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Bakunin sobre as autoridades

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011


Segue abaixo um trecho do livro Deus e o Estado, de Mikhail BAKUNIN (teórico político russo, principal expoente da ideologia anarquista). Neste trecho será possível perceber claramente a perspectiva contrária a toda e qualquer forma de dominação hierárquica na relação entre os homens. O desprezo pelas formas de governo, que limitam as capacidades dos cidadãos, reprimem suas opiniões e forjam padrões a serem seguidos. Num sistema capitalista, como o que ainda vivemos, há a sobreposição de uma elite (minoria) abastada que vive em dependência da miséria de muitos e, diante desse fato, Bakunin destaca sua rejeição a qualquer posição de privilégio que possa fazer um homem crer que é melhor, mais rico, importante ou capaz do que outro.

"Decorre daí que rejeito toda autoridade? Longe de mim este pensamento. Quando se trata de botas, apelo para a autoridade dos sapateiros; se se trata de uma casa, de um canal ou de uma ferrovia, consulto a do arquiteto ou a do engenheiro. Por tal ciência especial, dirijo-me a este ou àquele cientista. Mas não deixo que me imponham nem o sapateiro, nem o arquiteto, nem o cientista. Eu os aceito livremente e com todo o respeito que me merecem sua inteligência, seu caráter, seu saber, reservando todavia meu direito incontestável de crítica e de controle. Não me contento em consultar uma única autoridade especialista, consulto várias; comparo suas opiniões, e escolho aquela que me parece a mais justa. Mas não reconheço nenhuma autoridade infalível, mesmo nas questões especiais; consequentemente, qualquer que seja o respeito que eu possa ter pela humanidade e pela sinceridade desse ou daquele indivíduo, não tenho fé absoluta em ninguém. Tal fé seria fatal à minha razão, à minha liberdade e ao próprio sucesso de minhas ações; ela me transformaria imediatamente num escravo estúpido, num instrumento da vontade e dos interesses de outrem." Mikhail Bakunin.


Para os interessados, download do livro na íntegra, disponível aqui.




Tendências Alienativas

segunda-feira, 15 de novembro de 2010






A informação transmitida diariamente pelos veículos de comunicação é realmente confiável? Você está sendo mais uma vítima do poder alienativo midiático? Como combater esse fato?


Estamos expostos todos os dias a meios de comunicações diferentes, notícias chegam até nós através de internet, rádio, televisão. Porém, vez ou outra, nos deparamos com um mesmo fato mostrado de forma controversa por dois veículos comunicativos. Isso se deve à parcialidade nas notícias, as emissoras de rádio, de televisão e os grandes sites de notícias são nada menos do que corporações, e, por serem “máquinas em busca do lucro, custe o que custar”, podem facilmente distorcer um fato de forma que favoreça sua fonte de capital (como seus patrocinadores, por exemplo). Faz-se essencial o estabelecimento de uma visão angular por parte de nós, receptores de notícias, de forma que filtremos o conteúdo, lendo mais do que uma fonte, a fim de extrair a verdade das possíveis mentiras e sujeiras que vêm embutidas.


Devemos ser capazes de localizar essa alienação, qualquer seja sua fonte. Hoje, somos expostos “ao que os outros querem que pensemos” de muitas formas, não somente em notícias de fato, mas em filmes, músicas e até videogames. Se analisarmos a quantidade de filmes tendenciosos que subjugam pessoas de religiões, etnias e culturas consideradas diferentes veremos que muitos de nossos pensamentos e opiniões em relação a essas pessoas são errôneos. Filmes como Guerra ao Terror (2009), Impensável (2010) são só alguns dos muitos que nos fazem considerar todos os muçulmanos perigosos e passíveis de repressão. Jogos como Call Of Duty: Black Ops também reforçam a visão negativa que muitos já têm em relação a Cuba. Todos esses retratos expressos nos meios de comunicação são formas de induzir nossos pensamentos a partilhar das mesmas crenças e dos mesmos medos que o mundo capitalista e globalizado. Somos apenas subprodutos do regime conservador.


O combate a essa “lavagem cerebral” torna-se essencial para que não criemos ainda mais medo do desconhecido. Esse combate dá-se pela visão angular, citada anteriormente, que proporciona uma melhor busca da verdade, analisando inteiramente um fato, olhando-o de vários ângulos diferentes a fim de extrair a imparcialidade nos argumentos e criar uma opinião própria a respeito. O início desse processo de libertação das tendências dogmáticas dá-se primeiramente com a educação, que proporcionará aos jovens liberdade de pensamento e expressão; e posteriormente com a leitura e compreensão profunda de notícias que exigirão mais do que olhos para ler, e sim, visão racional.


“Os governos suspeitam da literatura porque é uma força que lhes escapa”. A frase de Emile Zola já nos dá uma idéia do poder que temos em mãos para estabelecer um regime de plena liberdade de pensamento, que quebre os grilhões que nos prendem à vontade de outros.


Luccas M.

Resenha de A Parábola do Cágado Velho.

sábado, 13 de novembro de 2010



A Parábola do Cágado Velho, de Pepetela.


A estória se passa na atual África, em Angola. Ulume vive em um kimbo (aldeia) com sua primeira mulher Muari e seus dois filhos Luzolo, o mais velho, e Kanda. Ulume acredita que um cágado(I) velho que habita as proximidades de sua aldeia possui uma sabedoria especial e superior.


Pouco tempo depois, inicia-se uma guerra civil, que acaba por trazer miséria à aldeia onde Ulume morava. Desesperado, ele e sua família desejam se mudar para um local afastado (Vale da Paz), onde todo sofrimento proveniente da guerra não os atinja. Nesse contexto, seus dois filhos tomam partidos em lados opostos na guerra, virando combatentes e inimigos.


Ulume acaba conhecendo Munazaki, uma jovem por quem se atrai. Após se apaixonar por ela e vê-la antes de sua morte num sonho(II), a pede em casamento(III).


Munazaki e os filhos de Ulume são contra o casamento (acreditam em direitos iguais entre homens e mulheres, oposto com o que regiam as tradições angolanas). Porém, após negar o pedido, ela vê a depressão se abatendo em Ulume e aceita. A nova família se muda para o Vale da Paz


Certo dia Luzolo retorna para casa, sem armas, anunciando o fim da guerra. Ulume procura Kanda esperando reunir a família, porém, o filho mais novo acredita na continuidade da guerra e se mantém em seu posto.


Certo dia Munazaki some, só tornando a aparecer depois de anos, e ao retornar, admite que fugira em busca de Kanda e de Calpe (cidade fictícia dos sonhos, moderna). Porém, falhara em seu caminho, fora violentada, feita de escrava, perdera sua juventude. Pensava apenas em voltar para o lugar onde realmente a amavam.


Ela pede perdão a Ulume, que fica dividido em aceitar (e ser desonrado perante as tradições), ou seguir seus costumes, renegando-a. Contudo, ele pensa que se aceitá-la, pode acabar fazendo seus filhos se reaproximarem, e adotarem tal gesto de perdão entre eles também. Então, a fim de solucionar essa problemática, ele procura o cágado.


“O cágado olha para ele e confirma três vezes com a cabeça, numa clara aceitação. Com a aquiescência do cágado, Ulume decide perdoar. Esta decisão entre seu peito de esperança. Uma esperança que brilha como uma estrela no céu.”


(I) Os cágados são répteis da Ordem Testudinata (a mesma das tartarugas), da família Chelidae.

(II) Nas tradições do povo angolano, se em sonho em que você estiver prestes a morrer acabar vendo a imagem de uma mulher, deve casar-se com ela.

(III) O casamento com mais de uma mulher é permitido segundo os costumes angolanos mais tradicionais.



___________


Análise:


Após a leitura, torna-se perceptível o tom simbolista dado por Pepetela, sua preocupação filosófica e existencial cria um conectivo entre as tradições passadas de Angola, e as novas regras do mundo moderno.


Ao mesmo tempo em que há o embate entre tais conceitos relativamente opostos, há também a miscigenação deles. As metáforas e a presença de um animal sábio deixam claras as dúvidas e incertezas do homem em suas ações. Não há uma verdade absoluta, nem uma certeza inquestionável mesmo com todo o tradicionalismo da sociedade, as atitudes das personagens exemplificam valores existentes e aqueles que estão se perdendo atualmente. O fato de uma guerra dividir uma família pode simbolizar o fato de características étnicas, religiosas, políticas dividirem um país e criarem um confronto, por exemplo.


O uso das tradições só deixa transparecer o forte patriotismo de Pepetela. A aglutinação entre o “velho” e o “novo” relata nada mais do que a atual situação do país (e porque não do mundo), em que o alto número de migrações acaba por miscigenar ainda mais os povos, colocando de lado grupos étnicos determinados, e criando uma identidade única: a humana.


Em sua obra, Pepetela incita o leitor a pensar na sociedade, instiga o raciocínio que reflita sobre morais e valores essenciais para a boa vivência em qualquer lugar e que hoje, podem estar sendo perdidos. A obra demonstra como a maldade e a ganância do homem podem destruir não só paisagens, mas também famílias. Além de deixar claro ao leitor o quão importante é o pensamento coletivo, e como se faz necessário em tempos de individualismo e exaltação material.


O desfecho cria uma pontada de esperança, mostrando que a mudança pode acontecer, e que a bondade dos homens pode se sobrepor a toda agonia causada por alguns grupos. A sobreposição do “nós” em relação ao “eu” depende apenas da compaixão.


Luccas M.

Reflexão...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

"Detesto as vítimas quando elas respeitam os seus carrascos."


Jean-Paul Sartre



Alienação: O Mal Atemporal

segunda-feira, 23 de agosto de 2010







A preferência por manter-se alheio à realidade pode encontrar-se em diversas situações e ultrapassa os limites temporais.


A grande quantidade de informações oferecidas pela mídia garante a muitas pessoas o sentimento de pleno conhecimento sobre os mais variados assuntos, e seus programas de entretenimento asseguram a permanência do telespectador em frente ao televisor, atrapalhando as relações familiares, e principalmente, impedindo análises e discussões acerca do conteúdo e de sua forma de abordagem pelos veículos midiáticos. Esses fatores contribuem para a alienação das massas que, muitas vezes preferem manter-se distantes da verdadeira realidade por pura preguiça de procurar novas informações ou pelo medo da rejeição do grupo ao qual pertencem por possuírem ideias diferentes das dos demais.


A percepção dessa situação não é recente e pode ser encontrada no “Mito da Caverna” de Platão, no qual os três prisioneiros julgavam como única verdade as sombras que enxergavam (já que eram sua única “visão” do mundo exterior) e caso algum escapasse da prisão e tivesse real conhecimento do que o cercava iria preferir manter-se calado a ser julgado como diferente ou até mesmo ser morto.


Mesmo após muitos séculos do mito, o homem encontrou outros meios de permanecer preso “olhando as sombras”, através da mídia e sobretudo da televisão, que lhe oferece notícias prontas e comentadas, diversão, conforto, etc. A facilidade com que essas informações chegam até o público, e a veracidade com que são transmitidas servem para que a grande massa as tenha como verdades absolutas, sem questioná-las por temerem conflitos e julgamentos que podem surgir, além disso, a força das mídias é grande e tenta silenciar aqueles que dela discordam, utilizando todas as armas de que dispõem, inclusive a censura e a coação que ficam encobertas por belos comerciais, novelas, seriados e noticiários de credibilidade que estão presentes e enraizados há tanto tempo nas famílias mundiais.


Cabe à população romper com essa visão conformada e atentar-se mais e questionar, criticar e investigar aquilo que lhe é transmitido, saindo de sua “zona de conforto” e de sua ignorância para assim construir países mais justos, políticos mais honestos e adquirir um papel mais ativo e fundamental na sociedade, pois sem grande revoluções ideológicas não seriam alcançadas tantas medidas hoje consideradas básicas.


Por: M. Beatriz

O Mito da Caverna de Platão (Texto e Análise)

segunda-feira, 5 de julho de 2010


O mito da caverna, foi escrito pelo filósofo Platão, e encontra-se na obra intitulada A República (livro VII). Trata-se da exemplificação de como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona através da luz da verdade.


O Mito da Caverna:
Trata-se de um diálogo metafórico onde as falas na primeira pessoa são de Sócrates, e seus interlocutores, Glauco e Adimanto, são os irmãos mais novos de Platão. No diálogo, é dada ênfase ao processo de conhecimento, mostrando a visão de mundo do ignorante, que vive de senso comum, e do filósofo, na sua eterna busca da verdade.

Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres (marionetes, fantoches) armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.

Glauco – Estou vendo.

Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.

Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

Sócrates - Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna que lhes fica defronte?

Glauco - Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante toda a vida?

Sócrates - E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros, não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

Glauco - É bem possível.

Sócrates - E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?

Glauco - Sim, por Zeus!

Sócrates - Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão às sombras dos objetos fabricados?

Glauco - Assim terá de ser.

Sócrates - Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se, enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco - Muito mais verdadeiras.

Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

Glauco - Com toda a certeza.

Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?

Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.

Glauco - Necessariamente.

Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna.

Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.

Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?

Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.

Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?

Glauco - Por certo que sim.

Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?

Glauco - Sem nenhuma dúvida.

Sócrates - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Deus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.

Glauco - Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.

(Platão, A República, v. II p. 105 a 109)




Análise: O Mito do Cidadão Padrão

Assim como séculos atrás Platão abriu os olhos da humanidade para o comodismo parasitário que assolava as massas, hoje, a tendência conformista continua a padronizar o homem de acordo com o interesse dos poderosos.


No mito, os prisioneiros, impossibilitados de se locomover vêem apenas sombras, e crêem que essas são a própria realidade, a vida de fato. Até que um deles se liberta e deixa a caverna a fim de ver o que se passa lá fora. Ao sair, permanece cego por instantes devido à claridade jamais antes vista. Depois de acostumar-se, o homem se depara com um novo mundo, uma realidade completamente diferente daquilo que ele considerava verdade, este homem por fim entende que seu antigo mundo dentro da caverna se resumia numa mentira perante a veracidade de tudo que estava do lado de fora. Disposto a libertar os outros prisioneiros, e fazê-los se livrar daqueles grilhões que os separavam da vida real, o homem volta para a caverna, porém a questão é: qual seria a reação dos aprisionados perante essa nova verdade jamais vista? Acreditariam no homem liberto? O matariam se esse tentasse liberta-los?


Ao compararmos essa parábola de Platão com nossa atual situação, notamos pontos em comum que mostram que o povo acredita somente naquilo que pode ver. O homem se prende ao senso comum, a imagens, à ilusão de fatos corruptíveis e sensíveis que seduzem a mente e afundam-no na ignorância. Esse povo, sensível apenas às suas crenças e às suas falsas morais são os prisioneiros na caverna. Por outro lado, o homem que se desprende da “cômoda” realidade da caverna e se aventura mundo afora, abre as portas de seu intelecto ao conhecimento filosófico e à educação, passando a avaliar os detalhes daquilo que o cerca de forma racional, imparcial, e justa. Esse homem, livre dos grilhões que o prendiam a aquelas mentiras agora questiona sua antiga realidade, sai do conformismo que o fazia acreditar apenas naquilo que podia ver, passa a valorizar e a buscar assiduamente a sabedoria e a compreensão.



Os poderosos de hoje assim como os de outrora se beneficiam da falta de conhecimento do povo para se colocarem num patamar superior. O cidadão padrão hoje é aquele que segue à risca o que lhe impõem, paga suas contas, seus impostos, compra produtos industrializados, vota apenas por ser obrigado, não questiona o sistema, não se importa com disparidades sociais, assiste televisão, segue tendências, concorda com cada palavra que é passada no noticiário e considera-se bem informado e culto por isso. Esse é o homem perfeito a ser feito de capacho, sem fazer a mínima idéia daquilo que realmente se passa, assim como os homens presos na caverna.


Contudo, um outro grupo de homens existe. Um grupo pequeno, idealista e questionador, diferentes daqueles padronizados, dispostos saber mais, a querer mais. A pedra no sapato da elite, aqueles que não se enganam com falsas promessas, políticas baratas de pão e circo. São estes os que questionam valores de impostos, os que se enojam com a ganância do mundo corporativo, os que entendem deveres cívicos, os que vêem as falhas no sistema, os que percebem a forte influência da mídia sobre as massas. Este é o homem que saiu da caverna e agora vê um novo mundo.


Sabendo da existência desses grupos, e do poder racional de cada um deles, cabe a cada um de nós, decidir se viveremos fechados dentro da caverna, ou se nos libertaremos para uma nova forma de compreensão.

Luccas M.

Valete: Anti-Herói

segunda-feira, 28 de junho de 2010


Valete é um rapper português nascido em Lisboa, Portugal no dia 14 de Novembro de 1981. Desde cedo criou as suas opiniões políticas, influenciado por um professor de Filosofia. Chegou mesmo a pertencer à Juventude Comunista Portuguesa, mas acabou por desistir pouco tempo depois. Começou a ouvir rap no ano de 1991 mas foi a partir de 1995 que passou a encarar a música de forma mais profunda, tendo como principais referencias artistas como Nas, KRS-One ou Racionais MC's.

O nome "Valete" surgiu após ter visto num documentário de ilusionismo a ideia mítica de que a carta Valete, utilizada em truques de ilusionismo, não permitia que o truque resultasse. Se dedicou aos estudos e se formou em Ciências da Comunicação, já lançou dois álbuns: Educação Visual (2002) e Serviço Público (2006), e um terceiro álbum chega agora em outubro de 2010 (Homo Libero).

Em suas músicas, Valete mostra-se extremamente contra políticas neo-liberais, e favorável à esquerda política.

Hoje, ele divide seu tempo entre uma carreira profissional como empregado no departamento comercial de uma empresa de recursos hídricos e a gestão de uma panificadora, que em 2007 abriu em São Tomé e Príncipe.


Abaixo o clipe oficial com legendas da música do álbum Serviço Público (2006) chamada Anti-Herói:




Letra da música

O Carma e suas leis

sábado, 15 de maio de 2010




- O Carma :

O carma (ou karma) é um conceito central nas religiões orientais como o hinduísmo, budismo, siquismo e o jainismo. A palavra "carma" vem do sânscrito "karman", que significa "agir". Em geral, acredita-se que as ações influem na qualidade de nossa presente vida e nas futuras. Boas ações criam um bom carma e más ações, um carma negativo. Os efeitos do carma podem se manifestar imediatamente, no final da vida ou após muitas vidas. Algumas religiões vêem o carma como a lei que rege a reencarnação. Outras acreditam que o carma é algo particular, que acompanha nossa alma e precisa ser removido através de atos de devoção.

No Ocidente, a idéia relativamente moderna de carma não é bem uma realidade espiritual e sim, uma espécie de sorte influenciada por boas ações. É uma tentativa atraente em influenciar a sorte, algo aparentemente fora do nosso controle, com ações específicas. A maioria das pessoas concordaria que é razoável acreditar que o bom comportamento seja digno de uma recompensa e de que o mau comportamento seja punível. O carma também é uma maneira conveniente de explicar sofrimentos aparentemente aleatórios. Numa geração racional, o carma é uma forma popular e legitimizada de superstição, diferente da reencarnação.


- As doze leis do Carma :


1º LEI : Nós colhemos o que plantamos. É a lei da causa e do efeito. O que fazemos aqui volta pra nós sem data prevista, mas ... volta.

2º LEI: A vida não apenas acontece por si só, a vida se faz de ação, reação e então a criação.

3º LEI: Fala sobre humildade, o que muitos de nós se recusam aceitar... seja por crenças, vergonha, traumas etc. Mas qualquer um que abandone a arrogancia e o ódio se torna humilde.

4º LEI: Onde formos era pra estarmos lá! Essa é a lei do crescimento das coisas vindaa de outra vidas nos conduzindo a certas situações nesta atual. Tudo em foco de uma evolução espiritual.
E diante dos erros somos nós que devemos mudar, e não exigir mudanças nas outras pessoas, ou culpar lugares e as coisas que nos acontecem, o que esta aqui conosco não é ruim e por pior que pareça, qualquer desgraça conduz ao crescimento pessoal.

5º LEI: Nós nos espelhamos naquilo que nos cerca e o que nos cerca se espelha em nós. Portanto em cada atitude existe uma escolha, e essa lei cármica quer dizer "responsabilidade pelos seus atos."

6º LEI: Mesmo que algo pareça desconectado, é importante entender que no Universo tudo está conectado. Cada etapa conduz a etapa seguinte e assim por diante.
O passado construiu o presente, e o presente constrói o futuro. O que esta em nossa vida tem sua razão guardada num passado distante, e o que é inédito agora é o tesouro já guardado em nosso futuro.

7° LEI: Não podemos pensar em 2 coisas ao mesmo tempo. Essa lei significa um unico pensamento pra se criar ou modificar algo nesta atual existencia. A lei de manter-se focado, dedicado, doar-se de corpo e alma.

8º LEI: é o ato de doação, se acreditamos que algo é verdade, seremos chamados para demonstrar essa verdade. É nesse momento que podemos colocar o que dizemos e aprendemos na prática!
Nenhum aprendizado é em vão, nada é inutil, o que não lhe serve seja um objeto material ou conhecimento pode valer "milhões" para outra pessoa.

9º LEI DO AQUI E AGORA: remoer o passado ou viver esperando algo no futuro é a estagnação. A vida se faz do hoje com base no passado e espectativa no futuro, mas quem abandona o HOJE, destruiu seu passado e esta prestes a não construir um futuro almejado.

10º LEI DA MUDANÇA: A história se repete até aprendermos as lições que necessitamos para mudar nosso trajeto.

11º LEI: Simboliza paciencia e recompensa, sendo paciente se aprende e isso leva ao auto conheciemento, conhecimento do próximo, do que os outro sentem, uma visão amplificada de tudo e de todos.

12º LEI: O valor de algo é o resultado direto da energia e intenção colocada nela. Cada contribuição pessoal é também uma contribuição ao todo. A inspiração amorosa fornece uma contribuição ascendente e inspira o "Todo."


fonte: No pique web

Teoria Geral da Relatividade, 94 anos

domingo, 2 de maio de 2010


As deduções de Einstein ajudaram a abalar as ideias sobre o mundo que herdamos da modernidade. E oferecem pistas para repensar, hoje, tempo, ciência, sociedade e utopia

(20/03/2010)


Em 20 de março de 1916, Albert Einstein publicou sua Teoria Geral da Relatividade. As ideias gerais nela contidas haviam sido apresentadas em novembro do ano anterior, na Academia Prussiana de Ciências, e ocupavam o físico desde 1907. Eram uma tentativa de colocar em diálogo sua Teoria Restrita da Relatividade (apresentada em 1905) e a física de Galileu e Newton, um dos fundamentos da ciência moderna. Mas abalavam as certezas anteriores (e ainda hoje predominantes, no senso comum) sobre tempo, espaço e movimento.


A imensa série de desdobramentos científicos e filosóficos da teoria de Einstein não cabe, evidentemente nestas linhas. Mas seu sentido geral é radicalizar a noção de que não há pontos de referência universais – nem, portanto, verdades únicas. Séculos antes, Galileu havia demonstrado que um mesmo fenômeno físico é visto de distintas maneiras, dependendo do ponto onde está o observador. Einstein acrescentou, a esta incerteza, muitas outras – relacionadas especialmente ao tempo. Também este, mostrou ele, dilata-se e se contrai. Não há um relógio universal, uma régua geral para todos os acontecimentos. Dois eventos que um observador vê como simultâneos podem não o ser para outro.


O interessante é que esta quebra de paradigmas científicos seria seguida, décadas mais tarde, por mudanças que sacudiram as noções sociais de tempo e a percepção sobre ostatus da ciência. Ao menos dois textos, disponíveis naBiblioteca Diplô, contribuem diretamente para este debate.


Em “O futuro do tempo”, Jérôme Deuvieau discute como a pós-modernidade dissolveu as réguas temporais mais importantes desde o Renascimento (as do trabalho) sem que nada tenha, ainda, ocupado seu lugar. Na Idade Média, considera ele, o tempo religioso dava sentido à vida. Mais tarde, este papel passou a ser exercido pelo labor, que cumpriu as três funções básicas antes preenchidas pela fé e seu serviço: a) Produzir vínculo social; b) Estabelecer laços entre atividade e "salvação"; c) Orientar o futuro, dando-lhe um sentido, agora secular.


Mas a deslegitimação do trabalho começa no século 19 e acelera-se no seguinte – por múltiplos fatores. Em países como a França, o tempo diretamente dedicado às atividades laborais cai de 70% da vida em vigília (em 1850) para 7% a 8%, hoje. As máquinas (o capital) encarregam-se de um conjunto crescente de atividades antes executadas por seres humanos. E as próprias aspirações dos indivíduos, na virada para o século 21, deslocam-se da acumulação de bens materiais para a "redescoberta de si".


O aspecto negativo destas transformações está, também ele, relacionado ao tempo e sua métrica. Os projetos anteriores de um "futuro melhor" por meio do trabalho coletivo perdem sentido – tanto os que apostavam nas supostas virtudes da disciplina capitalista quanto os que esperavam a coletivização da indústria. À falta de um futuro, busca-se desesperadamente o imediato: "o ser humano de hoje enxerga-se com direitos sobre o de amanhã, ameaçando o bem-estar, equilíbrio e às vezes a vida deste último".


A saída, imagina Deauvieau, está numa visão do futuro que substitua a velha ideia linear de tempo e "progresso" por outra, baseada na responsabilidade. Construir uma nova utopia é possível. Mas implica assumir posturas que já não se apoiam principalmente em nosso lugar na produção de riquezas – mas em nossa solidariedade com as gerações futuras, precaução com o planeta, preservação e multiplicação dos bens comuns.


A mudança de paradigma provocada pela Teoria da Relatividade suscita ainda outra linha de reflexão pouco convencional. Em "Outra ciência é possível", Jean-Marc Lévy-Leblond questiona uma das certezas que acompanham o Ocidente desde o Renascimento: o suposto caráter "neutro", "objetivo" e, portanto, "universal" do saber científico. É algo que resistiu, pensa ele, como um porto seguro no século 20. "Em um mundo no qual sistemas sociais, valores espirituais, formas estéticas vivem incessantes abalos, seria tranquilizador que a ciência oferecesse pelo menos um ponto fixo de referência, dentro do relativismo ambiente"...


Mas ao longo de seu texto, Leblond reúne elementos quecontestam esta falsa segurança. O que chamamos hoje de "ciência" diz ele, é uma das múltiplas formas possíveis de produção do saber. Seu método, desenvolvido a partir da Grécia e baseado na abstração e na prova, é de fato um avanço em relação, por exemplo, às formulações empíricas dos egípcios. Regride mais tarde, para ressugir no Renascimento (com grande contribuição islâmica), associado à mecanização, ao "domínio da natureza" e à produção de riquezas. Mas pode perfeitamente estar em declínio. O comando mercantil que lhe deu força em outros tempos restringe gravemente, hoje, a "possibilidade de pesquisas especultaivas, sem garantia de sucesso imediato".


Não há ampliação de horizontes sem abandono das antigas referências. Assim como a Teoria da Relatividade nos liberta da segurança ilusória de um "tempo único", deveríamos estar abertos, conclui Leblond, a "outras formas de ciência". Mas não poderemos fazê-lo sem o doloroso reconhecimento de que não temos as chaves do saber...



fonte: Biblioteca Diplô

O que é ideologia?

quarta-feira, 17 de março de 2010




Sinopse

Ideologia: um mascaramento da realidade social que permite a legitimação da exploração e da dominação. Por intermédio dela, tomamos o falso por verdadeiro, o injusto por justo. Como ocorre essa ilusão, essa fabricação de uma história imaginária? Qual sua origem? Quais seus mecanismos, seus fins e efeitos sociais, econômicos e políticos?

 

2009 ·Axis of Justice by TNB