo negociados. Mas há os que vão felizes, pois acreditam ter conseguido um emprego que possibilitará honrar seus compromissos e ganhar dinheiro.

5) Já na chegada, o peão vê que a realidade é bem diferente. A dívida que tem por conta do transporte aumentará em um ritmo crescente, uma vez que o material de trabalho pessoal, como botas, é comprado na cantina do próprio gato, do dono da fazenda ou de alguém indicado por eles. Os gastos com refeições, remédios, pilhas ou cigarros vão sendo anotados em um "caderninho", e o que é cobrado por um produto dificilmente será o seu preço real. Um par de chinelos pode custar o triplo. Além disso, é costume do gato não informar o montante, só anotar. Uma foice, que é um instrumento de trabalho e, portanto, deveria ser fornecido gratuitamente pelo empregador, já foi comprada por um peão por R$ 12,00 do gato. O equipamento mínimo de segurança também não costuma existir.

6) Após meses de serviço, o trabalhador não vê nada de dinheiro. Sob a promessa de que vai receber tudo no final, ele continua a derrubar a mata, aplicar veneno, erguer cercas, catar raízes e outras atividades agropecuárias, sempre em situações degradantes e insalubres. Cobra-se pelo uso de alojamentos sem condições de higiene.

7) No dia do pagamento, a dívida do trabalhador é maior do que o total que ele teria a receber. O acordo verbal com o gato também costuma ser quebrado, e o peão ganha um valor bem menor que o combinado inicialmente. Ao final, quem trabalhou meses sem receber nada acaba devedor do gato e do dono da fazenda e tem de continuar a suar para quitar a dívida. Ameaças psicológicas, força física e armas também podem ser usadas para mantê-lo no serviço.


ONU: Economia verde gera emprego e reduz pobreza

terça-feira, 14 de setembro de 2010


O principal desafio do mundo hoje é conciliar desenvolvimento com preservação. Para tanto, a chamada Economia Verde, ou de baixo carbono, é considerada por muitos como o único caminho possível de crescer e elevar a qualidade de vida de populações menos privilegiadas, sem exaurir os recursos naturais do planeta.

Pavan Sukhdev, assessor especial do Programa das Nações Unidas pelo Meio Ambiente (PNUMA), é um dos que compartilham dessa visão. Nesta segunda-feira (13), ele participou do evento "Economia Verde: da Intenção à Ação", promovido pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, que pretendeu ser uma prévia da1ª Bolsa Internacional de Negócios da Economia Verde.

A demanda por serviços ambientais praticamente dobrou nos últimos 40 anos e já excede a capacidade de regeneração da Terra. A humanidade, diz Pavan, está consumindo 30% a mais do que o planeta consegue fornecer anualmente. "Isso não é desenvolvimento sustentável", afirmou.

Além de se colocar como um contraponto às mudanças climáticas e ao aquecimento global, a economia verde é, segundo ele, o principal caminho para garantir o desenvolvimento sustentável, reduzir a pobreza no mundo e gerar empregos. Ele citou como exemplo o seu país de origem, a Índia, que investiu pesadamente nos último anos na criação de 'green jobs' com o objetivo de melhorar a qualidade de vida da população.

"Para nós, a economia verde não é uma alternativa para a erradicação da pobreza, mas a única solução possível. Diferentemente da economia marrom [tradicional], intensamente focada no capital, a nova economia foca-se no desenvolvimento sustentável, com geração de empregos que melhorem a qualidade de vida do trabalhador", disse. "Não se trata apenas de ganhar dinheiro, mas de ter um trabalho decente".

Segundo o assessor do PNUMA, cada vez mais aumentam os investimentos públicos nos setores verdes e na geração de empregos. "O setor de energias renováveis, por exemplo, já emprega 2 milhões e 332 mil pessoas em todo o mundo, contra os 2 milhões de postos ocupados no setor de petróleo e gás", disse.

Saindo da esfera de produção energética, Pavan Suchdev destacou a importância de adaptação da agricultura aos mecanismo de produção sustentável, principalmente em países com alto nível de dependência da atividade no campo. Em Uganda, onde 80% da população tem na agricultura sua principal fonte de renda, o PNUMA tem trabalhado junto com o governo local para a adoção de técnicas de cultivo orgânico, que reduzem entre 48% e 68% as emissões de CO2.

Apesar das perspectivas positivas, ainda são muitos os obstáculos no caminho que leva à economia verde. "Faltam subsídios, leis, impostos e envolvimento do setor financeiro e do mercado", disse Pavan. "Para tornar bem sucedida essa nova economia, são necessários regulamentos por parte Estado e, principalmente, o comprometimento e a cobrança da sociedade civil", concluiu.

Leia mais: SP vai sediar 1ª Bolsa Internacional de Negócios da Economia Verde


Fonte: Portal Exame

O crack e o leite das crianças em São Paulo

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Na Prefeitura de São Paulo, desde 2004 existe um projeto urbanístico (“Projeto Nova Luz”), que, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), prevê o investimento de fábulas orçamentárias em obras na região do Parque da Luz, no Centro Histórico da cidade de São Paulo, com um total orçado (e liberado pelo BID) em torno de 100 milhões de dólares. Até hoje, uma ínfima quantidade desses recursos foram aplicados. Não tivesse transformado a revitalização num espetáculo hollywoodiano, a então gestão Serra-Kassab não passaria tamanha vergonha. O artigo é de João Paulo Cechinel Souza.

A dependência ao crack recentemente ganhou notoriedade junto às autoridades brasileiras, principalmente, em se tratando do período eleitoral, daqueles aspirantes ao cargo presidencial. Diversas estratégias foram e vêm sendo anunciadas nos últimos meses e anos, incluindo ampliação do número de leitos para dependentes químicos e o respectivo aumento de verbas para prevenção e tratamento de indivíduos nessa condição.

Na Prefeitura de São Paulo, desde 2004 existe um projeto urbanístico (“Projeto Nova Luz”), que, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), prevê o investimento de fábulas orçamentárias em obras na região do Parque da Luz, no Centro Histórico da cidade de São Paulo, com um total orçado (e liberado pelo BID) em torno de 100 milhões de dólares. Para quem não conhece ou não sabe, foi no Parque da Luz que teve início o consumo de crack na cidade, ainda na década de 90, caracterizando posteriormente a chamada “Cracolândia”, devido ao grande número de dependentes que até hoje circulam por aquelas imediações.

Contudo, do total aprovado pelo BID para a recuperação da região, apenas 4% foram efetivamente utilizados. Sobre o restante, até hoje incidem multas e taxas diversas, como ocorre com todos os empréstimos do BID – que deverão ser debitados na conta da Prefeitura Municipal em algum momento.

Não tivesse transformado a revitalização num espetáculo hollywoodiano, a então gestão Serra-Kassab não passaria tamanha vergonha. Admitindo publicamente que não pretendiam dar seguimento às iniciativas de revitalização com inclusão social levadas a cabo pela gestão anterior (Marta Suplicy), teve início a “primeira fase” do projeto: a repressão policial – que durou três anos. Somente com o forte estímulo da administração estadual, já sob comando de Serra, algumas reformas isoladas foram realizadas, num segundo momento do projeto.

Mesmo se pretendendo (ou parecendo) bem-intencionado, um projeto dessa magnitude urbanística e, principalmente, humana, carente desde a base de elementos para participação popular e coletiva na tomada de decisões acerca das obras, sem contar a absoluta falta de perspectiva de integração dos habitantes (fixos ou não) a projetos de inclusão social, somente poderia ter o desfecho que teve: o “efeito bilhar”. Os grupamentos humanos que por ali existiam à época do início da repressão policial, assustados pela truculência institucional e agredidos em sua integridade física e psíquica pelo crack, acabaram por se dividir em subgrupos menores e espalharam o problema por toda a cidade.

Disseminado o problema e constatado o consumo dessa substância junto aos extratos sociais mais abastados, Serra planejou então formar as unidades para internação e tratamento dos dependentes químicos – e utiliza isso, hoje, em sua campanha eleitoral, como estratégia universal e única para quaisquer tipos de dependências (química ou não). Infelizmente, a única clínica desse tipo inaugurada até hoje possui dificuldades imensas para receber cidadãos encaminhados por outras localidades.

Afora isso, essa ideia completa a constatação maior, fruto de observação macroestrutural, de que as políticas públicas do Sistema Único de Saúde, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), implantadas no resto do país, ganham características e nomes diferentes em São Paulo, não oferecem as melhorias esperadas (e constatadas em outros Estados) e ainda são brindadas com os vícios administrativos malufistas da época do Plano de Atendimento à Saúde (PAS).

Centrados em sua malfadada campanha eleitoral e em promessas alheias aos anseios do povo, Serra e o demotucanato paulista se esqueceram de garantir o básico aos cidadãos que lamentavelmente dependem do atendimento público à saúde no Estado e no Município de São Paulo. Tivessem dado alguma importância real às vidas dos indivíduos sob sua tutela, entre outros problemas já levantados em artigos anteriores (“O sucateamento da saúde pública em São Paulo” – primeira parte ; esegunda parte) não teriam deixado acabar o leite artificial fornecido aos filhos de mães portadoras do HIV há quase dois meses, numa ação que passa longe da má administração – e se caracteriza, isso sim, como atitude criminosa e hedionda.

Entretanto, para o paraíso midiático do demotucanato – ou Partido da Imprensa Golpista, PiG, segundo Paulo Henrique Amorim – talvez seja mais importante fingir que tais questões simplesmente não existem e trabalhar para que os eleitores também finjam nunca terem passado ou presenciado aberrações como as apresentadas neste e nos outros artigos citados. Na antevéspera da eleição, tenham certeza, o PiG encontrará detalhes do pagamento, no valor de 30 moedas de prata, efetuado por Dilma para que Judas denunciasse Jesus. Isso sim terá valor – e audiência.

(*) João Paulo Cechinel Souza – médico especialista em Clínica Médica, residente em Infectologia no Instituto de Infectologia Emílio Ribas (São Paulo) e colaborador da Carta Maior



O mapa da pobreza infantil na América Latina

sábado, 10 de julho de 2010


Estudo realizado em conjunto pela Cepal e pela Unicef traça o mapa da pobreza na América Latina. Segundo estudo, cerca de 80 milhões de crianças vivem em situação de pobreza na região. Deste total, cerca de 32 milhões vivem em situação de pobreza extrema. Costa Rica, Uruguai e Argentina apresentam os melhores índices. Os índices mais graves de pobreza infantil aparecem em El Salvador, Guatemala e Bolívia. Cuba não foi avaliada no informe das agências da ONU.

Na América Latina há 80 milhões de crianças que vivem em situação de pobreza. Desse total, 17,9% vivem em condições de pobreza extrema (32 milhões). Os dados são de um informe elaborado pela Comissão Econômica para América Latina (Cepal) e Unicef, cujas conclusões preliminares acabam de ser apresentadas. Nele se estabelece que dos 18 países da região, a Argentina ocupa o terceiro lugar em qualidade de vida das crianças pobres, atrás do Uruguai e da Costa Rica. Mais abaixo aparecem Colômbia, Brasil, México, Perú, Bolívia e Honduras, entre outros. O critério utilizado não é só a renda, mas também as possibilidades de acesso aos serviços básicos como educação, saúde, água potável, alimentação e informação.

“Os governos que melhoraram muito foram o Uruguai, a Costa Rica e a Argentina. Nossos indicadores dão conta de políticas de longo prazo. Se as crianças têm um acesso melhor à saúde, se adoecem menos, poderão alimentar-se melhor e terão mais oportunidades de aprender na sua passagem pela escola, disse ao Página/12 Enrique Delamónica, assessor de política social e econômica da Unicef.

Em 2005 a Unicef estabeleceu uma definição de pobreza: “As crianças pobres são aquelas que sofrem uma privação de recursos materiais, espirituais e emocionais necessários para sobreviver, desenvolverem-se e prosperarem”. Esta abordagem da pobreza infantil permite entender o fenômeno de maneira integral, não só limitado à questão da renda.

A Cepal e a Unicef elaboraram o informe: “A pobreza infantil: um desafio prioritário” - cujo resultado final será publicado em aproximadamente dois meses -, que mediu os níveis de pobreza das crianças da América Latina. Os melhores colocados foram Costa Rica, com 20,5% de sua população infantil na pobreza; o Uruguai (23,9%) e em terceiro, a Argentina (28,7). Embora os números sejam altos, contrastam com os resultados de outros países da região. Encabeçando os piores resultados estão: El Salvador (86,8%), Guatemala (79,7%), Bolivia (77%), Perú (73%), México (40%) e Colômbia (38,5%). Cuba não aparece no informe.

O trabalho elaborado pelos dois organismos pretende oferecer ferramentas para que os países possam medir a pobreza corretamente. Por isso, destacam que não se pode levar em conta apenas os indicadores salariais e os dados da inflação e o custo da cesta básica, como o ocorre na Argentina, com a medição do Indec. As autoridades do organismo estão trabalhando para modificar o indicador de pobreza por esse mesmo motivo. O índice atual, que toma como registro as linhas de pobreza e indigência, foi estabelecido na década de 90, sob a influência de Domingo Cavallo.

“Os pais podem ter renda abaixo da linha da pobreza, mas graças às políticas públicas voltadas à educação, saúde, alimentação, as crianças não sofrem uma condição de pobreza infantil, entendida como a perda de direitos essenciais”, explicou Delamónica.

Os dados para este informe foram recolhidos entre 2006 e 2007. Apesar dessa aparente desatualização, os técnicos da Unicef e da Cepal explicaram a este jornal que as pesquisas que tomam serviços básicos como indicadores mudam em períodos maiores que três anos, enquanto que os indicadores que tomam somente a renda são atualizados mensalmente. Esta não é uma diferença menor, sobretudo num país onde as estatísticas públicas estão sob suspeita e qualquer consultoria diz ter a capacidade de medir níveis reais de pobreza.

Por exemplo, o diretor da Red Solidaria, Juan Carr, assinalou nos últimos dias que, embora não questione a existência da pobreza, reconhece que “a fome segue diminuindo no país desde há oito anos, graças à ação do Estado e a outras instituições”.

“A existência de privações severas ou moderadas que afetem à população infantil são superáveis a partir de uma maior intervenção direta dos Estados – em saúde e educação – e indireta, mediante o aumento da renda das famílias, seja por pela criação de emprego ou pelas políticas de transferência de renda (embora o informe não deixe claro, este seria o caso da Asignación Universal por Hijo). O investimento social e o gasto público para a infância não só devem incrementar-se para melhorar as condições de vida das crianças, mas também para promover um desenvolvimento mais inclusive e igualitário”, destaca o informe Cepal-Unicef.

Tradução: Katarina Peixoto

fonte: CartaMaior

De poucos para poucos

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A sociedade brasileira é uma das mais injustas e desiguais do planeta. Em termos estatísticos perdemos para poucos. Somos um povo trabalhador. Produzimos muitas riquezas. No período de 1930-1980, fomos a economia que mais cresceu, em média. Vivemos num território que, provavelmente, seja o mais pródigo em riquezas naturais do mundo. Temos todos os climas e biomas. Estamos construindo uma civilização caracterizada pela mescla de culturas e povos originários da Ásia, Europa e África, com os nativos deste território. Não há sociedade similar que tenha se constituído com tamanha diversidade.

Como diz a piada sobre a criação do universo, até os anjos reclamaram dos privilégios que teríamos recebido. Aos quais, Deus teria justificado que, em troca teríamos os piores governos do planeta... E parece que os desígnios divinos se realizaram, porque nesses 500 anos de Brasil foram raros os períodos de democracia e de governos comprometidos com os interesses da população.
E com tantas riquezas naturais e um povo tão batalhador nossa sociedade ainda sofre muitas mazelas inaceitáveis.

Nada justifica a elevada concentração da riqueza, da propriedade dos bens e da renda, que beneficiam apenas os 10% mais ricos. E essa concentração de renda e riqueza continua crescendo, como parte da lógica perversa do sistema econômico. O governo Lula contribuiu para distribuir melhor a renda entre os que vivem do trabalho. Mas, na distribuição da riqueza total produzida na sociedade, o capital aumenta a cada dia sua parcela em detrimento dos rendimentos do trabalho, que nunca estiveram tão baixos, como agora. Melhoramos muito as oportunidades de emprego, em relação ao período neoliberal, mas ainda apenas 50% dos trabalhadores têm carteira assinada e seus direitos sociais e previdenciários garantidos.

Nossa economia é cada vez mais dependente do exterior e do capital financeiro. O Estado brasileiro transformou-se no acumulador da poupança nacional e repassa todos os anos mais de 250 bilhões de reais (25% de toda a receita) na forma de juros ao sistema financeiro, com as inaceitáveis teses de superávit primário, que nenhum país desenvolvido pratica. O povão compra tudo a prestação, iludindo-se com um poder de compra sem renda suficiente e paga duas vezes. Uma para a loja e outra para o sistema financeiro, com as maiores taxas de juro do mundo, que em media chegam a 48% ao ano. O capital estrangeiro vem aqui nos explorar e reenvia seus lucros livremente.

Temos uma dependência tecnológica. Investimos uma ninharia em pesquisa e tecnologia. O capital internacional controla nossas riquezas naturais: minérios (basta saber que 52% dos acionistas da poderosa Vale, agora moram no exterior), água, hidrelétricas, petróleo (ao redor de 30% dos acionistas da Petrobras são estrangeiros) e ultimamente até o setor sucroalcooleiro se desnacionalizou, em 33%, em apenas três anos.

É mais importante, até por administrar maior volume de recursos, hoje, ser presidente da espanhola Telefónica do que ser prefeito da cidade de São Paulo. Nossa burguesia, como advertira o saudoso Florestan Fernandes, abandonou há tempos a proposta de um projeto de desenvolvimento nacional, mesmo capitalista. É uma lúmpen-burguesia, que se contenta em superexplorar seu povo para repartir as taxas do lucro com o capital internacional. Agora cada vez mais controlado pelo capital financeiro e pelas grandes corporações globalizadas.

Os índices de concentração da propriedade da terra, um bem da natureza que deveria estar a serviço de todos, nunca estiveram tão concentrados. O último Censo Agropecuário do IBGE revelou que a concentração fundiária em 2006 é maior do que em 1920, quando havíamos recém-saído da escravidão e que se praticava quase um monopólio da propriedade da terra. A produção agrícola está cada vez mais baseada na monocultura, no uso intensivo de venenos e na expulsão da mão de obra do campo. Nos transformamos no maior consumidor mundial de venenos agrícolas, que destroem a natureza, desequilibram o meio ambiente e contaminam os alimentos que todos comemos.

As grandes cidades se transformaram em conglomerados humanos, onde os problemas só aumentam em termos de transporte público, habitação e meio ambiente. Temos um déficit de mais de 10 milhões de moradias. Ou seja, temos 10 milhões de famílias (!!!) que vivem em condições subumanas, insalubres, ainda penduradas em morros e mangues, como denunciava nosso querido Lupicinio Rodrigues. Por causa disso, somos, talvez, um dos poucos países onde se morre “de chuva!” E não é por falta de cimento, areia, tijolo ou pedreiros. O programa Minha Casa Minha Vida, que previa a construção de 1 milhão de moradias, esgotou as inscrições em apenas uma semana.

O transporte público é uma vergonha. E a imprensa, porta-voz dos interesses das empresas automobilísticas, orgulha-se dos recordes de vendas. A média de tempo perdido para ir ao trabalho aumenta a cada dia, em condições cada vez piores. Com um custo social impressionante. O transporte individual e poluente como temos só beneficia meia dúzia de empresas transnacionais, não o povo!

Na educação, vivemos uma tragédia. Aumentamos as vagas para o ensino fundamental e secundário, alcançando quase a universalização. Mas a qualidade desse ensino é vergonhosa. Que o digam os analistas das provas de vestibulares, sobre o nível de conhecimento dos que querem entrar na universidade. E aí, apesar dos esforços inéditos do governo Lula, que quase duplicou as vagas, apenas 10% de nossa juventude pode ingressar no ensino superior.

Não há nenhuma razão para isso. Sociedades com economias mais pobres, como a Coreia do Sul, colocam 97% de sua juventude na universidade e formam mais de 200 mil engenheiros por ano. A Bolívia, economia mais pobre do continente, garante 65% de seus jovens na universidade. E nós? Quantos engenheiros e médicos formamos? Temos mais de 500 municípios sem médicos, até na Grande São Paulo. Há mais jovens negros brasileiros estudando Medicina em Cuba, pela generosidade daquele povo, do que em todas as faculdades do Brasil. Temos também uma dívida com a população mais pobre. Cerca de 16 milhões de trabalhadores adultos não sabem ler e escrever. E ninguém faz nada para ajudá-los. Precisamos urgente de uma campanha nacional, como sonhara Paulo Freire, uma verdadeira guerra cívica de ajuda aos nossos irmãos cegos das letras. Os programas atuais são ridículos.

Padecemos de outro mal, sempre escondido da opinião pública. A concentração da propriedade dos meios de comunicação. Meia dúzia de grupos econômicos controlam toda informação que circula nas televisões, revistas semanais e jornalões. Paulo Henrique Amorim, com toda a sua experiência, adverte que com três telefonemas se decide qual será a principal informação que todos os brasileiros terão de ler ou de ser “manipulados” na semana. Isto é uma vergonha! (que nunca foi denunciada nem pelo jornalista que tem raiva de garis...). A informação deixou de ser um direito público, como determina a Constituição, e passou a ter uma dupla face. De um lado, é fonte de lucro e enriquecimento abastecido por polpudas verbas do dinheiro público. E, de outro, a mídia transformou-se no grande partido de reprodução da ideologia da classe dominante insensível aos problemas do povo.

Sabe-se que as raízes de todos esses problemas são estruturais e do modelo econômico adotado. Primeiro, foi o modelo agroexportador no período colonial. Depois, ao longo do século XX, implantamos uma industrialização dependente do capital estrangeiro. E agora somos reféns do capital financeiro internacional.
Segundo, tivemos quase sempre governos servis, subalternos aos interesses econômicos estrangeiros. Mesmo o governo Lula conseguiu apenas em parte frear as políticas neoliberais e ajudou a distribuir o bolo entre os mais pobres. Mas, por sua composição de classe e partidos, não teve força suficiente para enfrentar os problemas estruturais da sociedade brasileira.

Esses problemas são graves e tendem a se agravar mais ainda. Nos movimentos sociais, acreditamos que eles serão resolvidos somente quando tivermos em nosso país uma conjugação de forças populares, que se mobilizem em aliança com um governo popular. E assim se façam as mudanças legislativas no poder público e, sobretudo, a mudança do modelo econômico, para construir de fato um projeto popular, ou seja, a serviço do povo no Brasil. Como sonhara Paulo Freire.

E, apesar da apatia e pasmaceira social nesse período de nossa história, não se iludam, o povo voltará a se mobilizar e a se organizar por mudanças estruturais.


Por João Pedro Stedile, ao Carta Capital




Crianças de rua são crianças?

sábado, 12 de junho de 2010



Por todo lugar que passamos, há crianças de rua, e mais, crianças de rua que trabalham, pedem esmolas, são os “homens da casa” podendo assim dizer. O analfabetismo, a pobreza, a violência, é reflexo, as crianças que não têm infância vivem uma infelicidade, deveriam estar na escola, mas aprendem na rua, se alimentam no chão, se mantêm da pura -bondade- das pessoas que estão à volta, e não o bastante é uma tarefa lucrativa para a família destes.

Talvez o maior vilão que pode vir à cabeça no momento, é a bolsa família, criada pelo presidente Lula, quando retirada a bolsa escola, ficou claro, que a condição não era levar as crianças para a escola, mas “ser pobre” como fica exaltado pelo senador
Cristovam Buarque, sobre a bolsa família. A bolsa escola como sabemos, tinha a condição das crianças estarem na escola para o benefício, isto fazia aumentar a educação, em consequência, melhoria da cultura, menos crianças nas ruas, menos crianças nos trabalhos escravos das ruas, menos violência, e muitos outros benefícios sociais, que infelizmente perdemos. Hoje, a maiorias das crianças de rua não vão para a escola, e alimentam a violência, perdem a educação e a infância, uma chance de saber os sabores da vida, e quanto maior o número de crianças de rua, maior será os problemas sociais causados por isto.

Quando criada a bolsa família, ela simplesmente virou uma junção das outras bolsas antes existentes, incluindo a bolsa escola, este tipo de benefício causa um mal ainda maior, pois se beneficiado por número de pessoas, visando um lucro maior, as famílias carentes tendem a ter mais filhos, mais trabalhadores de rua “mais dinheiro no bolso” já que não é preciso estar na escola para receberem o benefício, ganham uma bolsa de bom tamanho, e de quebra ainda podem ter os filhos trabalhando para si, ou apenas pedindo esmolas.


Uma criança, quando aos seus cinco anos de idade, já está na escola, que consegue completar o ensino médio, e que consegue entrar numa faculdade, fazer curso técnico, que hoje estão abertos para toda a população, uma pessoa que passa por isto tem a chance de trabalhar honestamente, conseguir emprego, renda, sem precisar da violência para tal, sem precisar do roubo, sem precisar expor filhos para o trabalho nas ruas, sem precisar do benefício de bolsas, tem a chance de saber como é a vida no lado bom, tem a chance de viver num mundo melhor.


Não falando apenas da sociedade em si, pensando nas crianças, pessoas que têm a chance de ter uma infância, e relembram os velhos tempos que não voltam mais, as mais gostosas saudades existentes, sabemos o quão a infância é importante nesta vida, uma felicidade que faz sermos o que somos, mas crianças de rua não têm esta chance, elas trabalham em vez de brincar, lucram em vez de aprender, fazem violência em vez de crescer, se aprofundam na escuridão da sociedade em vez de descobrir um mundo novo, estas crianças não são crianças, são adultos precoces, elas precisam saber o que é ser criança, muito além de alimentar a violência, e os perigos ao redor, elas precisam de uma chance, estas praticamente vivem num mundo sozinhas desde o começo e aprendem valores errados, mesmo que não fizesse diferença impactante para as pessoas em geral, elas também são seres humanos.


O nosso mundo, da violência, da pobreza, das crianças de rua, tem salvação, a educação, se todos pudessem ter qualidade de ensino, ou ao menos ter a chance de estudar, aprender os valores da sociedade, a ética para convivermos sem conflitos, os problemas que temos de enfrentar, sobre violência por exemplo. Os países mais ricos têm a melhor qualidade de ensino, enquanto países pobres têm pior educação, para sair da pobreza precisamos nos concentrar na educação, coisa que fazia sentido na época da bolsa escola, que hoje não faz mais, há esperança, enquanto isto a forma de tentarmos impedir, é as pessoas que têm a chance da educação, e da infância, usarem isto, o problema é que não basta uma ajuda de fora, isto deveria ser enfrentado na origem, um problema que teremos de saber conviver, pois estas crianças hoje, estão como são chamadas na maioria, abandonadas.

Texto retirado de: Somos Pensadores

Abaixo uma música do grupo de rap Facção Central, que relata muito bem a triste realidade dos meninos de rua.

Facção Central: Eu não pedi pra nascer.




Letra:

Minha mão pequena bate no vidro do carro
No braço se destacam as queimaduras de cigarro, a chuva forte ensopa a camisa e o short
Qualquer dia a pneumonia me faz tossir até a morte
Uma moeda, um passe me livra do inferno, me faz chegar em casa e não apanhar de fio de ferro
O meu playground não tem balança, escorregador, sua mãe Vadia perguntando quanto você ganhou
Jogando na cara que tentou me abortar, que tomou umas 5 injeções pra me tirar
Quando eu era nenê tentou me vender uma pa de vez, quase fui criado por um casal inglês
Olho roxo, escoriação, porra, que foi que eu fiz? Pra em vez de tá brincando ta colecionando cicatriz
Porque não pensou antes de abrir as pernas, filho não nasce pra sofrer não pede pra vir pra Terra.

O seu papel devia ser cuidar de mim, cuidar de mim, cuidar de mim
nao espancar, torturar, machucar, me bater, eu nao pedi pra nascer
O seu papel devia ser cuidar de mim, cuidar de mim, cuidar de mim
Não espancar, torturar, machucar, me bater, eu não pedi pra nascer

Minha goma é suja, louça sem lavar, seringa usada, camisinha em todo lugar
Cabelo despenteado, bafo de aguardente é raro quando ela escova os dentes
Várias armas dos outros muquiadas no teto, na pia mosquitos, baratas, disputam os restos
Cenário ideal pra chocar a UNICEF, Habitat natural onde os assassinos crescem
Eu não queria Playstation nem bicicleta, só ouvir a palavra "filho" da boca dela
Ouvir o grito da janela "A comida tá pronta", não ser espancado pra ficar no farol a noite toda
Qualquer um ora pra Deus pra pedir que ele ajude, dê dinheiro, felicidade, saúde
Eu oro pra pedir coragem e ódio em dobro pra amarrar minha mãe na cama por querosene e meter fogo

O seu papel devia ser cuidar de mim, cuidar de mim, cuidar de mim
nao espancar, torturar, machucar, me bater, eu nao pedi pra nascer
O seu papel devia ser cuidar de mim, cuidar de mim, cuidar de mim
nao espancar, torturar, machucar, me bater, eu nao pedi pra nascer

Outro dia a infância dominou meu coração, gastei o dinheiro que eu ganhei com um album do Timão
Queria ser criança normal que ninguém pune, que pula amarelinha, joga bolinha de gude
Cansei de só olhar o parquinho ali perto, senti inveja dos moleque fazendo castelo
Foda-se se eu vou morrer por isso, Obrigado meu Deus por um dia de Sorriso
A noite as costas arderam no coro da cinta, tacou minha cabeça no chão
Batia, Batia, me fez engolir figurinha por figurinha
Espetou meu corpo inteiro com uma faca de cozinha
Olhei pro teto vi as armas num pacote, subi na mesa catei logo a Glock
Mãe, devia te matar mas não sou igual você, invés de me sujar com seu sangue eu prefiro morrer....Bum!
O seu papel devia ser cuidar de mim, cuidar de mim.
Não me espancar, torturar, machucar me bater, eu não pedi pra nascer.
O seu papel devia ser cuidar de mim, cuidar de mim.
Não me espancar, torturar, machucar me bater, eu não pedi pra nascer.

Violência faz parte de cotidiano de moradores de rua de São Paulo

terça-feira, 1 de junho de 2010

Na madrugada do dia 11 de maio, cinco moradores de rua foram assassinados enquanto dormiam no bairro do Jaçanã, região norte de São Paulo. Segundo investigações da Polícia Civil, eles foram mortos a tiros por duas pessoas ainda não identificadas, que fugiram em uma moto.

O caso emblemático chama a atenção para a violência contra a população que vive nas ruas da capital paulista. Apesar da chacina ser um fato isolado nas estatísticas, atos como agressões, maus-tratos e intimidações são rotina na vida dos moradores de rua da cidade. E, segundo as vítimas, grande parte dos autores é agentes de segurança.

Os moradores de rua ouvidos pela Agência Brasil durante as últimas duas semanas afirmaram já terem sido agredidos ou, no mínimo, destratados enquanto caminhavam ou dormiam em bairros de São Paulo. Todos disseram, também, que os policiais militares e os guardas-civis metropolitanos são os maiores agressores.

“[Os policiais e guardas metropolitanos] tratam a gente como animais. Para eles, somos um lixo”, afirma Katia Cristina da Silva, 29 anos, há cinco anos dormindo na Praça da Sé com seu companheiro e a filha de 6 anos. “Chegam com ignorância, acordando a gente com chutes e água.” “Eu tenho medo”, complementa Marcelo de Castro, 28 anos, há 11 anos vivendo em albergues. “Quando eu vejo a viatura, atravesso a rua e não fico olhando. Se você olha, eles levam isso como afronta”, afirmou.

Atila Pinheiro, coordenador do Movimento Nacional da População em Situação de Rua, classifica a situação da violência policial contra moradores de rua em São Paulo como “caótica”. “Se a polícia sabe que existem 8 mil pessoas nos albergues, e outras 8 mil sem vagas, porque bater em quem está dormindo na rua?”

Pinheiro disse que as agressões são cotidianas há muito tempo. Porém, ressalta que vêm se tornando cada vez mais frequentes, principalmente depois que a prefeitura de São Paulo autorizou a Guarda-Civil Metropolitana (GCM) a abordar moradores de rua sem acompanhamento de assistentes sociais, no início de abril.

A Promotoria de Inclusão Social do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) instaurou, também em abril, um inquérito civil para investigar a atuação da GCM no tratamento aos moradores de rua. O promotor Eduardo Valério, responsável pelo caso, disse que há indícios de irregularidades na portaria. “Morador de rua não é caso de polícia, é caso de assistência social”, afirmou ele.

A prefeitura, em nota, informou que a portaria sobre a GCM visa “ao melhor atendimento às pessoas em situação de risco”. Segundo ela, os casos de violência de membros da guarda devem ser denunciados.

A PM também pediu que a população denuncie os casos de agressões de policiais a moradores de rua. Em nota, a corporação informou que “não compactua com atitudes que não estejam apoiadas na legislação e que a atuação dos policiais obedece a regras criadas com o objetivo de tornar técnica toda intervenção”

Por Vinicius Konchinski.

Colaborou Bruno Bocchini. Edição: Aécio Amado.

(*) Reportagem publicada originalmente na Agência Brasil.



 

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