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Traduções Bukowski #4: "gato malhado"

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

gato malhado




ele usa calça jeans e tênis
e anda com duas garotas jovens
mais ou menos de sua idade.
de vez em quando ele salta
no ar e 
bate os calcanhares.

ele é como um potro jovem
mas de alguma forma ele também me lembra
um gato malhado.

sua bunda é macia e 
ele não tem mais na sua mente
do que tem uma mosca.

ele pula atrás de suas garotas
batendo os calcanhares.

e ele puxa o cabelo de uma
corre para a outra e
aperta seu pescoço.

ele fodeu as duas e
está satisfeito consigo mesmo.
tudo aconteceu
tão fácil para ele.

e eu penso, ah,
meu pequeno gato malhado
que dias e noites
esperam por você.

sua bunda macia será o fim de seu mundo.
sua agonia
será interminável
e as garotas
que agora são suas
logo pertencerão a outros homens
que não conseguiram seus biscoitos
e cremes tão fácil e
tão cedo.

as garotas estão treinando com você
as garotas estão se preparando para outros homens.
para alguém de fora da selva
para alguém de fora da jaula do leão.

eu sorrio enquanto
eu vejo você andando
batendo os calcanhares.

meu deus, garoto, eu temo por você
na noite
em que você se der conta pela primeira vez.

agora é um dia ensolarado.

pule
enquanto
pode.

(Charles Bukowski)
Traduzido por Felipe Ribeiro



A passagem do tempo: análise da música "Time" (Pink Floyd)


A passagem do tempo



Dark Side of The Moon é uma obra, sem dúvidas, muito bem formada na ideia de album conceitual, além de, claro, ser musicalmente sensacional. Isso quer dizer que além de fornecer ótima qualidade musical – misturas de diversos sons, letras que nos fazem querer decora-las e entende-las e belíssimos solos de guitarras acompanhados pela voz encantadora de David Gilmour, o álbum também explora um vasto terreno de conceitos, não só através de suas letras, mas também por essa já citada mistura de sons (como se percebe em Speak to Me, On the Run, Great Gig in The sky).

Só para ter uma idéia, aparece muitas vezes no album, o som de uma batida de coração, que pode representar a vida nos seus pontos mais vitais e a necessidade de viver uma vida própria como se vê em Speak to Me/Breathe, ou a questão da passagem do tempo como vemos em Time, ou a crítica às várias controvérsias sobre o dinheiro, não criticando apenas o consumismo, mas também criticando a própria crítica ao dinheiro, como vemos em Money, quando a letra diz: “Money, it’s a crime, share it farely but don’t take a slice of my pie” ou “Money, so they say, is the root of all evil today, but if you ask for a rise it’s no surprise that they are giving none away”. Não vou tentar expor minuciosamente os conceitos explorados por essa obra, pois acho muito importante que cada um tenha suas próprias imagens e ideias ao escutar  uma música, além de que o número de conceitos presentes no Dark Side of The Moon é tão grande quanto for a nossa capacidade de interpretar. Ademais, este álbum seria apenas o primeiro de outros álbuns conceituais do Pink Floyd, como seriam o Wish You Were Here, Animals e o The Wall. 

Vou apenas mostrar aqui uma interpretação de uma das músicas presentes no Dark Side.

Time

Ano após ano, é muito comum ouvirmos – e até mesmo pensarmos, coisas como: “nossa! como esse ano passou rápido” ou “cada ano que passa parece ficar mais curto”, já até chegaram a me dizer “depois dos 18, os seus anos vão voar”. Acredito que todo mundo já tenha escutado algo parecido.

De fato, quanto mais envelhecemos, mais nos parece que os anos se aceleram, que o tempo se contraí, acabamos ficando sem tempo para nós mesmo ou para simplesmente "ver o tempo passar". Essa idéia de um tempo contraído, que aumenta quanto mais o tempo passa, é realmente muito presente na contemporaneidade, principalmente nas grandes cidades, onde tudo é extremamente rotineiro e apressado. Mais ainda: cresce também aquela vontade frustrante de recuperar o tempo perdido. Acima de tudo isso, o tédio vigora. Tudo que é bom parece se tornar menos durável e, como todo o resto, vira passageiro. Sempre estamos invejando algum tempo mais jovem. Somos sufocados pela falta de tempo e quando temos uma folguinha, não sabemos aproveitar e o tempo se torna maçante.

Parênteses. Com os avanços tecnologicos mais recentes, que proporcionam a criação de diversos aparelhos portáveis, essa sensação de que temos pouco tempo para nós mesmo só aumenta. Agora é possível ouvir música enquanto anda na rua, ver TV e ter uma biblioteca na palma da sua mão enquanto se está no metro, por exemplo. Não acho isso extremamente ruim, mas o ponto vital de pelo menos tentar apreciar completamente uma música, uma obra literária, ou um filme, é estar no conforto de um lar, num teatro, numa biblioteca, num cinema ou em outro lugar apropriado, com tempo para pensar, num momento relaxante e prazeroso, sem ter que estar preocupado em olhar para os dois lados da rua antes de atravessar, ou em enfretar a lotação dos trens e metros. Quero dizer que nessa vida rotineira, o lar (e esses ambientes culturais, por assim dizer) passa a ter um valor reduzido e pouco confortavel, ele também cai na temporalidade contraída. Deixo aqui uma possível interpretação da reprise de Breathe, no final da música Time, quando a letra diz: “Home, home again. I like to be here, when I can. When I come home, cold and tired, it’s good to warm my bones beside the fire”. Isto é, já vivendo numa rotina que contrai nosso tempo (em que tudo é muito estressante e, acima de tudo, tedioso) se levarmos nossas atividades recreativas (que deveriam ser exercidas no conforto relaxante de um ambiente apropriado, com tempo para refletir, que nada mais é do que o clichê de termos mais tempo para nós mesmo) para a nossa rotina, onde o tempo é contraído, os valores podem se perder: nossas casas se tornam um lugar de passagem, como é o trem, o metro, o onibus, o refeitorio da faculdade ou do trabalho e nos tornamos pouco capazes de compreender ou até mesmo criar arte. A arte, enquanto como eu a vejo, está na contramão dessa sua submissão ao cotidiano.

Ok. Voltando a primeira ideia, aquela de como o tempo parece passar mais rápido a cada ano que envelhecemos. E vamos aqui olhar para a música Time. A minha interpretação dessa música diz exatamente respeito à essa sensação que temos de que o tempo se contrai quanto mais os anos passam. Não vou falar da música inteira, somente do começo da música, a parte antes de entrar os vocais, onde ficam apenas umas 2-3 notas tocando com um rázoavel espaço de tempo entre elas. 

Reparem: no começo, as duas primeiras notas soam mais tranquilas; entre elas, prevalece o silêncio, que podemos chamar de ‘tempo livre’ (percebam as analogias). Enquanto as notas vão passando (isto é, enquanto os anos se passam), resta cada vez menos desse silencio entre as notas, menos desse ‘tempo livre’, a percussão vai ficando cada vez mais presente, mais acelerada, mais intensa, até que chega a um ponto que a percussão preenche todo o ‘tempo livre’ entre uma nota e outra. Além disso, a maneira calma e estavel como cada nota se intercala não parece ser compátivel com a crescente velocidade e intensidade da percussão, cria-se um momente pertubador, cansativo, assim como o é o nosso dia-a-dia. Surge a sensação de que o tempo entre cada nota está se contraindo, quando na verdade, ele permanece o mesmo. 

Pois era de tudo isso que estavamos falando agora: a sensação presente de como cada ano parece passar mais rápido, quantos mais anos se passam e de como temos pouco tempo livre, embora todos os anos durem os mesmos 365 dias (exceto alguns que duram 366 hehe). A ideia aqui é tentar mostrar como a música em sua composição é capaz de despertar diversas das nossas sensações, sejam ela presentes ou passadas. Além disso entra aqui a questão de que a música deveria servir para nos ensinar a passar o tempo. Temos então uma música que, enquanto na sua ideia geral de música (não especificamente essa música), serve para nos ensinar a passar o tempo, enquanto essa música na sua especifidade (Time do Pink Floyd) mostra como não sabemos ver o tempo passar, o tempo se contraí, não percebemos e quando o fazemos é tarde demais e ficamos tentando correr atrás do Sol que está afundando e dando a volta para vir por trás de nós novamente.

O tempo passa e com isso, somos tomados por obrigações frustantes e fatigantes, geralmente que ainda servem para suprir um interesse alheio a nós mesmos. O tempo se perde, por não pertencer a nós mesmos, e ainda se contrai devido a essas ocupações toscas. Ficamos atordoados e quando o tempo cai em nossa posse, mal sabemos o que  fazer o que ele. A passagem da vida, temporalmente, é oprimida por esse tempo contraído do contemporâneo.

Vou terminar por aqui, só deixando aberto, mostrando como é possível interpretar até coisas que nunca damos muita importância numa música. Só mais uma coisa: nesse sentido, a música é perfeita para nos ensinar a passar o tempo. Curtam aí, Time do Pink Floyd.

Traduções Bukowski #3: "o cadarço"

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

o cadarço


uma mulher, um
pneu furado, uma
doença, um
desejo; medos na sua frente,
medos que se seguram tão firme
que você pode estuda-los
como peças em um
tabuleiro de xadrez...
não são as coisas grandes que
mandam um homem para o
hospicio. para a morte ele está preparado, ou
assassinato, incesto, roubo, incendio, inundação...
não, é a série contínua de pequenas tragédias
que mandam um homem para o
hospicio...
não a morte de seu amor
mas um cadarço que se arrebenta
sem tempo de sobra...
o pavor da vida
é essa multidão de trivialidades
que podem matar mais rápido do que cancer
e que sempre estão presentes –
emplacamentos ou impostos
ou uma carteira de motorista vencida,
ou contração ou demissão,
fazendo-os ou tendo-os feito a você, ou
constipação
multas de transito
formigas ou grilos ou ratos ou cupins ou
baratas ou moscas ou um
gancho quebrado em uma
rede, ou sem gasolina
ou com gasolina demais,
a pia entupiu, o senhorio está bebado,
o presidente não se importa e o governador está
louco.
interruptor quebrado, colchão como um
porco-espinho;
$105 por um ajuste, carburador e bomba de combustível na
Sears Roebuck;
e a conta de telefone subiu e o mercado
caiu
e a corrente da descarga está
quebrada,
e a luz está queimada –
a luz do salão, a luz da frente, a luz de trás,
a luz interior; está
mais escuro do que o inferno
e duas vezes mais
caro.
então há sempre chatos e unhas encravadas
e pessoas que insistem que são
seus amigos;
há sempre tudo isso e pior;
torneira vazando, Cristo e o Natal;
salame estragado, 9 dias de chuva,
abacates de 50 centavos
e língua de figado
roxeada.

ou fazendo-o
como uma garçonete do Norm’s na troca de turnos,
ou como um esvaziador de
penicos,
ou como um lava-rápidos ou um assistente de garçons
ou um ladrão de bolsas de velhinas
deixando-as gritando nas calçadas
com braços quebrados aos 80
anos de idade.

subitamente
2 luzes vermelhas no seu retrovisor
e sangue na sua
cueca;
dor de dente, e $979 por um canal
$300 por um dente de
ouro,
e a China a Rússia e a América, e
cabelo longo e cabelo curto e 
cabelo nenhum, e barbas e sem
rostos, e um monte de zigzag mas sem sucesso
nenhum, exceto talvez por um cara mijando e 
o outro em volta das suas
tripas.

com cada cadarço arrebentado
de cem cadarços arrebentados,
um homem, uma mulher, uma
coisa
entra num
hospicio.

então cuidado
quando você
se curvar.

(Charles Bukowski)
Traduzido por Felipe Ribeiro

o grito de Janis Joplin.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

aquele grito não é
só voz.
tem algo ali para além
de tudo e de todos
nós.

não é só um grito
que sai de sua garganta.
sua força não vem apenas
de suas cordas vocais.

ela precisa chutar alguma
coisa para fora de seu corpo.
existe alguma coisa
urgindo desesperadamente
para sair de dentro dela.

aquele grito é capaz
de expulsar um demonio.
o maldito nunca mais
vai voltar.

um grito desesperado
lutando para nascer
lutando para permanecer 
vivo.

com pressa
para dizer o que tem que ser dito.

há algo para além
de nossa existência
naquele
grito.

para além de nossa
compreensão.

a última refeição de 
um condenado
à pena de morte.

a urgência de
estar vivo.

não nos resta tempo.
ele toma conta de você,
corpo e alma,
completamente.

percorre sua espinha
como uma erupção
saindo pela boca.
um urro, um
uivo.
uma necessidade de
declarar...
a vida!

aquele grito te faz
despertar.
ele te ergue e te 
faz rodopiar 
por toda a eternidade.

é como se ela te
pegasse pelos braços
te levantasse para o alto,
cada vez mais alto
e mais alto.
você suspenso no céu
suas pernas balançando.
e então ela te devolve à Terra
com um chute só.
te traz de volta de uma vez só
sem misericórdia
põe o chão embaixo de seus pés

o sonho mais incrível que você já teve.

eu vivo por esses
dez segundos.

não há motivos para chorar.
ela diz:
"o único motivo que tenho para você chorar
é esse:"
e então ela grita
e preenche a sala inteira
com todas as vidas vazias presentes.
"então chore, baby
chore porque você está 
vivo.
entre nisso.
mergulhe de cabeça
e traga o resto de você
junto."

você entende tudo.
espalhado por todo mundo
por todo o tempo.
você é passado, presente
e futuro.

você grita junto
com ela.
você tem certeza de que está lá
dividindo o palco
com Janis Joplin.

ela grita
grita
e nunca acaba

e esse grito

esses dez segundos

me fazem chorar,

baby


O pão do povo

domingo, 9 de setembro de 2012

A justiça é o pão do povo.
Às vezes bastante, às vezes pouca.
Às vezes de gosto bom, às vezes de gosto ruim.
Quando o pão é pouco, há fome.
Quando o pão é ruim, há descontentamento.

Fora com a justiça ruim!
Cozida sem amor, amassada sem saber!
A justiça sem sabor, cuja casca é cinzenta!
A justiça de ontem, que chega tarde demais!
Quando o pão é bom e bastante
O resto da refeição pode ser perdoado.
Não pode haver logo tudo em abundância.
Alimentado do pão da justiça
Pode ser feito o trabalho
De que resulta a abundância.

Como é necessário o pão diário
É necessária a justiça diária.
Sim, mesmo várias vezes ao dia.

De manhã, à noite, no trabalho, no prazer.
No trabalho que é prazer.
Nos tempos duros e nos felizes.
O povo necessita do pão diário
Da justiça, bastante e saudável.
Sendo o pão da justiça tão importante
Quem, amigos, deve prepará-lo?

Quem prepara o outro pão?

Assim como o outro pão
Deve o pão da justiça
Ser preparado pelo povo.

Bastante, saudável, diário.


Bertolt Brecht

Traduções Bukowski #2: "o inferno é um lugar solitário"

o inferno é um lugar solitário


ele tinha 65 anos, sua mulher tinha 66, tinha
mal de Alzheimer.

ele tinha câncer na
boca.
haviam
operações, tratamentos
radioativos 
que deterioraram os ossos de sua
mandíbula
que então tiveram de ser
presos com arame.

diariamente ele põe sua mulher em
fraldas de borracha
como um
bebê.

não podendo dirigir em sua
condição
ele teve que pegar um taxi para
o centro
médico,
tinha dificuldade para falar,
teve que
anotar as direções.

na sua última visita
eles o informaram que
haveria outra operação: um pouco mais de 
bochecha
esquerda e um pouco mais de língua.

quando ele voltou
ele trocou as fraldas de sua 
mulher
colocou a comida no
microondas, assistiu ao
jornal da noite
e daí foi para o 
quarto, pegou a
arma, colocou na têmpora
dela, atirou.

ela caiu para a 
esquerda, ele sentou no
sofá
colocou a arma na sua
boca, puxou o
gatilho.

os tiros não perturbaram
os vizinhos.

mais tarde
a comida queimada no microondas
perturbou.

alguém chegou, abriu
a porta, viu
tudo aquilo.

logo
a polícia chegou e 
percorreu a rotina
deles, acharam
alguns itens:
um talão de cheques e
uma poupança
fechada com um
balanço de
$1,14

suicídio, eles
deduziram.
em três semanas
haviam dois 
novos inquilinos:
um engenheiro de computação
chamado
Ross
e sua mulher
Anatana
que estudava
balé.

eles pareciam outro
casal
ascendente.

(Charles Bukowski)
Traduzido por Felipe Ribeiro

Debate dos prefeituravéis de SCS na OAB

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Infelizmente está faltando uma parte do vídeo no final do debate. E a gravação não está lá essas coisas mas da pra entender. Não vou ficar expondo minha opinião a respeito dos candidatos, fica claro assistindo ao vídeo quem vive numa São Caetano fictícia.




 

2009 ·Axis of Justice by TNB