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Como cultivar a exclusão social em São Paulo

domingo, 14 de novembro de 2010

Daqui a uma geração, quando estudarem a arquitetura de nossa época, além dos prédios em forma de melancia e dos espigões de aço e vidro azul, outra coisa, menos bonita por certo, chamará a atenção. Temos gasto muito tempo e inventividade para criar formas de excluir do convívio da cidade aqueles para os quais nunca abrimos as portas dos direitos econômicos – e isso não passará despercebido.

Reuni alguns desses métodos informais em forma de manual. Apesar de não estarem publicados e não seguirem padrões da ABNT, existem e fazem vítimas diariamente, ainda mais em noites frias e chuvosas como essas pelas quais estamos passando. Registrar isso serve para lembrar o quanto somos ridículos e ajudar o pessoal que vai nos julgar amanhã. Espero que não tenham dó ou piedade.

1) Áreas cobertas em viadutos, pontes, túneis ou quaisquer locais públicos que possam receber casas imaginárias do povo de rua devem ser preenchidas com concreto. A face superiora não deve ficar paralela à rua, mas com inclinação suficiente para que um corpo sem-teto nela estendido e prostrado de cansaço e sono role feito um pacote de carne velha até o chão.
1.1) Outra opção, caso seja impossível uma inclinação acentuada, é o uso de floreiras, cacos de vidro ou lanças de metal. É menos discreto, mas tem o mesmo resultado.

2) Prédios novos devem ser construídos sem marquises para impossibilitar o acúmulo de sem-teto em noites chuvosas.

2.1) Caso seja impossível por determinações estéticas do arquiteto, a alternativa é murar o edifício ou cercá-lo. A colocação de seguranças armados é outra possibilidade, caso haja recursos para tanto.

2.2) Em caso de prédios mais antigos, uma saída encontrada por um edifício na região central de São Paulo e que pode ser tomada como modelo é a colocação de uma mangueira furada no texto, emulando a função de sprinklers. Acionada de tempos em tempos, expulsa desocupados e usuários de drogas. Além disso, como deixa o chão da calçada constatemente molhado, espanta também possíveis moradores de rua que queiram tirar uma soneca por lá.

3) Bancos de praça devem receber estruturas que os separem em três assentos independentes. Apesar disso impossibilitar a vida de casais apaixonados ou de reencontros de amigos distantes, fará com que sem-teto não durmam nesses aparelhos públicos.

4) Em regiões com alta incidência de seres indesejáveis, recomenda-se o avanço de grades e muros para além do limite registrado na prefeitura, diminuindo ao máximo o tamanho da calçada. Como é uma questão de segurança, o fiscal pode “se fazer entender” da importância de manter a estrutura como está.

5) Cloro deve ser lançado nos locais de permanência de sem-teto, principalmente nas noites frias, para garantir que eles não façam suas necessidades básicas no local. Caso não seja suficiente, talvez seja necessária a utilização de produtos químicos mais fortes vendidos em lojas do ramo, como vem fazendo algumas lojas no Centro da cidade. A sugestão é o uso de um aspersor conforme o item 2.2, mas instalado no chão.

Já que não se encontra solução para um problema, encobre-se. É mais fácil que implantar políticas de moradia eficazes – como uma reforma urbana que pegue as centenas de milhares de imóveis fechados para especulação e destine a quem não tem nada. Ou repensar a política pública para usuários de drogas, hoje baseada em um tripé de punição, preconceito e exclusão e, portanto, ineficaz. Muitos vêem os dependentes químicos como lixo da sociedade e estorvo ao invés de entender que lá há um problema de saúde pública. As obras que estão revitalizando (sic) a região chamada de Cracolândia, têm expulsado os moradores da região – para outros locais, como a Barra Funda e Santa Cecília. Contanto que fiquem longe dos concertos da Sala São Paulo, do acervo do Museu da Língua Portuguesa e das exposições Estação Pinacoteca uó-te-mo.

Melhor tirar da vista do que aceitar que, se há pessoas que querem viver no espaço público por algum motivo, elas têm direito a isso. A cidade também é deles, por mais que doa ao senso estético ou moral de alguém. Ou crie pânico para quem acha que isso é uma afronta à segurança pública e aos bons costumes. Em vez disso, são enxotados ou mortos a pauladas (sem que ninguém nunca seja punido por isso) para limpar a urbe para os cidadãos de bem.

PS: Recado à turma que entalou um “tá com dó leva para casa” na garganta: cresçam.


Fonte: Blog do Sakamoto, Jornalista e Doutor em Ciência Política.

Resenha de A Parábola do Cágado Velho.

sábado, 13 de novembro de 2010



A Parábola do Cágado Velho, de Pepetela.


A estória se passa na atual África, em Angola. Ulume vive em um kimbo (aldeia) com sua primeira mulher Muari e seus dois filhos Luzolo, o mais velho, e Kanda. Ulume acredita que um cágado(I) velho que habita as proximidades de sua aldeia possui uma sabedoria especial e superior.


Pouco tempo depois, inicia-se uma guerra civil, que acaba por trazer miséria à aldeia onde Ulume morava. Desesperado, ele e sua família desejam se mudar para um local afastado (Vale da Paz), onde todo sofrimento proveniente da guerra não os atinja. Nesse contexto, seus dois filhos tomam partidos em lados opostos na guerra, virando combatentes e inimigos.


Ulume acaba conhecendo Munazaki, uma jovem por quem se atrai. Após se apaixonar por ela e vê-la antes de sua morte num sonho(II), a pede em casamento(III).


Munazaki e os filhos de Ulume são contra o casamento (acreditam em direitos iguais entre homens e mulheres, oposto com o que regiam as tradições angolanas). Porém, após negar o pedido, ela vê a depressão se abatendo em Ulume e aceita. A nova família se muda para o Vale da Paz


Certo dia Luzolo retorna para casa, sem armas, anunciando o fim da guerra. Ulume procura Kanda esperando reunir a família, porém, o filho mais novo acredita na continuidade da guerra e se mantém em seu posto.


Certo dia Munazaki some, só tornando a aparecer depois de anos, e ao retornar, admite que fugira em busca de Kanda e de Calpe (cidade fictícia dos sonhos, moderna). Porém, falhara em seu caminho, fora violentada, feita de escrava, perdera sua juventude. Pensava apenas em voltar para o lugar onde realmente a amavam.


Ela pede perdão a Ulume, que fica dividido em aceitar (e ser desonrado perante as tradições), ou seguir seus costumes, renegando-a. Contudo, ele pensa que se aceitá-la, pode acabar fazendo seus filhos se reaproximarem, e adotarem tal gesto de perdão entre eles também. Então, a fim de solucionar essa problemática, ele procura o cágado.


“O cágado olha para ele e confirma três vezes com a cabeça, numa clara aceitação. Com a aquiescência do cágado, Ulume decide perdoar. Esta decisão entre seu peito de esperança. Uma esperança que brilha como uma estrela no céu.”


(I) Os cágados são répteis da Ordem Testudinata (a mesma das tartarugas), da família Chelidae.

(II) Nas tradições do povo angolano, se em sonho em que você estiver prestes a morrer acabar vendo a imagem de uma mulher, deve casar-se com ela.

(III) O casamento com mais de uma mulher é permitido segundo os costumes angolanos mais tradicionais.



___________


Análise:


Após a leitura, torna-se perceptível o tom simbolista dado por Pepetela, sua preocupação filosófica e existencial cria um conectivo entre as tradições passadas de Angola, e as novas regras do mundo moderno.


Ao mesmo tempo em que há o embate entre tais conceitos relativamente opostos, há também a miscigenação deles. As metáforas e a presença de um animal sábio deixam claras as dúvidas e incertezas do homem em suas ações. Não há uma verdade absoluta, nem uma certeza inquestionável mesmo com todo o tradicionalismo da sociedade, as atitudes das personagens exemplificam valores existentes e aqueles que estão se perdendo atualmente. O fato de uma guerra dividir uma família pode simbolizar o fato de características étnicas, religiosas, políticas dividirem um país e criarem um confronto, por exemplo.


O uso das tradições só deixa transparecer o forte patriotismo de Pepetela. A aglutinação entre o “velho” e o “novo” relata nada mais do que a atual situação do país (e porque não do mundo), em que o alto número de migrações acaba por miscigenar ainda mais os povos, colocando de lado grupos étnicos determinados, e criando uma identidade única: a humana.


Em sua obra, Pepetela incita o leitor a pensar na sociedade, instiga o raciocínio que reflita sobre morais e valores essenciais para a boa vivência em qualquer lugar e que hoje, podem estar sendo perdidos. A obra demonstra como a maldade e a ganância do homem podem destruir não só paisagens, mas também famílias. Além de deixar claro ao leitor o quão importante é o pensamento coletivo, e como se faz necessário em tempos de individualismo e exaltação material.


O desfecho cria uma pontada de esperança, mostrando que a mudança pode acontecer, e que a bondade dos homens pode se sobrepor a toda agonia causada por alguns grupos. A sobreposição do “nós” em relação ao “eu” depende apenas da compaixão.


Luccas M.

É preferível não saber do que ter a certeza dogmática

Vivemos num mundo onde a certeza prevalece. Uma certeza infundada, baseada em preceitos que apenas aquele que a carrega sabe de onde vem.

As certezas porém não são mais pessoais, elas transpassam os lares e o exemplo mais recente disso esteve presente nas eleições presidenciais. As certezas vão desde assuntos irrelevantes para os não envolvidos, como casamento gay, e vão até os preconceitos de que a grande âncora do Brasil é a região do nordeste.

Concordo que na democracia é saudável que tenhamos opiniões diferentes porém, voltando à pauta dos debates, a falta de discussão não nos leva a lugar algum. Enquanto pessoas lutam por seus direitos ainda não resguardados pelo Estado, outras pessoas baseadas em argumentos infundados não querem nem ao menos colocar em discussão. Como um defensor de mudanças não tão populares, como a legalização da maconha, eu já estive muitas vezes em situações incomodas justamente por me deparar com pessoas que carregam a suposta verdade. Aliás, nada me deixa mais desanimado do que entrar em conflito com alguém que não aceita debater qualquer que seja o assunto, se a verdade é tão clara na mente dessas pessoas, porque elas não se predispõem a levar essa verdade através de uma discussão saudável? Infelizmente a solução parece ser outra, não discutir. Afirmar para si mesmo que a verdade você já sabe e que a pessoa é obrigada a engolir.

Eu me pergunto como essas pessoas conseguem olhar pra história da humanidade, para o atual mundo globalizado e dizer que ela e sua crença, ou sua ideologia, são a resposta pra toda e qualquer questão do mundo. Pois bem, apesar da extrema ignorância esse nem é o ponto principal, o grande problema é que a verdade não é aplicável somente a ela, ela deve ser levada ao mundo, então quando temos debates como o do casamento gay, alguém do outro lado da cidade está indo contra um problema que deve ser exclusivamente seu. Afinal o fato de duas pessoas do mesmo sexo morarem juntas com ou sem um contrato de comunhão de bens vai realmente fazer alguma diferença na minha vida?

Um problema como esse numa democracia é quase que surreal, porém é a nossa realidade. Clamo àqueles que chegaram nessa parte do texto, que tentem ser mais abertos, que estejam sempre dispostos a discutir, apesar do título não peço que discutam assuntos como Deus ou qual religião seguir, mas que saibam discutir assuntos corriqueiros sem que tenham como premissa a sua verdade universal. É por essas e outras que, assim como Raul Seixas, "prefiro ser essa metamorfose ambulante", para não me prender a conceitos e seguir mudando, pois sei que por mais que eu acredite em algo, não sei de tudo, e estar disposto a discutir quem sabe possa nos levar a uma vida de aprendizagem.


Paulo Souza, 13/11/10

O preconceito dos esnobes

O racismo é um dos sub-produtos da campanha presidencial. O baixo nivel que marcou o fim do primeiro turno deixou sequelas variadas após a vitória de Dilma Rousseff.

Uma das sequelas é o racismo, que renasce no país como um consolo para derrotados. Quem não gostou da vitória de Dilma tenta argumentar que os eleitores que decidiram o pleito não tinham condições reais de votar, não sabiam qual o verdadeiro debate da campanha nem as consequencias de sua decisão.

Uma primeira manifestação deste espírito regressivo foi de puro baixo nível, simbolizado pela estudante paulista que defendeu o assassinato de nordestinos.
Nos últimos dias, entramos numa segunda fase, que procurava garantir a sobrevivência do preconceito de forma menos primária e até com pretensões ideológicas. Puro esnobismo — disfarçado de alguma erudição.

Já li que a culpa pelo recrudescimento do preconceito contra nordestinos é responsabilidade do presidente Lula. Não se sei a razão mas posso imaginar. Ao longo da história, sempre foi mais fácil culpar negros e judeus pelo tratamento discriminatório a que eram submetidos. Dizia-se que os negros só gostavavam de samba e futebol. Já os judeus seriam exclusivistas e fechados entre si. Enquanto isso, nossos indígenas seriam preguiçosos e incapazes para o trabalho…

Lula talvez possa ser responsabilizado pelo retorno do preconceito porque é pernambucano de nascimento e determinadas pessoas não se conformem que um cidadão com sua origem possa desfrutar de tanto prestígio e popularidade — a maior da nossa história, vejam só.

Ou talvez porque, sob seu governo, a distância entre a miséria nordestina e o quadro social de outras regiões do país tenha diminuído. Pessoas habituadas a viver “por cima da carne seca” podem sentir-se menos confortáveis no novo cardápio social do país e acusam o governo de tratá-las de forma desigual e até humilhante.

Imagine que uma leitora chegou a dizer, no twitter, que Lula estimulava o preconceito contra nordestinos porque pregava a luta de classes. Prova de que ainda tem gente que acredita tanto em estereótipos preconceituosos que não sabia que existem nordestinos milionários, com empresas gigantescas e modernas, que nada ficam a dever a similares do Sul.

Outra manifestação desse mesmo patamar saiu hoje na Folha. Um articulalista escreve assim: “Sou preconceituoso. E daí?”

Numa demonstração de interesse em reforçar preconceitos mesmo com apoio de falsidades, o artigo alimenta o estereótipo dos ignorantes e desinformados, sustentando que os nordestinos decidiram a eleição de 2010. A função oculta desta frase, aparentemente informativa, é colocar os votos do Nordeste sob suspeita, como mercadoria de segunda classe.

Mas olha a crueldade: os números do TSE informam que Dilma Rousseff teria sido vitoriosa mesmo sem os votos daquela região do país. É duro jogar com a mentira.

Em outros parágrafos, o texto amplia o preconceito. Sem prender-se a uma região específica do país, seu alvo são todos os brasileiros humildes, com pouca instrução formal. Para critícá-los, o artigo emprega termos depreciativos e imagens negativas, sustentando que são cidadãos que padecem daquele defeito de não saber votar, o mesmo que Pelé lembrou no passado para explicar porque a ditadura militar não realizava eleições diretas para presidente.

Sem respeito nem pudor, este eleitor é descrito como um sujeito indolente, que não conhece o nome dos candidatos nem sabe o que está em jogo na eleição. É criticado porque não presta atenção no horário político e esquece o nome dos deputados em quem votou meses depois de ir à urna.

Seria apenas vergonhoso se não fosse coerente. Assumidamente preconceituoso em relação à maioria dos cidadãos brasileiros, o texto aponta como modelo para os dramas de países em desenvolvimento as idéias que o Chile adotou durante o regime do general Augusto Pinochet.

Questão de coerência. Num texto que demonstra tão pouco apreço pelo voto popular e pelo caráter universal das democracias — onde todos os votos são iguais, sem distinção de renda, cor, educação ou origem — faz sentido valorizar um regime que se notabilizou pela perseguição e execução de seus adversários. Em vez de valorizar o voto e o eleitor, o texto valoriza um regime que praticava a violência, as execuções e a tortura numa escala nunca vista no Continente.

Já deu para entender para onde leva o preconceito, não?


Por Paulo Moreira Leite à Revista Época

Como uma pessoa livre se torna escrava

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"Quando eu cheguei aqui, a coisa era muito diferente do que havia sido prometido."

Trabalhador resgatado da escravidão em fazenda de Eldorado dos Carajás, Pará

Nos últimos tempos, uma praga atingiu as fazendas de cacau onde Uexlei Pereira trabalhava no Sul da Bahia, deixando muita gente sem serviço. Aliciado por um "gato", saiu de sua cidade, Ibirapitanga, com a oferta de um bom salário, alimentação e condições dignas de alojamento. No Sul do Pará, Uexlei percebeu que havia sido enganado. Quando foi resgatado, recebia havia dois meses só a comida. Não tinha idéia de quanto devia ao gato, conhecido como Baiano, e nem quando iria receber. A sua história não é diferente da dos demais trabalhadores que fogem do desemprego para cair na rede da escravidão. Abaixo, estão detalhados oito passos que transformam um homem livre em um escravo, padrão que pode sofrer variações dependendo da situação e do local, mas que se repete com freqüência.


1) Ao ouvir rumores de que existe serviço farto em fazendas, mesmo em terras distantes, o trabalhador ruma para esses locais. O Tocantins e a região Nordeste, tendo à frente os Estados do Maranhão e Piauí, são grandes fornecedores de mão-de-obra.

2) Alguns vão espontaneamente. Outros são aliciados por "gatos" (contratadores de mão-de-obra a serviço do fazendeiro). Estes, muitas vezes, vêm buscá-los de ônibus, de caminhão - o velho pau-de-arara - ou, para fugir da fiscalização da Polícia Rodoviária Federal, pagam passagens para os trabalhadores em ônibus ou trens de linha.

3) O destino principal é a região de expansão agrícola, onde a floresta amazônica tomba diariamente para dar lugar a pastos e plantações. Os estados do Pará e Mato Grosso são os campeões em resgates de trabalhadores pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

4) Há os "peões do trecho" que deixaram sua terra um dia e, sem residência fixa, vão de trecho em trecho, de um canto a outro em busca de trabalho. Nos chamados "hotéis peoneiros", onde se hospedam à espera de serviço, são encontrados pelos gatos, que "compram" suas dívidas e os levam às fazendas. A partir daí, os peões tornam-se seus devedores e devem trabalhar para abater o saldo. Alguns seguem contrariados, por estarem sendo negociados. Mas há os que vão felizes, pois acreditam ter conseguido um emprego que possibilitará honrar seus compromissos e ganhar dinheiro.

5) Já na chegada, o peão vê que a realidade é bem diferente. A dívida que tem por conta do transporte aumentará em um ritmo crescente, uma vez que o material de trabalho pessoal, como botas, é comprado na cantina do próprio gato, do dono da fazenda ou de alguém indicado por eles. Os gastos com refeições, remédios, pilhas ou cigarros vão sendo anotados em um "caderninho", e o que é cobrado por um produto dificilmente será o seu preço real. Um par de chinelos pode custar o triplo. Além disso, é costume do gato não informar o montante, só anotar. Uma foice, que é um instrumento de trabalho e, portanto, deveria ser fornecido gratuitamente pelo empregador, já foi comprada por um peão por R$ 12,00 do gato. O equipamento mínimo de segurança também não costuma existir.

6) Após meses de serviço, o trabalhador não vê nada de dinheiro. Sob a promessa de que vai receber tudo no final, ele continua a derrubar a mata, aplicar veneno, erguer cercas, catar raízes e outras atividades agropecuárias, sempre em situações degradantes e insalubres. Cobra-se pelo uso de alojamentos sem condições de higiene.

7) No dia do pagamento, a dívida do trabalhador é maior do que o total que ele teria a receber. O acordo verbal com o gato também costuma ser quebrado, e o peão ganha um valor bem menor que o combinado inicialmente. Ao final, quem trabalhou meses sem receber nada acaba devedor do gato e do dono da fazenda e tem de continuar a suar para quitar a dívida. Ameaças psicológicas, força física e armas também podem ser usadas para mantê-lo no serviço.


O coração do jovem idealista

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Dizem que com o passar dos anos todas aquelas ideias revolucionarias e todo o sentimento de justiça que carregam os jovens no peito passa a se apagar. Se isso é verdade ou não eu não sei, só sei que até agora vivenciei o contrário.

Enquanto estudo e me aprofundo em teorias político-econômicas na faculdade, meu sentimento de que o certo esta muito longe do que vivemos e que uma mudança radical é necessária só aumenta. Sempre evitei ser taxado de marxista, comunista ou qualquer derivado, mas devo confessar que quanto mais eu aprendo a respeito do filosofo Karl Marx, mas eu me apaixono por suas ideias, não no sentido de que tudo o que ele disse deve ser decretado como lei, e sim na maneira como ele desmontou todo o sistema capitalista e, a sociedade em geral, em sua teoria.

Sempre fugi dessas conotações, por diversas razões, mas a principal é o sentido pejorativo que tem hoje a palavra comunista. Infelizmente a história não faz jus ao pensamento de Karl Marx que, assim como a sociedade liberal pensada por outros, nunca foi realmente implementado.

Enfim, voltando ao foco do texto, não desejo ser hipócrita Quando leio pensadores como Karl Marx, Rousseau, ou até mesmo alguns liberais, tenho o sentimento e a esperança de que tudo isso que foi teorizado poderia ser colocado em prática, e com o tempo esse sentimento só aumenta. Porém o que me desanima, a única coisa que me desilude, são os homens. A sociedade alienada chegou a um ponto em que verdades e mentiras se confundem, onde o conformismo prevalece e tentam apagar a chama do coração revolucionário antes mesmo que ela acenda.

Por isso eu continuo perseverante, não pelos homens que se curvam facilmente perante seu carrasco, mas por saber que ao deixar de lado minhas aspirações por mudanças estarei eu também me juntando ao rebanho, e isso eu jamais ousarei fazer.



Paulo Souza, 08/11/2010


A vida ou o dinheiro

A economia e o dinheiro como seu instrumento deveriam servir para que as pessoas vivam dignamente e o mundo possa se tornar mais passível de convivência e familiar para todos os seres humanos. O sentido do termo grego economia significa a “boa administração da casa”. Para a humanidade, a casa é o planeta Terra. Para cada pessoa, a casa é o seu corpo, a ser alimentado e cuidado, assim como sua comunidade familiar e social. Em um mundo globalizado, a casa da humanidade é cada vez mais a sociedade internacional. Quando a economia de um país ou sociedade é alheia ou até contrária à preocupação com a vida das pessoas e até dos outros seres vivos, é sinal de que esta sociedade enlouqueceu. É como se a própria organização do mundo se transformasse em um assaltante que aponta uma arma à sua vítima e grita: “O dinheiro ou a vida!”.

Há poucos dias, o mundo inteiro viu com emoção as operações bem sucedidas de salvamento dos 33 mineiros soterrados em uma mina no Chile. Parecia um milagre ver aqueles trabalhadores pobres e indefesos saírem vivos, depois de terem resistido 69 dias soterrados na mina que desabou. Um perdeu uma perna. Outros precisaram ser hospitalizados e outros ainda, acompanhados psicologicamente, mas a operação de salvamento, coordenada pelo governo chileno, foi considerada uma grande vitória. Entretanto, poucos se perguntaram pelas causas mais profundas daquele acidente e se ele poderia ter sido evitado. A Folha de São Paulo publicou: “conforme declaração do representante do sindicato dos mineiros, o governo chileno sabia do risco e das condições de insegurança daquele trabalho e preferiu não fechar a mina por motivos econômicos”. Ao mesmo tempo, jornais internacionais publicaram: “Um estudo do banco suiço Ubs revela que, em todo o mundo, os trabalhadores que têm horários de trabalho mais prolongados e pesados são os do Chile. Em Santiago, os operários mais pobres e mineiros da região devem trabalhar ao menos 51 horas por semana, diferentemente da média nacional que já é alta: 48 horas. Eles trabalham 2.754 horas de trabalho por ano. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) considera isso uma exploração semi-escravista” (Internazionale 869, 18- 22/ 10/ 2010, p. 26).

No mundo inteiro, a precariedade das condições de trabalho tem aumentado. Em vários países, os trabalhadores suportam isso por causa da ameaça do desemprego estrutural que atinge proporções nunca vistas, mesmo na Europa e nos Estados Unidos. Além disso, as empresas aprimoram, cada dia, a capacidade de lucrar mais e com menos custos, mesmo se isso acarreta riscos para os trabalhadores. No Brasil, as condições de trabalho de operários/as em fábricas de tecido e confecção em São Paulo são quase sempre de sobrecarga de horário e salários ilegais, enquanto, no campo, lavradores lidam com trabalhos temporários, em condições de salubridade perigosa. Diversos agrotóxicos, mesmo quando manipulados com máscaras e luvas, provocam enfermidades graves e depressões.

Na maior parte dos países do mundo, este modelo econômico desumano, responsável pelo desemprego massivo dos pobres e destruidor da natureza, se impõe como dogma. Seus adeptos insistem que não existe alternativa ao modelo capitalista neo-liberal. Na América Latina, países como o da Bolívia e da Venezuela, a partir das novas constituições aprovadas pela maioria do povo, ensaiam um modelo de tipo socialista democrático e baseado não na velha teoria marxista e sim nas culturas comunitárias dos povos indígenas. Em vários países do mundo, mesmo governos conservadores investem pesquisas e iniciativas no que se chama economia solidária. Na Europa, “mais de um milhão de pessoas trabalham na ação social e vêem a economia solidária como um laboratório de luta contra a pobreza injusta. Cada vez mais, se investe nos diversos tipos de micro-crédito em tudo que possa ajudar as pessoas pobres a se libertar social e economicamente” (Le Monde, Economie, 26/ 10/ 2010).

No Brasil, nos últimos oito anos, o governo deu uma nova força à “economia solidária”. Este tipo de economia vem se apresentando, nos últimos anos, como alternativa para gerar trabalho e renda e é, sem dúvida, uma resposta a favor da inclusão social. Economia solidária envolve várias práticas econômicas e sociais, organizadas sob a forma de cooperativas, associações, clubes de troca, empresas autogestionárias, redes de cooperação, entre outras, que realizam atividades de produção de bens, prestação de serviços, finanças solidárias, trocas, comércio justo e consumo solidário. Há oito anos, o governo brasileiro criou uma Secretaria especial da Presidência da República para a Economia Soldária.

A Campanha da Fraternidade ecumênica deste ano de 2010 foi sobre Fraternidade e Economia. Mobilizou cristãos de várias Igrejas com o apelo de buscarmos juntos um modelo econômico que expresse um cuidado com todo ser humano e com a natureza. Precisamos de um fórum inter-religioso e até trans-religioso em defesa da vida e da solidariedade universal.

Por Marcelo Barros, Monge Beneditino, ao Brasil de Fato



 

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