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Como uma pessoa livre se torna escrava

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"Quando eu cheguei aqui, a coisa era muito diferente do que havia sido prometido."

Trabalhador resgatado da escravidão em fazenda de Eldorado dos Carajás, Pará

Nos últimos tempos, uma praga atingiu as fazendas de cacau onde Uexlei Pereira trabalhava no Sul da Bahia, deixando muita gente sem serviço. Aliciado por um "gato", saiu de sua cidade, Ibirapitanga, com a oferta de um bom salário, alimentação e condições dignas de alojamento. No Sul do Pará, Uexlei percebeu que havia sido enganado. Quando foi resgatado, recebia havia dois meses só a comida. Não tinha idéia de quanto devia ao gato, conhecido como Baiano, e nem quando iria receber. A sua história não é diferente da dos demais trabalhadores que fogem do desemprego para cair na rede da escravidão. Abaixo, estão detalhados oito passos que transformam um homem livre em um escravo, padrão que pode sofrer variações dependendo da situação e do local, mas que se repete com freqüência.


1) Ao ouvir rumores de que existe serviço farto em fazendas, mesmo em terras distantes, o trabalhador ruma para esses locais. O Tocantins e a região Nordeste, tendo à frente os Estados do Maranhão e Piauí, são grandes fornecedores de mão-de-obra.

2) Alguns vão espontaneamente. Outros são aliciados por "gatos" (contratadores de mão-de-obra a serviço do fazendeiro). Estes, muitas vezes, vêm buscá-los de ônibus, de caminhão - o velho pau-de-arara - ou, para fugir da fiscalização da Polícia Rodoviária Federal, pagam passagens para os trabalhadores em ônibus ou trens de linha.

3) O destino principal é a região de expansão agrícola, onde a floresta amazônica tomba diariamente para dar lugar a pastos e plantações. Os estados do Pará e Mato Grosso são os campeões em resgates de trabalhadores pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

4) Há os "peões do trecho" que deixaram sua terra um dia e, sem residência fixa, vão de trecho em trecho, de um canto a outro em busca de trabalho. Nos chamados "hotéis peoneiros", onde se hospedam à espera de serviço, são encontrados pelos gatos, que "compram" suas dívidas e os levam às fazendas. A partir daí, os peões tornam-se seus devedores e devem trabalhar para abater o saldo. Alguns seguem contrariados, por estarem sendo negociados. Mas há os que vão felizes, pois acreditam ter conseguido um emprego que possibilitará honrar seus compromissos e ganhar dinheiro.

5) Já na chegada, o peão vê que a realidade é bem diferente. A dívida que tem por conta do transporte aumentará em um ritmo crescente, uma vez que o material de trabalho pessoal, como botas, é comprado na cantina do próprio gato, do dono da fazenda ou de alguém indicado por eles. Os gastos com refeições, remédios, pilhas ou cigarros vão sendo anotados em um "caderninho", e o que é cobrado por um produto dificilmente será o seu preço real. Um par de chinelos pode custar o triplo. Além disso, é costume do gato não informar o montante, só anotar. Uma foice, que é um instrumento de trabalho e, portanto, deveria ser fornecido gratuitamente pelo empregador, já foi comprada por um peão por R$ 12,00 do gato. O equipamento mínimo de segurança também não costuma existir.

6) Após meses de serviço, o trabalhador não vê nada de dinheiro. Sob a promessa de que vai receber tudo no final, ele continua a derrubar a mata, aplicar veneno, erguer cercas, catar raízes e outras atividades agropecuárias, sempre em situações degradantes e insalubres. Cobra-se pelo uso de alojamentos sem condições de higiene.

7) No dia do pagamento, a dívida do trabalhador é maior do que o total que ele teria a receber. O acordo verbal com o gato também costuma ser quebrado, e o peão ganha um valor bem menor que o combinado inicialmente. Ao final, quem trabalhou meses sem receber nada acaba devedor do gato e do dono da fazenda e tem de continuar a suar para quitar a dívida. Ameaças psicológicas, força física e armas também podem ser usadas para mantê-lo no serviço.


O coração do jovem idealista

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Dizem que com o passar dos anos todas aquelas ideias revolucionarias e todo o sentimento de justiça que carregam os jovens no peito passa a se apagar. Se isso é verdade ou não eu não sei, só sei que até agora vivenciei o contrário.

Enquanto estudo e me aprofundo em teorias político-econômicas na faculdade, meu sentimento de que o certo esta muito longe do que vivemos e que uma mudança radical é necessária só aumenta. Sempre evitei ser taxado de marxista, comunista ou qualquer derivado, mas devo confessar que quanto mais eu aprendo a respeito do filosofo Karl Marx, mas eu me apaixono por suas ideias, não no sentido de que tudo o que ele disse deve ser decretado como lei, e sim na maneira como ele desmontou todo o sistema capitalista e, a sociedade em geral, em sua teoria.

Sempre fugi dessas conotações, por diversas razões, mas a principal é o sentido pejorativo que tem hoje a palavra comunista. Infelizmente a história não faz jus ao pensamento de Karl Marx que, assim como a sociedade liberal pensada por outros, nunca foi realmente implementado.

Enfim, voltando ao foco do texto, não desejo ser hipócrita Quando leio pensadores como Karl Marx, Rousseau, ou até mesmo alguns liberais, tenho o sentimento e a esperança de que tudo isso que foi teorizado poderia ser colocado em prática, e com o tempo esse sentimento só aumenta. Porém o que me desanima, a única coisa que me desilude, são os homens. A sociedade alienada chegou a um ponto em que verdades e mentiras se confundem, onde o conformismo prevalece e tentam apagar a chama do coração revolucionário antes mesmo que ela acenda.

Por isso eu continuo perseverante, não pelos homens que se curvam facilmente perante seu carrasco, mas por saber que ao deixar de lado minhas aspirações por mudanças estarei eu também me juntando ao rebanho, e isso eu jamais ousarei fazer.



Paulo Souza, 08/11/2010


A vida ou o dinheiro

A economia e o dinheiro como seu instrumento deveriam servir para que as pessoas vivam dignamente e o mundo possa se tornar mais passível de convivência e familiar para todos os seres humanos. O sentido do termo grego economia significa a “boa administração da casa”. Para a humanidade, a casa é o planeta Terra. Para cada pessoa, a casa é o seu corpo, a ser alimentado e cuidado, assim como sua comunidade familiar e social. Em um mundo globalizado, a casa da humanidade é cada vez mais a sociedade internacional. Quando a economia de um país ou sociedade é alheia ou até contrária à preocupação com a vida das pessoas e até dos outros seres vivos, é sinal de que esta sociedade enlouqueceu. É como se a própria organização do mundo se transformasse em um assaltante que aponta uma arma à sua vítima e grita: “O dinheiro ou a vida!”.

Há poucos dias, o mundo inteiro viu com emoção as operações bem sucedidas de salvamento dos 33 mineiros soterrados em uma mina no Chile. Parecia um milagre ver aqueles trabalhadores pobres e indefesos saírem vivos, depois de terem resistido 69 dias soterrados na mina que desabou. Um perdeu uma perna. Outros precisaram ser hospitalizados e outros ainda, acompanhados psicologicamente, mas a operação de salvamento, coordenada pelo governo chileno, foi considerada uma grande vitória. Entretanto, poucos se perguntaram pelas causas mais profundas daquele acidente e se ele poderia ter sido evitado. A Folha de São Paulo publicou: “conforme declaração do representante do sindicato dos mineiros, o governo chileno sabia do risco e das condições de insegurança daquele trabalho e preferiu não fechar a mina por motivos econômicos”. Ao mesmo tempo, jornais internacionais publicaram: “Um estudo do banco suiço Ubs revela que, em todo o mundo, os trabalhadores que têm horários de trabalho mais prolongados e pesados são os do Chile. Em Santiago, os operários mais pobres e mineiros da região devem trabalhar ao menos 51 horas por semana, diferentemente da média nacional que já é alta: 48 horas. Eles trabalham 2.754 horas de trabalho por ano. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) considera isso uma exploração semi-escravista” (Internazionale 869, 18- 22/ 10/ 2010, p. 26).

No mundo inteiro, a precariedade das condições de trabalho tem aumentado. Em vários países, os trabalhadores suportam isso por causa da ameaça do desemprego estrutural que atinge proporções nunca vistas, mesmo na Europa e nos Estados Unidos. Além disso, as empresas aprimoram, cada dia, a capacidade de lucrar mais e com menos custos, mesmo se isso acarreta riscos para os trabalhadores. No Brasil, as condições de trabalho de operários/as em fábricas de tecido e confecção em São Paulo são quase sempre de sobrecarga de horário e salários ilegais, enquanto, no campo, lavradores lidam com trabalhos temporários, em condições de salubridade perigosa. Diversos agrotóxicos, mesmo quando manipulados com máscaras e luvas, provocam enfermidades graves e depressões.

Na maior parte dos países do mundo, este modelo econômico desumano, responsável pelo desemprego massivo dos pobres e destruidor da natureza, se impõe como dogma. Seus adeptos insistem que não existe alternativa ao modelo capitalista neo-liberal. Na América Latina, países como o da Bolívia e da Venezuela, a partir das novas constituições aprovadas pela maioria do povo, ensaiam um modelo de tipo socialista democrático e baseado não na velha teoria marxista e sim nas culturas comunitárias dos povos indígenas. Em vários países do mundo, mesmo governos conservadores investem pesquisas e iniciativas no que se chama economia solidária. Na Europa, “mais de um milhão de pessoas trabalham na ação social e vêem a economia solidária como um laboratório de luta contra a pobreza injusta. Cada vez mais, se investe nos diversos tipos de micro-crédito em tudo que possa ajudar as pessoas pobres a se libertar social e economicamente” (Le Monde, Economie, 26/ 10/ 2010).

No Brasil, nos últimos oito anos, o governo deu uma nova força à “economia solidária”. Este tipo de economia vem se apresentando, nos últimos anos, como alternativa para gerar trabalho e renda e é, sem dúvida, uma resposta a favor da inclusão social. Economia solidária envolve várias práticas econômicas e sociais, organizadas sob a forma de cooperativas, associações, clubes de troca, empresas autogestionárias, redes de cooperação, entre outras, que realizam atividades de produção de bens, prestação de serviços, finanças solidárias, trocas, comércio justo e consumo solidário. Há oito anos, o governo brasileiro criou uma Secretaria especial da Presidência da República para a Economia Soldária.

A Campanha da Fraternidade ecumênica deste ano de 2010 foi sobre Fraternidade e Economia. Mobilizou cristãos de várias Igrejas com o apelo de buscarmos juntos um modelo econômico que expresse um cuidado com todo ser humano e com a natureza. Precisamos de um fórum inter-religioso e até trans-religioso em defesa da vida e da solidariedade universal.

Por Marcelo Barros, Monge Beneditino, ao Brasil de Fato



Sepultura - Territory

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Música que apesar de vir dos primórdios da banda Sepultura tem tudo a ver com a atual política externa dos Estados Unidos (pelo menos na minha concepção). Alias, logo na primeira parte da música percebemos semelhanças com a história recente de invasão do Iraque e o mais novo discurso norte americano direcionado ao Irã. A política de propaganda, a utilização da mídia para alienar a nação e fazer com que a população se sinta ameaçada pelo suposto "Eixo do Mal", tem finalidade de levar o país à guerra sem grandes contestações. Enfim, sem enrolar mais veja abaixo o clipe e em seguida um link para a música e sua tradução.

Letra/Tradução

Credibilidade em questão: O poder de persuasão da mídia

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Assim como sabemos que após uma chuva a cidade fica molhada, sabemos também que é imenso o poder de persuasão que os meios de comunicação têm atualmente junto à sociedade: as manchetes dos jornais, as chamadas na TV, as notícias instantâneas na internet, os comentários nas emissoras de rádio, todos esses "suportes" do campo midiático ganham imediata repercussão, espraiando-se pela sociedade com velocidade alucinante.


Ainda que em alguns casos não seja algo feito de caso pensado, é fato que a utilização de manchetes de jornais e capas de revistas em programas eleitorais dos candidatos à presidência da República tornou-se mais que corriqueiro no presente pleito de 2010. O candidato José Serra foi brindado com dezenas de manchetes, capas e ilustrações constantes de veículos da mídia impressa, com direito a que locutores leiam os textos e adicionem observações de condenação a quem já é contumaz condenado pelo jornalismo de nossas revistas e jornais de maior circulação.


Nos últimos dias da campanha, algumas manchetes do jornal Folha de S.Paulo sobre comprovada corrupção em licitação para construção de linhas do metrô paulista também se transformaram em material televisivo para a campanha de Dilma Rousseff. Mas nesse jogo de ver bola levantada na imprensa escrita em apoio candidato Serra, o tucano ganhou de lavada: converteu a cada semana diversas capas de jornais em material de sua propaganda política. A ocorrência do expediente só fez crescer o sentimento de que nossa imprensa mais vistosa não apenas tinha seu candidato ao Planalto como também se mostrou seu mais importante instrumento para alavancar votos e constranger sua principal oponente. E como tudo tem um custo – porque também na mídia não existe almoço grátis –, quem paga o preço mesmo é essa coisa muitas vezes intangível chamada credibilidade jornalística.


Interesses determinados


Uma análise mais detida dará conta que os processos comunicativos e os processos político-eleitorais são mais entrelaçados do que podemos imaginar. São vasos comunicantes em que se misturam tanto desprezo quanto preconceitos comezinhos pelo governo de plantão, com a almejada e incontida pressão para que haja alternância na chefia do Poder Executivo. É assim que práticas de corrupção em qualquer escalão do governo parecem estar sempre a poucos centímetros do presidente da República. O mesmo não ocorre com práticas similares afeitas à territorialidade do estado de São Paulo.


Enquanto a campanha situacionista precisou se desdobrar para prover esclarecimentos, tomar ações administrativas de supetão, a campanha oposicionista pôde até "dar de ombros" para qualquer acusação que já foi suficiente para estancar qualquer iniciativa mais arrojada para continuar a investigação jornalística. Para um qualquer, onda pode se transformar em tsunami indonésio, enquanto para outro qualquer tsunami aterrador pode se transmutar em pequena marola de beira de praia.


A política, por estar representada com pessoas de diversas origens partidárias e ideológicas – seja pelo pouco "escolado" Tiririca ou por um "especialista em educação" Gabriel Chalita –, continua sendo palco para encenações e necessita da visibilidade proporcionada pelo campo midiático, já que qualquer acontecimento ou indivíduo só comprova que existe na sociedade se estiver representado na mídia. A visibilidade midiática e a complexidade desse meio levam os media a se constituírem enquanto campo social, isto é, a possuir regras e valores (axiologia), código e gramática próprios, e as costumeiras tensões com outros campos, além da busca por legitimidade, traço natural de qualquer campo social.


Conflitos e dinâmica da política diferem bastante daqueles que caracterizam o campo social da mídia. Política e mídia atraem para seu entorno um campo simbólico de disputa, onde parece reinar nossa velha conhecida lei da selva, segundo a qual cada um tem como principal missão defender seus próprios interesses. Principalmente os imediatos. Assim como a política exerce papel de articulação – articula ideias, lideranças, formulação legislativa e supervisiona a execução de políticas públicas –, a mídia também não prescinde desse mesmo papel e é a mídia que articula a informação que se transforma em notícia, a notícia que abastece a opinião e que desemboca na sociedade em uma mistura nem sempre palatável de fatos reais, fatos imaginados e opiniões sobre um e outro. A mídia sabe que para ter credibilidade – ser crível, digna de confiança dos consumidores de seus produtos – precisa, antes de tudo, ser pautada pela transparência e para a "publicidade" de fatos, com ênfase maior para aqueles carimbados como espetaculares ou pela simples ocultação ou supressão destes quando conflitarem com seus interesses.


Para escrever o futuro


Não faz muito tempo que a academia passou a considerar a mídia também como produtora de sentidos, e não somente mediadora entre os campos. E é no contexto da mídia como produtora de sentidos que percebemos que a visibilidade midiática se revela quase sempre através da massificação dos conteúdos jornalísticos, que movimentam um verdadeiro mercado no qual o consumo da informação não tem fronteiras econômicas, políticas, sociais, culturais ou comportamentais. É fato que em nossa sociedade do consumo da informação, da agilidade e da instantaneidade das notícias, ocorre a busca pelo que carregue nas tintas da diferença, do não-similar, do que trafega entre o grandioso e o épico, da aberração que se encaminha para a espetacularização pura e simples, se assim podemos dizer.


Não é arriscado inferir que se antes éramos buscadores de notícias, hoje a situação piramidal se inverteu por completo: são as notícias que nos buscam. E isso nos faz ter a sensação de que os telejornais são todos iguais, com variações meramente cosméticas, superficiais, e que a imprensa escrita, por trabalhar com as mesmas pautas, só pode se diferenciar uma da outra através da carga ideológica despejada no suporte por quem sabe apenas produzir jornalismo opinativo.


Crescendo o espaço de colunas de opinião, nos distanciamos mais dos fatos, da realidade factual, para tocar nas franjas de aspirações ideológicas. Mas se todos os colunistas rezam pela mesma cartilha ideológica, se tomam caminhos os mais diversos para trilhar e, ainda assim, insistem e forçam a barra para chegarem todos eles ao mesmo lugar e ao mesmo tempo, então estamos construindo um imenso edifício da singularidade em campanha aberta à pluralidade de pensamento. Enquanto o mundo se reorganiza em várias áreas de atuação, encontramos pesadas barricadas da mídia para manter tudo como está: não mexer em nada, fazer de conta que o mundo todo pode mudar, menos os seus conceitos do que é o jornalismo e a concepção de como poder ser exercido.


E não era, absolutamente, para ser assim. As transformações tecnológicas, os avanços da ciência que impactam tanto o que entendíamos como "acúmulo de conhecimento humano", tomaram de assalto os caminhos da informação desde sua produção até o seu usufruto. A concorrência dos suportes midiáticos tradicionais com os novos suportes – e o rápido acesso das massas da humanidade a seus poderes semimágicos a transitar entre o real e o virtual – formam um poderoso quebra-cabeças do que será a comunicação deste futuro-que-se-torna-presente quase que imediatamente.


A hesitação – ou seria o desnorteio? – dos que detêm o processo decisório sobre nossos veículos tradicionais de comunicação é que determina o tempo de sobrevida que lhes resta. Sábios e prudentes são os que aproveitam este momento atual para escrever o seu futuro, um futuro prenhe de coisas como pluralidade de pensamento, delegação de poder decisório, desconcentração de propriedade, abertura inaudita ao que é novo e ao que privilegia a velha e santa atividade de pensar.


Poderosos desdobramentos


A revolução no campo das comunicações, para sermos francos, ainda nem começou. Estamos vendo apenas os ingredientes serem apresentados um a um. Muitos destes nem se tornaram ainda conhecidos. Isto porque não existe caso na literatura humana que diga que as grandes revoluções do conhecimento começaram de fora para dentro. Não foram as máquinas que chegaram primeiro. Nem os tipógrafos, nem os foguetes chegaram primeiro ao mundo da existência. Primeiros eles brotaram dentro do ser humano e foram, como flor que é despetalada, se ajeitando, se organizando, encontrando seu lugar no mundo real.


Não demora mais três ou cinco anos e teremos condições de saber tudo o que acontece no mundo, do jeito que acontece, por que acontece desse e não daquele jeito e quais as consequências imediatas, no curto, médio e longo prazos do que aconteceu. E tudo isso será acessível a todos sem que paire sobre todos nós a ameaçadora sombra da incerteza e da dúvida.


Da mesma forma, não causará espanto algum se aqueles há tanto tempo marginalizados pela mídia, como se inexistentes fossem, resolverem ir a campo e criar seus próprios veículos de comunicação, seus próprios impérios de produção de sentidos e assumirem, eles mesmos, a mediação entre os campos em que se dá a atividade humana em toda a sua extensão e plenitude.


O futuro dos meios de comunicação tradicionais (rádio, jornal, televisão) precisa parar de lutar ante a evidência a que ele chegou, e daqui para a frente veremos não mais que seus poderosos desdobramentos. É tempo para se perceber como metáfora completa do dilema da comunicação estes versos de Pablo Neruda:


"Tu eras também uma pequena folha/ que tremia no meu peito./ O vento da vida pôs-te ali./ A princípio não te vi: não soube/ que ias comigo,/ até que as tuas raízes/ atravessaram o meu peito,/ se uniram aos fios do meu sangue,/ falaram pela minha boca,/ floresceram comigo."



Por Washington Araújo em 2/11/2010 ao Observatório da Imprensa

Breve comentário sobre o preconceito no Twitter

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O twitter amanheceu hoje com uma enxurrada de preconceitos contra moradores da região Nordeste por conta da expressiva votação que a região garantiu à presidente eleita Dilma Roussef. Os microposts foram extremamente ofensivos e degradantes. O segundo turno mais baixo nível de todos os tempos só podia terminar dessa forma, revelando o que há de mais obscuro na alma das pessoas.

Todo mundo erra – eu sou um dos piores. E estes momentos são didáticos para que aprendamos com esses erros, façamos correções de rumo e possamos nos reconstruir e construir uma sociedade melhor. Mas há algumas coisas que li por lá e fiquei assustado.

Ao mesmo tempo, colegas jornalistas receberam spams que defendiam a necessidade de separar o Estado de São Paulo e a Região Sul do restante do país por conta do resultado da votação. Nada sobre juntar quem não concorda com o governo eleito e fazer uma oposição firme, programática e responsável. Até porque, como sabemos, a tática do “perder e levar a bola embora” é super madura e fortalece a democracia. Tudo bem, é meia dúzia de pessoas que acha que “São Paulo é meu país”, mas estes reproduzem em profusão argumentos na internet, também estranhos e mais palatáveis, feito Gremlins.

Além do mais, se São Paulo se separasse do restante do país, como defende meia dúzia de analistas de boteco, daria um jeito de continuar superexplorando trabalhadores de outros lugares. Ao invés do migrante nordestino, seria o imigrante brasileiro. Da mesma forma que a gente faz com o bolivianos, paraguaios e peruanos.

Por mais que o filme original não seja um primor de roteiro e de execução, seria extremamente didático para esse pessoal que espuma preconceito se houvesse uma versão tupiniquim do norte-americano “Um Dia sem Mexicanos”. A idéia da película simples: os imigrantes latino-americanos, que custam algumas centenas de milhões em serviço social e retornam bilhões em mão-de-obra, um dia somem da Califórnia – para a alegria dos xenófobos. Mas a vida se torna um caos com o sumiço deles. Por aqui, seria algo como “Um Dia sem Nordestinos”, com roteiro gravado em São Paulo:

A socialite acorda e vê seu poodle completamente despenteado. Tem um piti e grita pela empregada responsável pelo serviço. Nada. O empresário chega de seu cooper matinal e percebe que seu suco de laranja não está espremido como devido. Grita pelo mordomo. Nada. O editor reclama que o fotógrafo não apareceu para entregar a imagem que prometeu. Nada. O cantor postar não aparece para o show e duas amigas, nervosas porque a maquiagem começa a derreter na pista de dança, entram em estado de pré-pânico. Nada.

“Deve ser enchente na favela. Ela nunca falta, sabe? É pobre, mas tem caráter. Nunca sumiu nada lá em casa.”/”É o quarto dia que aquele sujeito não vem. Sabe o que é isso? É o Bolsa Família! Torna as pessoas vagabundas. Deve estar bebendo em um bar”/ “Combinei uma coisa com ele e ele não veio. Esse povinho do Nordeste, viu?” / “Por isso que eu sempre digo: coloca mais duas horas no tíquete de show desse povo, viu amiga. É questão de cultura, sabe? Não é que nem nós, que tivemos criação.” (agradeço aos leitores e leitoras pelas sugestões)

E por aí vai. Até porque, como todos sabemos e o preconceito rastaquela paulistano reafirma diariamente, os nordestinos em São Paulo estão apenas em ocupações subalternas.

Seja na superfície, através de risinhos, ironias e preconceitos, seja estruturalmente, via baixos salários e uma desigualdade gritante, já passamos o recado de quem manda e quem obedece. Direitos sociais e econômicos já são sistematicamente negados. Agora passamos a dizer não também aos direitos políticos? Qual o próximo passo? Revogar a Lei Áurea?


Leia também, para esclarecimentos numéricos, Dilma não dependeu do Norte e Nordeste, nem do Bolsa família e não houve Norte x Sul


Fonte: Blog do Sakamoto

Invisibilidade social: outra forma de preconceito

A invisibilidade social é um conceito aplicado a seres socialmente invisíveis, seja pela indiferença ou pelo preconceito. No livro “Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social”, o psicólogo Fernando Braga da Costa conseguiu comprovar a existência da invisibilidade pública, por meio de uma mudança de personalidade. Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari na Universidade de São Paulo. Segundo ele, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são “seres invisíveis, sem nome”.

Há vários fatores que podem contribuir para que essa invisibilidade ocorra: sociais, culturais, econômicos e estéticos.
De acordo com psicólogo Samuel Gachet a invisibilidade pode levar a processos depressivos, de abandono e de aceitação da condição de “ninguém”, mas também pode levar a mobilização e organização da minoria discriminada.

Massa invisível

Um dos principais causadores da invisibilidade é a questão econômica. “O sistema capitalista sobrevive sob a lei do mais valia, na qual para que um ganhe é imediatamente necessário que outro perca. Desse modo a população de baixa renda é vista como um vasto mercado consumidor, e essa é sua única forma de visibilidade”, explica Gachet.

Para a universitária Sabrina Ribeiro Rodrigues a invisibilidade não só é provocada pelo fator econômico. “A educação familiar é determinante para a maneira como as pessoas tratam o outro”, completa.

A bibliotecária Marlene Araújo acrescenta ainda que existe preconceito com as pessoas que não estão adequadas aos padrões de beleza. “Se fosse loira, alta e de olhos claros, com certeza me tratariam de outra maneira”, ressalta.

“Para mim o fator econômico não é o principal causador da invisibilidade social, e sim o status que adquirimos diante da sociedade. Se um professor de uma faculdade particular aqui do Brasil estiver em uma faculdade renomada como a de Harvard também se sentirá invisível”, explica a universitária Vanessa Evangelista.

Segundo Gachet o preconceito que gera invisibilidade se estende a tudo o que está fora dos padrões de vida das classes hierarquicamente superiores. Muitos são os indivíduos que sofrem com a invisibilidade social, como por exemplo, profissionais do sexo, pedintes, usuários de drogas, trabalhadores rurais, portadores de necessidades especiais e homossexuais.

Conseqüências

A invisibilidade social provoca sentimentos de desprezo e humilhação em indivíduos que com ela convivem. De acordo com Gachet ser invisível pode levar as pessoas a processos depressivos. “‘Aparecer’ é ser importante para a espécie humana, ser valorizado de alguma forma é parte integrante de nossa passagem pela vida, temos que ser alguém, um bom profissional, um bom estudante, um bom pai, uma boa mãe, enfim, desempenhar com louvor algum papel social”, diz.

Outra conseqüência dessa invisibilidade é a mobilização dos “invisíveis”, grupos de pessoas que se juntam para conseguir “aparecer” perante a sociedade. Muitos são os exemplos desses grupos: MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem terra), a Central Única de Favelas (CUFA), fóruns nacionais, estaduais e municipais de defesa dos direitos da criança e do adolescente. Esses grupos também podem ser encontrados no crime organizado, o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho).

A invisibilidade social já está cotidianamente estabelecida e a sociedade acostumou-se a ela, passar por um pedinte na rua ou observar uma criança “cheirando cola” em uma esquina é algo corriqueiro na vida social, segundo Gachet aceitar isso é violar os direitos humanos. “É preciso não só
ver esses invisíveis, mas é preciso olhar para eles e sentir junto com eles, é preciso ‘colocar óculos em toda humanidade’”, finaliza.

Por Vivian Fernanda Garcia da Costa e Mateus de Lucca Constantino ao OVERMUNDO


 

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