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Revolução cubana se move criticamente sobre si mesma

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Em 2011 se completarão 30 anos da minha primeira visita a Cuba. Eu trabalhava no Brasil com o método de Paulo Freire. Queria trazer a Cuba essa contribuição, estava convencido da importância política da metodologia da educação popular. Quando cheguei, havia preconceitos não só para com esta metodologia, mas também em relação à figura de Freire. Seu primeiro livro tinha causado certo receio entre os companheiros do Partido Comunista de Cuba.

Um marxista cristão, soava então contraditório: o marxismo era considerado uma fé e não se podia ter duas.

Então propus em Havana um Encontro Latino-Americano de Educação Popular. Os cubanos prepararam tudo; mas no encontro não havia nem um cubano. Dois anos depois, consegui que a Casa das Américas organizasse um segundo encontro. Vários cubanos compareceram como meros assistentes, diziam que em Cuba tudo era educação popular e não havia necessidade de ter uma equipe para isso. No terceiro encontro, a participação cubana já foi ativa. Assim surgiu a equipe do Centro Martin Luther King.

Mas Paulo Freire não é o primeiro latino-americano a falar dessa metodologia. Para fazer justiça com a história, o primeiro que praticou educação popular foi José Martí. Martí dizia que era necessário levar os professores aos campos. E com eles, a ternura que faz falta aos homens. Seguramente o Che tinha lido essa frase quando disse que havia que endurecer, mas sem perder a ternura. Para Martí, “popular” não o era no sentido de pobre, mas de povo. A distinção rígida que se aplicava na Europa entre classe operária e burguesia, não se aplicava à América Latina. A luta aqui era entre aqueles que lutavam pela justiça e aqueles que tentavam manter a injustiça. Tudo não se explica por origem de classe. Se todos os pobres fossem revolucionários, não haveria capitalismo na América Latina.

Talvez vocês não saibam que é um fato biológico que as águias podem viver 70 anos no máximo. Mas quando chegam aos 30 ou 40, propendem à morte porque suas garras e seu bico já não são fortes para destruir as carnes com que se alimentam. E quando sentem que podem morrer, voam para o alto de uma montanha e arrancam as próprias garras e o bico. Esperam meses ali, até que voltem a nascer. Assim vivem outros 30 ou 40 anos mais. Hoje, a águia é Cuba. Digo-o porque acabo de ler os Lineamentos para o 6º Congresso do Partido Comunista: a Revolução Cubana tem a capacidade de mover-se criticamente sobre si mesma para sair adiante. Suas redes de educação popular têm muita importância nisso.

Assisti muito de perto a queda do Muro (de Berlim) e hoje muitos se perguntam: como é possível que depois de 70 anos de socialismo, a Rússia seja um país conhecido pela extrema corrupção? Algo não funcionou: o socialismo cometeu ali o erro de construir uma casa nova sem saber fazer novos habitantes. Não se fazem homens e mulheres automaticamente. Os que nascem numa sociedade socialista, não nascem necessariamente socialistas. Todo bebê é um capitalista exemplar: só pensa en si mesmo. O socialismo é o homem político do amor. E o amor é uma produção cultural. Seu objetivo final é criar uma comunidade amorosa entre si e o mundo. Às vezes olvidamos um princípio marxista. Eu, frade, fui professor de marxismo e não é a única contradição de minha vida. O ser humano não é mecânico. Há duas coisas que não podem ser previstas matematicamente: o movimento dos átomos e o comportamento humano.

O trabalho político deve ir para cada um dos homens. Por isso a Revolução Cubana resiste, porque não é uma peruca que vai de cima para baixo, mas um cabelo que cresce de baixo para cima. Aqui houve uma revolução de caráter eminentemente popular. A vitória estratégica, de Fidel, não fala de educação popular; mas se fez.

Termino com uma parábola: havia um homem muito formado ideologicamente, poderoso em seu sistema; mas muito infeliz. Saiu pelo mundo na busca da felicidade. Chegou a um país árabe – onde se dão sempre as boas lendas – e quis comprá-la em seus mercados. Disseram-lhe que essa mercadoria não existia, mas por um jovem soube de uma tenda no deserto onde podia encontrá-la. Saiu em sua caravana de camelos, atravessou o deserto e viu a tenda com um cartaz que dizia: “aqui se encontra a felicidade”. Disse à vendedora: “diga-me quanto custa”. E ela respondeu: “não, senhor, aqui não vendemos felicidade, aqui a damos gratuitamente”. E lhe trouxe uma pequena caixa de fósforos com três pequenas sementes: a semente da solidariedade, a da generosidade e a do companheirismo. “Cultive-as – disse – e será feliz”. Muito obrigado.


Por Frei Beto ao Brasil de Fato

Tendências Alienativas

segunda-feira, 15 de novembro de 2010






A informação transmitida diariamente pelos veículos de comunicação é realmente confiável? Você está sendo mais uma vítima do poder alienativo midiático? Como combater esse fato?


Estamos expostos todos os dias a meios de comunicações diferentes, notícias chegam até nós através de internet, rádio, televisão. Porém, vez ou outra, nos deparamos com um mesmo fato mostrado de forma controversa por dois veículos comunicativos. Isso se deve à parcialidade nas notícias, as emissoras de rádio, de televisão e os grandes sites de notícias são nada menos do que corporações, e, por serem “máquinas em busca do lucro, custe o que custar”, podem facilmente distorcer um fato de forma que favoreça sua fonte de capital (como seus patrocinadores, por exemplo). Faz-se essencial o estabelecimento de uma visão angular por parte de nós, receptores de notícias, de forma que filtremos o conteúdo, lendo mais do que uma fonte, a fim de extrair a verdade das possíveis mentiras e sujeiras que vêm embutidas.


Devemos ser capazes de localizar essa alienação, qualquer seja sua fonte. Hoje, somos expostos “ao que os outros querem que pensemos” de muitas formas, não somente em notícias de fato, mas em filmes, músicas e até videogames. Se analisarmos a quantidade de filmes tendenciosos que subjugam pessoas de religiões, etnias e culturas consideradas diferentes veremos que muitos de nossos pensamentos e opiniões em relação a essas pessoas são errôneos. Filmes como Guerra ao Terror (2009), Impensável (2010) são só alguns dos muitos que nos fazem considerar todos os muçulmanos perigosos e passíveis de repressão. Jogos como Call Of Duty: Black Ops também reforçam a visão negativa que muitos já têm em relação a Cuba. Todos esses retratos expressos nos meios de comunicação são formas de induzir nossos pensamentos a partilhar das mesmas crenças e dos mesmos medos que o mundo capitalista e globalizado. Somos apenas subprodutos do regime conservador.


O combate a essa “lavagem cerebral” torna-se essencial para que não criemos ainda mais medo do desconhecido. Esse combate dá-se pela visão angular, citada anteriormente, que proporciona uma melhor busca da verdade, analisando inteiramente um fato, olhando-o de vários ângulos diferentes a fim de extrair a imparcialidade nos argumentos e criar uma opinião própria a respeito. O início desse processo de libertação das tendências dogmáticas dá-se primeiramente com a educação, que proporcionará aos jovens liberdade de pensamento e expressão; e posteriormente com a leitura e compreensão profunda de notícias que exigirão mais do que olhos para ler, e sim, visão racional.


“Os governos suspeitam da literatura porque é uma força que lhes escapa”. A frase de Emile Zola já nos dá uma idéia do poder que temos em mãos para estabelecer um regime de plena liberdade de pensamento, que quebre os grilhões que nos prendem à vontade de outros.


Luccas M.

Não - Dead Fish


Música: Não
Banda: Dead Fish






Não, não quero ouvir o que você diz
E nem ler as suas regras
Testando minha paciência ao limite de explodir
Eu quero fazer no meu tempo
Chegou minha hora de falar
Cansei de ouvir sua perfeição
Sua higiene me insulta
E seu medo e pudor me fazem rir
É assim, a partir de agora
Poder em minhas mãos

Sim!!
Se a sua voz ainda é mais alta
O que você tem de certo se tornou isso aqui
Sim, o meu caminho é diferente
E sou eu quem vai trilhar

http://www.vagalume.com.br/dead-fish/nao.html#ixzz15MlymTgi

Como cultivar a exclusão social em São Paulo

domingo, 14 de novembro de 2010

Daqui a uma geração, quando estudarem a arquitetura de nossa época, além dos prédios em forma de melancia e dos espigões de aço e vidro azul, outra coisa, menos bonita por certo, chamará a atenção. Temos gasto muito tempo e inventividade para criar formas de excluir do convívio da cidade aqueles para os quais nunca abrimos as portas dos direitos econômicos – e isso não passará despercebido.

Reuni alguns desses métodos informais em forma de manual. Apesar de não estarem publicados e não seguirem padrões da ABNT, existem e fazem vítimas diariamente, ainda mais em noites frias e chuvosas como essas pelas quais estamos passando. Registrar isso serve para lembrar o quanto somos ridículos e ajudar o pessoal que vai nos julgar amanhã. Espero que não tenham dó ou piedade.

1) Áreas cobertas em viadutos, pontes, túneis ou quaisquer locais públicos que possam receber casas imaginárias do povo de rua devem ser preenchidas com concreto. A face superiora não deve ficar paralela à rua, mas com inclinação suficiente para que um corpo sem-teto nela estendido e prostrado de cansaço e sono role feito um pacote de carne velha até o chão.
1.1) Outra opção, caso seja impossível uma inclinação acentuada, é o uso de floreiras, cacos de vidro ou lanças de metal. É menos discreto, mas tem o mesmo resultado.

2) Prédios novos devem ser construídos sem marquises para impossibilitar o acúmulo de sem-teto em noites chuvosas.

2.1) Caso seja impossível por determinações estéticas do arquiteto, a alternativa é murar o edifício ou cercá-lo. A colocação de seguranças armados é outra possibilidade, caso haja recursos para tanto.

2.2) Em caso de prédios mais antigos, uma saída encontrada por um edifício na região central de São Paulo e que pode ser tomada como modelo é a colocação de uma mangueira furada no texto, emulando a função de sprinklers. Acionada de tempos em tempos, expulsa desocupados e usuários de drogas. Além disso, como deixa o chão da calçada constatemente molhado, espanta também possíveis moradores de rua que queiram tirar uma soneca por lá.

3) Bancos de praça devem receber estruturas que os separem em três assentos independentes. Apesar disso impossibilitar a vida de casais apaixonados ou de reencontros de amigos distantes, fará com que sem-teto não durmam nesses aparelhos públicos.

4) Em regiões com alta incidência de seres indesejáveis, recomenda-se o avanço de grades e muros para além do limite registrado na prefeitura, diminuindo ao máximo o tamanho da calçada. Como é uma questão de segurança, o fiscal pode “se fazer entender” da importância de manter a estrutura como está.

5) Cloro deve ser lançado nos locais de permanência de sem-teto, principalmente nas noites frias, para garantir que eles não façam suas necessidades básicas no local. Caso não seja suficiente, talvez seja necessária a utilização de produtos químicos mais fortes vendidos em lojas do ramo, como vem fazendo algumas lojas no Centro da cidade. A sugestão é o uso de um aspersor conforme o item 2.2, mas instalado no chão.

Já que não se encontra solução para um problema, encobre-se. É mais fácil que implantar políticas de moradia eficazes – como uma reforma urbana que pegue as centenas de milhares de imóveis fechados para especulação e destine a quem não tem nada. Ou repensar a política pública para usuários de drogas, hoje baseada em um tripé de punição, preconceito e exclusão e, portanto, ineficaz. Muitos vêem os dependentes químicos como lixo da sociedade e estorvo ao invés de entender que lá há um problema de saúde pública. As obras que estão revitalizando (sic) a região chamada de Cracolândia, têm expulsado os moradores da região – para outros locais, como a Barra Funda e Santa Cecília. Contanto que fiquem longe dos concertos da Sala São Paulo, do acervo do Museu da Língua Portuguesa e das exposições Estação Pinacoteca uó-te-mo.

Melhor tirar da vista do que aceitar que, se há pessoas que querem viver no espaço público por algum motivo, elas têm direito a isso. A cidade também é deles, por mais que doa ao senso estético ou moral de alguém. Ou crie pânico para quem acha que isso é uma afronta à segurança pública e aos bons costumes. Em vez disso, são enxotados ou mortos a pauladas (sem que ninguém nunca seja punido por isso) para limpar a urbe para os cidadãos de bem.

PS: Recado à turma que entalou um “tá com dó leva para casa” na garganta: cresçam.


Fonte: Blog do Sakamoto, Jornalista e Doutor em Ciência Política.

Resenha de A Parábola do Cágado Velho.

sábado, 13 de novembro de 2010



A Parábola do Cágado Velho, de Pepetela.


A estória se passa na atual África, em Angola. Ulume vive em um kimbo (aldeia) com sua primeira mulher Muari e seus dois filhos Luzolo, o mais velho, e Kanda. Ulume acredita que um cágado(I) velho que habita as proximidades de sua aldeia possui uma sabedoria especial e superior.


Pouco tempo depois, inicia-se uma guerra civil, que acaba por trazer miséria à aldeia onde Ulume morava. Desesperado, ele e sua família desejam se mudar para um local afastado (Vale da Paz), onde todo sofrimento proveniente da guerra não os atinja. Nesse contexto, seus dois filhos tomam partidos em lados opostos na guerra, virando combatentes e inimigos.


Ulume acaba conhecendo Munazaki, uma jovem por quem se atrai. Após se apaixonar por ela e vê-la antes de sua morte num sonho(II), a pede em casamento(III).


Munazaki e os filhos de Ulume são contra o casamento (acreditam em direitos iguais entre homens e mulheres, oposto com o que regiam as tradições angolanas). Porém, após negar o pedido, ela vê a depressão se abatendo em Ulume e aceita. A nova família se muda para o Vale da Paz


Certo dia Luzolo retorna para casa, sem armas, anunciando o fim da guerra. Ulume procura Kanda esperando reunir a família, porém, o filho mais novo acredita na continuidade da guerra e se mantém em seu posto.


Certo dia Munazaki some, só tornando a aparecer depois de anos, e ao retornar, admite que fugira em busca de Kanda e de Calpe (cidade fictícia dos sonhos, moderna). Porém, falhara em seu caminho, fora violentada, feita de escrava, perdera sua juventude. Pensava apenas em voltar para o lugar onde realmente a amavam.


Ela pede perdão a Ulume, que fica dividido em aceitar (e ser desonrado perante as tradições), ou seguir seus costumes, renegando-a. Contudo, ele pensa que se aceitá-la, pode acabar fazendo seus filhos se reaproximarem, e adotarem tal gesto de perdão entre eles também. Então, a fim de solucionar essa problemática, ele procura o cágado.


“O cágado olha para ele e confirma três vezes com a cabeça, numa clara aceitação. Com a aquiescência do cágado, Ulume decide perdoar. Esta decisão entre seu peito de esperança. Uma esperança que brilha como uma estrela no céu.”


(I) Os cágados são répteis da Ordem Testudinata (a mesma das tartarugas), da família Chelidae.

(II) Nas tradições do povo angolano, se em sonho em que você estiver prestes a morrer acabar vendo a imagem de uma mulher, deve casar-se com ela.

(III) O casamento com mais de uma mulher é permitido segundo os costumes angolanos mais tradicionais.



___________


Análise:


Após a leitura, torna-se perceptível o tom simbolista dado por Pepetela, sua preocupação filosófica e existencial cria um conectivo entre as tradições passadas de Angola, e as novas regras do mundo moderno.


Ao mesmo tempo em que há o embate entre tais conceitos relativamente opostos, há também a miscigenação deles. As metáforas e a presença de um animal sábio deixam claras as dúvidas e incertezas do homem em suas ações. Não há uma verdade absoluta, nem uma certeza inquestionável mesmo com todo o tradicionalismo da sociedade, as atitudes das personagens exemplificam valores existentes e aqueles que estão se perdendo atualmente. O fato de uma guerra dividir uma família pode simbolizar o fato de características étnicas, religiosas, políticas dividirem um país e criarem um confronto, por exemplo.


O uso das tradições só deixa transparecer o forte patriotismo de Pepetela. A aglutinação entre o “velho” e o “novo” relata nada mais do que a atual situação do país (e porque não do mundo), em que o alto número de migrações acaba por miscigenar ainda mais os povos, colocando de lado grupos étnicos determinados, e criando uma identidade única: a humana.


Em sua obra, Pepetela incita o leitor a pensar na sociedade, instiga o raciocínio que reflita sobre morais e valores essenciais para a boa vivência em qualquer lugar e que hoje, podem estar sendo perdidos. A obra demonstra como a maldade e a ganância do homem podem destruir não só paisagens, mas também famílias. Além de deixar claro ao leitor o quão importante é o pensamento coletivo, e como se faz necessário em tempos de individualismo e exaltação material.


O desfecho cria uma pontada de esperança, mostrando que a mudança pode acontecer, e que a bondade dos homens pode se sobrepor a toda agonia causada por alguns grupos. A sobreposição do “nós” em relação ao “eu” depende apenas da compaixão.


Luccas M.

É preferível não saber do que ter a certeza dogmática

Vivemos num mundo onde a certeza prevalece. Uma certeza infundada, baseada em preceitos que apenas aquele que a carrega sabe de onde vem.

As certezas porém não são mais pessoais, elas transpassam os lares e o exemplo mais recente disso esteve presente nas eleições presidenciais. As certezas vão desde assuntos irrelevantes para os não envolvidos, como casamento gay, e vão até os preconceitos de que a grande âncora do Brasil é a região do nordeste.

Concordo que na democracia é saudável que tenhamos opiniões diferentes porém, voltando à pauta dos debates, a falta de discussão não nos leva a lugar algum. Enquanto pessoas lutam por seus direitos ainda não resguardados pelo Estado, outras pessoas baseadas em argumentos infundados não querem nem ao menos colocar em discussão. Como um defensor de mudanças não tão populares, como a legalização da maconha, eu já estive muitas vezes em situações incomodas justamente por me deparar com pessoas que carregam a suposta verdade. Aliás, nada me deixa mais desanimado do que entrar em conflito com alguém que não aceita debater qualquer que seja o assunto, se a verdade é tão clara na mente dessas pessoas, porque elas não se predispõem a levar essa verdade através de uma discussão saudável? Infelizmente a solução parece ser outra, não discutir. Afirmar para si mesmo que a verdade você já sabe e que a pessoa é obrigada a engolir.

Eu me pergunto como essas pessoas conseguem olhar pra história da humanidade, para o atual mundo globalizado e dizer que ela e sua crença, ou sua ideologia, são a resposta pra toda e qualquer questão do mundo. Pois bem, apesar da extrema ignorância esse nem é o ponto principal, o grande problema é que a verdade não é aplicável somente a ela, ela deve ser levada ao mundo, então quando temos debates como o do casamento gay, alguém do outro lado da cidade está indo contra um problema que deve ser exclusivamente seu. Afinal o fato de duas pessoas do mesmo sexo morarem juntas com ou sem um contrato de comunhão de bens vai realmente fazer alguma diferença na minha vida?

Um problema como esse numa democracia é quase que surreal, porém é a nossa realidade. Clamo àqueles que chegaram nessa parte do texto, que tentem ser mais abertos, que estejam sempre dispostos a discutir, apesar do título não peço que discutam assuntos como Deus ou qual religião seguir, mas que saibam discutir assuntos corriqueiros sem que tenham como premissa a sua verdade universal. É por essas e outras que, assim como Raul Seixas, "prefiro ser essa metamorfose ambulante", para não me prender a conceitos e seguir mudando, pois sei que por mais que eu acredite em algo, não sei de tudo, e estar disposto a discutir quem sabe possa nos levar a uma vida de aprendizagem.


Paulo Souza, 13/11/10

O preconceito dos esnobes

O racismo é um dos sub-produtos da campanha presidencial. O baixo nivel que marcou o fim do primeiro turno deixou sequelas variadas após a vitória de Dilma Rousseff.

Uma das sequelas é o racismo, que renasce no país como um consolo para derrotados. Quem não gostou da vitória de Dilma tenta argumentar que os eleitores que decidiram o pleito não tinham condições reais de votar, não sabiam qual o verdadeiro debate da campanha nem as consequencias de sua decisão.

Uma primeira manifestação deste espírito regressivo foi de puro baixo nível, simbolizado pela estudante paulista que defendeu o assassinato de nordestinos.
Nos últimos dias, entramos numa segunda fase, que procurava garantir a sobrevivência do preconceito de forma menos primária e até com pretensões ideológicas. Puro esnobismo — disfarçado de alguma erudição.

Já li que a culpa pelo recrudescimento do preconceito contra nordestinos é responsabilidade do presidente Lula. Não se sei a razão mas posso imaginar. Ao longo da história, sempre foi mais fácil culpar negros e judeus pelo tratamento discriminatório a que eram submetidos. Dizia-se que os negros só gostavavam de samba e futebol. Já os judeus seriam exclusivistas e fechados entre si. Enquanto isso, nossos indígenas seriam preguiçosos e incapazes para o trabalho…

Lula talvez possa ser responsabilizado pelo retorno do preconceito porque é pernambucano de nascimento e determinadas pessoas não se conformem que um cidadão com sua origem possa desfrutar de tanto prestígio e popularidade — a maior da nossa história, vejam só.

Ou talvez porque, sob seu governo, a distância entre a miséria nordestina e o quadro social de outras regiões do país tenha diminuído. Pessoas habituadas a viver “por cima da carne seca” podem sentir-se menos confortáveis no novo cardápio social do país e acusam o governo de tratá-las de forma desigual e até humilhante.

Imagine que uma leitora chegou a dizer, no twitter, que Lula estimulava o preconceito contra nordestinos porque pregava a luta de classes. Prova de que ainda tem gente que acredita tanto em estereótipos preconceituosos que não sabia que existem nordestinos milionários, com empresas gigantescas e modernas, que nada ficam a dever a similares do Sul.

Outra manifestação desse mesmo patamar saiu hoje na Folha. Um articulalista escreve assim: “Sou preconceituoso. E daí?”

Numa demonstração de interesse em reforçar preconceitos mesmo com apoio de falsidades, o artigo alimenta o estereótipo dos ignorantes e desinformados, sustentando que os nordestinos decidiram a eleição de 2010. A função oculta desta frase, aparentemente informativa, é colocar os votos do Nordeste sob suspeita, como mercadoria de segunda classe.

Mas olha a crueldade: os números do TSE informam que Dilma Rousseff teria sido vitoriosa mesmo sem os votos daquela região do país. É duro jogar com a mentira.

Em outros parágrafos, o texto amplia o preconceito. Sem prender-se a uma região específica do país, seu alvo são todos os brasileiros humildes, com pouca instrução formal. Para critícá-los, o artigo emprega termos depreciativos e imagens negativas, sustentando que são cidadãos que padecem daquele defeito de não saber votar, o mesmo que Pelé lembrou no passado para explicar porque a ditadura militar não realizava eleições diretas para presidente.

Sem respeito nem pudor, este eleitor é descrito como um sujeito indolente, que não conhece o nome dos candidatos nem sabe o que está em jogo na eleição. É criticado porque não presta atenção no horário político e esquece o nome dos deputados em quem votou meses depois de ir à urna.

Seria apenas vergonhoso se não fosse coerente. Assumidamente preconceituoso em relação à maioria dos cidadãos brasileiros, o texto aponta como modelo para os dramas de países em desenvolvimento as idéias que o Chile adotou durante o regime do general Augusto Pinochet.

Questão de coerência. Num texto que demonstra tão pouco apreço pelo voto popular e pelo caráter universal das democracias — onde todos os votos são iguais, sem distinção de renda, cor, educação ou origem — faz sentido valorizar um regime que se notabilizou pela perseguição e execução de seus adversários. Em vez de valorizar o voto e o eleitor, o texto valoriza um regime que praticava a violência, as execuções e a tortura numa escala nunca vista no Continente.

Já deu para entender para onde leva o preconceito, não?


Por Paulo Moreira Leite à Revista Época

 

2009 ·Axis of Justice by TNB